sábado, 25 de setembro de 2010

Sábado dos meus Amores

Sinopse: Seis histórias de Marcelo Quintanilha sobre o cotidiano de pessoas comuns. São elas: “Plena de Flôroi”, “De como Djalma Branco Perdeu o Amigo em Dia de Jogo”, “Dorso”, “Escola Primária”, “Atualidade” e “A Fuga de Zé Morcela”.

Em Sábado dos meus Amores o artista brasileiro, radicado há anos na Espanha, Marcello Quintanilha retrata com vivacidade as pessoas de seus país natal.

São seis histórias ambientadas nos mais variados cantos do Brasil. Tramas sobre pessoas simples e comuns, sobre o cotidiano, sobre o dia a dia de todos e de ninguém que conheçamos em particular.

Apesar de serem narrativas palpáveis, o álbum não perde em interesse. Pelo contrário, cada HQ de Sábado dos meus Amores é marcante ao seu jeito e seduz o leitor.

Além disso, a arte de Quintanilha é soberba. Ele não ousa nos requadros ou na diagramação. Tal qual um filme, todos os seus enquadramentos são manjados. Entretanto, ele se destaca no design das cenas e dos personagens, conferindo alma a cada um deles.

Os rostos dos seus caracteres são bem diferentes entre si, seguindo padrões para cada etnia, por exemplo. Pode parecer óbvio, mas muitos desenhistas ignoram isso, montando diversos personagens com as mesmas caras.

Além das expressividades variadas, o autor consegue conferir humanidade às suas crias, por traços de personalidade e variaçãos na narrativa, apenas colocando detalhes como roupas abarrotadas mantendo-se nessa condição de uma cena para outra. Tudo é de um realismo impressionante, desde a garrafa de cerveja até o coletivo, passando pela jangada e pela lona de circo.

Outro aspecto importantíssimo da arte é a colorização. As cores de cada uma das histórias mantêm o clima ideal para elas. Quando é necessário vivacidade e cores vibrantes, como em “De como Djalma Branco Perdeu o Amigo em Dia de Jogo”, elas estão lá. Assim como quando é necessário cores frias para o ar soturno de “A Fuga de Zé Morcela”.

Se na arte o trabalho se destaca, os roteiros não ficam devendo em nada. Como dito, cada uma das HQs é situada em lugares diferentes no Brasil. E em cada um desses lugares, Quintanilha põe gírias e expressões idiomáticas típicas, denotando a localidade da trama mas sem ser forçado como numa novela global, por exemplo.

Os diálogos ficam, então, bem compostos e naturais, fazendo com que toda a HQ seja uma unidade indissociável. Colaborando para isso, as letras de Evandro Pimentel parecem feitas a mão e os balões se misturam com o resto da arte, formando intrincadas ilustrações.

Todo o trabalho de Marcello Quintanilha faz com que o álbum seja um dos melhores lançamentos de 2009 até o momento. Uma verdadeira obra de arte que pode e deve cativar tanto leitores habituais de quadrinhos quanto novatos.

Nerdshop
Sábado dos meus amores, de Marcelo Quintanilha (Conrad)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Relógio Insano

Sinopse: Em uma sociedade que vive sob um forte regime opressivo, as pessoas podem aceitar se submeter ao sistema ou tentar lutar pela libertação.

O Relógio Insano, do quadrinhista Eloar Guazzelli, é um título da ótima Coleção 100% Quadrinhos, da editora mineira Graffiti 76%, e que conta com o apoio de recursos públicos da prefeitura de Belo Horizonte.

O resultado desse projeto é um belo álbum independente, com um trabalho gráfico impecável, que carrega um conteúdo melhor ainda.

O livro narra uma história não-linear e de complexo entendimento para o leitor. Isso não é um problema, pois o objetivo do autor não é ser fácil, mas fazer com que as pessoas reflitam durante a leitura. A obra pode até ser considerada hermética.

Não é possível precisar onde a ação da narrativa ocorre. O que fica claro é que se passa numa realidade distópica, onde empresas e governos oprimem a população. Dado o contexto de produção do álbum e por algumas outras evidências, podemos considerar que é um Brasil futurista sombrio. Dentro desse mundo, há alguém em busca de suas origens.

Enquanto conta sua história, Guazzelli desfila uma arte de primeira qualidade, que se integra perfeitamente com o texto, tanto no sentido do roteiro quanto no de letreiramento. Alguns momentos o tom do texto é muito elevado, mas mesmo nessas circunstâncias o autor consegue manter a naturalidade.

