segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Quadrinhos comparados: futebol

Decidi retomar o blog temporariamente para fazer uma leitura comparada de dois quadrinhos que li cuja a temática é futebol: Pelota, do brasileiro Daniel Esteves, em parceria com Alex Rodrigues, Omar Viñole, Al Stefano e Samuel Bono; e Super Onze, mangá seriado de autoria do japonês Tenya Yabuno.

Futebol e quadrinhos não são exatamente as substâncias mais miscíveis do mundo. É difícil lembrar de cabeça pelo menos cinco boas HQs sobre futebol. E é quase impossível citar uma que faça jus à paixão que o esporte bretão desperta nas pessoas. Não há falta de tentativas, mas devido ao pouco sucesso, elas tendem a ser escassas.

No Brasil, “o país do futebol”, os quadrinhos do tema parecem ser ainda menos bem sucedidos. Culpo isso a aparente falta de interesse da maioria dos fanáticos de uma paixão pela outra.  Mas com a copa que se avizinhava, as duas publicações ganharam a luz do dia, cada uma com suas peculiaridades.

Super Onze (Inazuna Eleven, no original) é um mangá que ainda está em publicação, terá 38 edições, contando a história de Mamoru Endo, goleiro e capitão do time da sua escola, que tem um histórico negativo imenso. O mangá vai mostrando as peripécias do goleiro em busca de grandes jogadores para que sua equipe possa se superar e ganhar o torneio que disputam.

Pelota é uma edição fechada, com duas histórias sobre bolas da copa. A primeira, chamada “Cafuza”, se foca na bola que foi usada na Copa das Confederações, em 2013. Na trama, um menino rico se recusa a deixar emprestar a bola, e quando aceita, não libera a Brazuca, a bola da copa do Brasil, mas sim sua versão da competição anterior. A segunda história é sobre a lendária Copa de 70, a bola “Telstar”, e um sujeito com dificuldades em lidar com as frustrações da vida.

O interessante em comparar as HQs é que, apesar de abordarem o mesmo tema, elas não poderiam ser mais diferentes. Yabuno constrói uma emocionante história de superação, mas sempre dentro dos limites da estrutura do mangá. A narrativa segue um padrão pré-estabelecido, similar à jornada do herói (a mãe de qualquer estrutura narrativa), e apresenta conceitos com as “técnicas especiais” dos jogadores que deixam as parti
das narradas mais com cara de lutas de games do que jogos de futebol. E tudo isso é extremamente divertido, mesmo voltado para um público infantojuvenil (recomendaria para leitores até uns 12 anos), todo mundo que lê a obra acaba cativado pela história e se pega comprando o gibi todas as quinzenas.

Enquanto isso, Esteves se foca em dramas mais cotidianos, mais palpáveis e verossímeis. Nas duas histórias, compõe tramas de forte impacto que são capazes de arrebatar qualquer leitor que já jogou uma pelada na vida. Em “Cafuza”, a história do “dono da bola” – expressão que de tão comum nos campinhos e ruas do Brasil se tornou parte do nosso idioma –, é extremamente bem capturada. Ela consegue ser uma história que ao mesmo tempo aconteceu com todo mundo, mas não aconteceu com ninguém, ou seja, universal mesmo sendo fictícia. Já “Telstar” vai por um caminho mais dramático, mas faz uma linda homenagem ao futebol, que atingiu a sua plenitude na Copa de 70. Ao contrário de Super Onze, Pelota é para um público adulto, mas pode ser lida perfeitamente por crianças que tem no ludopédio sua paixão.


Claro que ambas as HQs têm seus defeitos, e poderiam melhorar, mas são obras bem dignas, que se esforçam em contar como o futebol pode ser apaixonante e fascinante.  Eu se fosse você, experimentaria ambas. Super Onze no site da JBC e Pelota na Loja do Petisco.