O Relógio Insano é uma HQ que aguça uma leitura reflexiva e complexa do leitor e mostra que há vida (muito) inteligente na nona arte nacional.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Reinaldo – Desenhos de Humor

Sinopse: Compilado de diversos trabalhos quadrinhísticos do cartunista Reinaldo.

Jaguar, na orelha deste álbum, afirma que todo cartunista começa imitando alguém. Ele próprio, Jaguar, copiou Trez no início da sua carreira. Assim como Ziraldo, que imitava Smilby, do Punch. Ainda segundo ele, só dois cartunistas já nasceram prontos: Leonardo, ex-Pasquim e hoje no Extra, e o outro é Reinaldo, também ex-Pasquim, mas hoje no Casseta & Planeta.

Este álbum da editora Desiderata compila parte do seu trabalho, trazendo bons momentos de sua época do Pasquim, onde esteve de 1974 a 1985, do Planeta Diário, que durou até 1988, e ilustrações para livros de humor e para o site do Casseta & Planeta.

O álbum é composto de charges, cartuns e tirinhas dos mais diversos tipos (tem até uma fotonovela!), destilando o estilo de humor que ficaria ainda mais famoso no programa de TV. As piadas brincam com coisas do cotidiano do brasileiro, como a política, o capitalismo, a miséria etc. Destaque para o personagem do cartunista vagabundo Mongol, que tem uma parte do livro dedicada somente a ele. Reinaldo também faz humor sobre um tema que é fã confesso: o jazz.

Para entender o humor da obra é preciso se debruçar sobre o estilo do traço de Reinaldo, bem primário, sem muita elaboração. Isso porque cada uma de suas HQs na verdade são primeiro piadas e depois ilustrações e não o contrário. O desenho está a serviço de contar boas piadas e não perde tempo com virtuosismos desnecessários. E, nesse caso, menos é de fato mais, pois o leitor vai conseguir entender bem todas as piadas sem necessidade de mínima “explicação”.

Há algumas notas, mas elas funcionam mais como um “comentário do diretor”, onde o próprio Reinaldo explica algum detalhe ou curiosidade interessante sobre as páginas.

A edição da Desiderata tem muita qualidade, com textos introdutórios, bom tratamento gráfico (a exceção de algumas poucas páginas onde algumas imagens estão aparentemente “estouradas”), num formato inusitado. Inclusive, é importante destacar o ótimo trabalho dessa editora no cenário nacional, publicando diversos autores brasileiros de quadrinhos, sempre com muita qualidade, como é o caso dos álbuns A Boa Sorte de Solano Dominguez, de Wander Antunes e Mozart Couto e O Livro Negro de André Dahmer, entre outros.

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Reinaldo – Desenhos de Humor, de Reinaldo (Desiderata)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Quadrinhofilia

Sinopse: Diversos histórias curtas de José Aguiar, compiladas em álbum.

Análise: José Aguiar é um quadrinhista talentoso e prolífico. Já publicou em vários lugares, inclusive no velho continente em parceria com Wander Antunes. Este Quadrinhofilia vem para contemplar o seu excelente trabalho e divulgá-lo para o grande público.

No total são 14 histórias curtas sobre temas variados. Nelas é possível ver toda a versatilidade e domínio de narrativa de Aguiar, que mantém um bom trabalho em todos os momentos do livro, seja no roteiro e arte ou ilustrando textos de outros autores.

O álbum é aberto por uma HQ de uma página sem título que tem roteiro de Fernanda Baukat. Funciona como um prefácio em quadrinhos, praticamente introduzindo o leitor no clima da obra. A seguir um prefácio mesmo, assinado pelo jornalista Paulo Ramos.

Então tem o início o livro propriamente dito. E em grande estilo com a onírica Baile de salão que José Aguiar faz o texto e a arte. É uma HQ surreal que se passa num baile de carnaval mágico.

Em Poréns da vida herdada dos outros, a história seguinte, José Aguiar com quadros minimalistas e icônicos ilustra um fluxo de pensamento rápido e direto.

Abs Moraes assina o roteiro de Genealogia do mal ou "Eu fui um bebê diabo no ABC Paulista!” que explora o jornalismo sensacionalista misturado com uma história de terror sob o pano de fundo da ditadura. Já em Pirata! Aguiar faz uma divertida paródia de Dylan Dog, num dos grandes momentos do álbum.

Entropia, com textos de Gian Danton, mais uma devida homenagem as HQs européias, dessa vez as de ficção científica.

No fim, tudo é bem simples... é um grande trabalho, praticamente experimental. Aqui o autor brinca com uma narrativa sem balões quase metalingüística com um resultado bastante interessante.

Quadrinhos em outras bandas (desenhadas)!, uma semi-reportagem autobiográfica que narra a viagem do autor pelas bandas européias. História que já havia sido publicada na sumida revista Omelete.

Em Noite..., mais uma HQ sem diálogos mas bem narradas e marcante. O gabinete do Dr. Caligari é um conto de terror psicológico. Aqui, especialmente, o autor mostra que é possível fazer um ótimo trabalho em pouquíssimas páginas.

Absoluto talvez seja o ponto mais fraco do álbum, por ser mais uma história surreal mas se utilizando de uma idéia batida.

Para fazer O triste fim de João e Maria, Aguiar se aliou a Sabrina Lopes, que fez a história original. Mais uma vez, o traço versátil do autor se faz presente, destoando do apresentado no resto da obra. A história é um conto-de-fadas macabro.

Catarrinho do amor é uma divertida história que brinca com o costume brasileiro de dar nomes bizarros aos filhos.

Em Invasão, Gian Danton assina os desenhos enquanto José Aguiar cuida dos diálogos de mais um terror.

Para encerrar, a cômica O último milênio meu, e um posfácio do próprio autor, situando cada uma das HQs do álbum.

Diante de tantos trabalhos tão marcantes e diversos, o álbum não poderia ter outro nome que não Quadrinhofilia. Trata-se de um trabalho imperdível para todos os “quadrinhófilos”.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Resenha: Maligna – Para os que Amam ou Odeiam o Mágico de Oz

Sinopse: Elphaba nasceu verde e feroz, e todos acreditavam que fosse amaldiçoada. A menina cresceu e, no reino do repressor Oz, tornou-se a lendária Bruxa Má do Oeste.

O romance Maligna (Wicked ) é muito mais que um spin-off do clássico O Mágico de Oz, é uma redenção da personagem Bruxa Má do Oeste. Nesta obra, o autor Gregory Maguire desdobre o universo de Oz e nos apresenta toda a estrutura política e econômica do reino.

Fica claro que um dos desejos de Maguire é desvirtuar os valores da obra original. Elphaba (a Bruxa Má do Oeste) é uma garota inteligente e correta, que ganha o epíteto justamente por se rebelar contra o tirano Mágico de Oz. Dorothy é manipuladora. A bruxa Glinda é fútil e cai nas graças do povo por mera influência política. A Bruxa Má do Leste é Nessarose, meia-irmã de Elphaba, que posteriormente domina e subjuga o povo de sua região.

Por causa dessa escolha do autor, o livro em alguns momentos escapa do gênero infantojuvenil, especialmente quando descreve orgias. Mesmo assim, porque o livro se relaciona com o clássico infantil, a edição foi construída com base nesse público e em todas as livrarias a obra se encontra na sessão de livros juvenis.

A tradução de Chico Lopes é boa, mas poderia ser melhor. Em alguns momentos o texto fica desnecessariamente pedante. Mesmo assim, a narrativa flui e, depois das primeiras páginas, a leitura é rápida.

Maligna carrega um mesmo problema de Pride and Prejudice and Zombies: a promessa era grande e a obra não atingiu esse patamar. Mesmo assim, a obra agrada e possui enorme apelo comercial, tanto que foi transformada em peça musical da Broadway com muito sucesso.

É impossível negar o sucesso de Gregory Maguire. Maligna ganhou até sequência: O Filho da Bruxa e A Lion Among Men. Maguire ainda lançou spin-offs de outros clássicos, comoCinderela (Confissões de uma Irmã de Cinderela), A Bela Adormecida (A Bela Arremetida), Branca de Neve e os Sete Anões (Mirror Mirror) e vários outros.

Nerdshop:

Maligna, de Gregory Maguire (Ediouro)

domingo, 5 de setembro de 2010

Independência ou Morte

Celebrando o feriado de 7 de setembro, para quem não sabe, o dia da Independência do Brasil, segue um clássico vídeo do filme Independência ou Morte, de 1972, com Tarcísio Meira na papel de Dom Pedro I.



De arrepiar, não?

sábado, 4 de setembro de 2010

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Resenha HQ: Predadores

Sinopse: Assassinatos misteriosos incomodam a polícia. Todos os corpos são encontrados sem sangue e com um quisto misterioso atrás da orelha. Por trás disso tudo, uma sociedade vampírica secreta está ameaçada.

Predadores é uma série de quadrinhos franceses publicada originalmente pela editora Dargaud (sob o título de Rapaces) que a Devir trouxe ao Brasil.

A história se passa numa metrópole internacional sem nome, mas que poderia ser perfeitamente Nova York, devido aos clichês dos investigadores de polícia e de vários outros personagens.

Uma bizarra onda de crimes vem varrendo essa cidade. Pessoas têm sido encontradas mortas, sem sangue, e com um misterioso quisto atrás da orelha.

Nesse contexto, a policial Vicky Lenore tanta descobrir a verdade por trás desses crimes, que o leitor já é apresentado de antemão: uma sociedade vampírica existe em segredo, mas alguém a está dizimando – os irmãos Drago e Camilla. O maior mistério é “por quê?”. Aos poucos Vicky se envolve com os dois irmãos e com a tal sociedade, numa trama repleto de sexo e violência.

Predadores é uma competente HQ de suspense e terror. Seu roteiro é construído como um bom thriller, instigando o leitor. A narrativa é bem feita e os diálogos, apesar de as vezes soarem um pouco teatrais e afetados, convencem.

Por tudo isso, o roteiro de Jean Dufaux é o ponto alto do álbum. Os desenhos de Enrico Marini também são de muita qualidade. A narrativa visual é bem feita, imitando enquadramentos de cinema e remetendo graficamente ainda mais aos thrillers.

O principal defeito dos desenhos talvez seja o exagero no corpo feminino. Todas as mulheres são compridas e bem servidas de seios, sendo que muitas vezes esse exagero sai um pouco do belo e cai no bizarro. Mas no geral, a arte é igualmente competente em relação ao texto.

Até mesmo o preço está bastante camarada, destoando um pouco do que a Devir costuma cobrar em trabalhos com esses cuidado e formato, valendo a pena comprar toda a série, já publicada na íntegra pela editora.

Nerdshop:

Predadores, de Jean Dufaux e Enrico Marini (Devir)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

IV Semana de Quadrinhos UFRJ

Como já é tradicional, neste mês de setembro ocorrerá a Semana de Quadrinhos UFRJ. Para divulgar as informações do evento, os organizadores mantém um blog.

Pulverizado em vários locais no Rio de Janeiro, o evento conta com oficinas e palestras que pretendem discutir e divulgar a nona arte. Confira a programação completa clicando aqui.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Pequenos Guardiões

Sinopse: A história de um mundo sem seres humanos, onde pequenos ratos mantêm cidades, plantações e comércio, numa sociedade similar a da Idade Média. Os responsáveis pela segurança das cidades fortificadas e das rotas de comércio formam a Guarda. São eles que monitoram o clima, vigiam as fronteiras e afastam os persistentes predadores. Mas o tênue equilibrio que os ratos se encontram está prestes a ser quebrado.

Os Pequenos Guardiões é uma HQ diferente do habitual. A começar pelo formato 20,5x20,5 cm, similar ao de livros infantis. Na verdade, os leitores desavisados podem perfeitamente confundir o gibi com uma típica obra da literatura infantil. Não é.

Os ratinhos antropomórficos das capas podem ajudar a criar essa sensação. Mas se bem observado, o leitor notará que os tais pequenos guardiões tem um ar soturno e sério. A arte do miolo, inclusive, detalhada, séria e supreendentemente realista, ajuda a criar o ar sombrio necessário para a trama.

David Petersen, mesmo, é um renomado autor de livros infanto-juvenis, sendo Os Pequenos Guardiões seu trabalho mais renomado lá fora.

A trama é pesada. A Guarda, formada pelos protagonistas da história, vive numa constante paranóia pela possibilidade de uma guerra com as Doninhas ser reavivada. A história principal começa com a descoberta de um traidor e saída em busca do inimigo.

Todas as edições são rechedas de ação, aventura e a filosofia de vida dos ratinhos, definida pela frase-chavão: "não importa contra o que se luta, mas pelo que se luta". O ritmo é alucinante e o leitor fica desesperado ao fim de um volume se não tiver o próximo nas mãos. Destaque para a batalha de grandes proporções no final da saga, com uma arte matadora.

O principal problema da edição da Conrad. Em formato diferenciado, com um ótimo tratamento gráfico, o preço de R$ 12 para 24 páginas pode afastar os leitores ou impedir que eles adquiram logo de uma vez os dois primeiros álbuns. Faltou também um prefácio dos editores brasileiros falando um pouco mais sobre a obra, mas isso é perfeitamente contornável; a questão do preço é mais espinhosa.