terça-feira, 31 de agosto de 2010

O Prolongado Sonho do Sr. T

Sinopse: Num mundo povoado por personagens estranhos, como o tigre do teto do mundo, um sábio chinês, o sinistro Scallywax e suas filhas sedutoras, o Sr. T. descobre pouco a pouco a trama de amor e morte em que está envolvido. Uma viagem ao subconsciente de uma mente dividida entre o bem e o mal, entre a liberdade e a prisão.

Análise: O Prolongado Sonho do Sr. T é a HQ de estréia da editora Zarabatana no mercado. E uma ótima estreia. A história, do espanhol Max, conta a experiência real do sonho do comerciante Cristóvão T., que passou 40 dias em coma na U.T.I. do Hospital Son Dureta, em Palma de Mallorca, e ao despertar pediu lápis e papel às atônitas enfermeiras. Durante as semanas seguintes, ele preencheu três cadernos com uma narração detalhada de tudo o que havia "sonhado".

Esse tema inusitado gerou uma HQ surreal, cheia de simbolismos, uma verdadeira viagem instrospectiva. A arte é bem executada, em preto e branco, e é bem diferente de tudo que estamos habituados a ler por aqui. A narrativa simples e mas eficiente, mesmo com momentos bastante complexos e estranhos. O livro é de leitura agradável e intrigante.

A HQ autoral de primeira qualidade. Um prenúncio do ótimo trabalho que a Zarabatana vem desenvolvendo.

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O Prolongado Sonho do Sr. T, de Max (Zarabatana)

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Prontuário 666 – Os anos de cárcere do Zé do Caixão

Sinopse: A história se passa durante os 40 anos em que Zé do Caixão esteve preso - desde 1968, logo após o clássico filme Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver até o atual Encarnação do Demônio.

Análise: Aproveitando o lançamento do comentado filme Encarnação do Demônio, do cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão, a editora Conrad preparou uma HQ que serve de prelúdio para o filme.

Prontuário 666 – Os anos de cárcere do Zé do Caixão se passa no período em que Zé do Caixão esteve encarcerado por quarenta anos, o mesmo período de tempo entre entre o filme atual e o último do personagem, Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver.

Concatenar diferentes mídias como quadrinhos e cinema para contar uma história, além de uma boa estratégia de marketing, é algo corriqueiro em outros países, mas no Brasil ainda era novidade. Portanto, por si só, a ousadia da editora e dos autores já é interessante.

Mas mesmo se não tivesse um bom filme para sustentá-la, a HQ Prontuário 666 – Os anos de cárcere do Zé do Caixão por si só já valeria o investimento por ser uma excelente HQ.

A trama se passa em 1988, vinte anos após a prisão de Zé do Caixão, e vinte anos antes da sua soltura. Nela, Zé do Caixão lida com presidiários sórdidos, policiais corruptos e eventos aparentemente sobrenaturais. Com todos esses elementos, a trama de terror é para ser lida num fôlego só, indo numa crescente que mantém o leitor com os olhos grudados no gibi.

Os desenhos de Samuel Casal estão em perfeita sintonia com a história, dando um ar sombrio e desvariado, com uma narrativa densa e, ao mesmo tempo, simples. Ao ler a HQ, chega ser impossível imaginá-la em qualquer outro traço conhecido.

O livro tem ainda um ótimo texto de apresentação e desenhos de Zé do Caixão por outros autores brazucas no final.

Se você gosta de terror, veja o filme i]Encarnação do Demônio e leia o livro-prelúdio, Prontuário 666 – Os anos de cárcere do Zé do Caixão.

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Prontuário 666 – Os anos de cárcere do Zé do Caixão, de Samuel Casal (Conrad): R$ 18,90

sábado, 28 de agosto de 2010

Sam Noir: Detetive Samurai

Sinopse: Num típico caso de investigação, o detetive samurai Sam Noir se apaixona pela investigada. Mas antes que ela posso falar com ele, a moça é assassinada e agora Sam Noir está atrás de vingança.

Sam Noir: Detetive Samurai é uma das duas edições de estréia da editora Landscape no mercado de quadrinhos.

Trata-se de uma HQ publicada originalmente pela Image Comics nos EUA, dos autores Eric A. Anderson (roteiro) e Manny Trembley (roteiro e arte), que mescla histórias noir de detetive com aventuras de samurais.

O principal atrativo do gibi é a bela arte em preto-e-branco Manny Trembley. O desenhista é um especialista na arte sombreada e seu estilo casa perfeitamente com o clima necessário para a história. Sua narrativa visual também funciona muito bem, fazendo a leitura fluir muito bem graficamente.

Entretanto, se há um bom trabalho no sentido de arte, o mesmo não pode ser dito do roteiro. A idéia de reunir na mesma história detetives noir, ao melhor estilo Dashiell Hammett e Raymond Chandler, com samurais foi péssima.

A HQ consegue desagradar tanto aos fãs da histórias de samurai quanto aos fãs de histórias de detetives durões ao misturar elementos das duas.

Fica claro que a principal influência dos autores é Sin City, de Frank Miller. Mas diferentemente do trabalho de Miller, eles não conseguiram encontrar um equilíbrio na narrativa. Todos os elementos parecem artificiais e os recursos do roteiro são clichês já repetidos à exaustão.

O aspecto positivo da HQ é o bom tratamento gráfico da edição da Landscape. Há reservas de verniz na capa e um bom acabamento ao álbum.

Mas editorialmente o livro deixa um pouco a desejar. Falta algum texto introdutório ou um posfácio contextualizando a obra. O único extra do livro são as biografias dos autores, repletas de piadinhas sem graça que contrastam com a pegada sombria da história.

Leia pela curiosidade, mas apenas por isso.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Mortos-Vivos Vol. 3 - Segurança atrás das grades


Sinopse: Liderados por Rick Grimes, o grupo de sobreviventes busca refúgio no prédio de uma antiga prisão de segurança máxima. Só que acabam se deparando com ex-detentos.

Análise: Escrita por Robert Kirkman, Os Mortos-Vivos é uma boa série de terror psicológico, envolvendo zumbis, e sobretudo, humanos em situações precárias. E, como um bom filme de zumbi, a interação problemática entre os humanos é o grande mote da história, como o jornalista de Sidney Gusman levanta em seu posfácio dessa edição.

Essa abordagem ganha ainda mais força nesse volume pois nele o grupo de sobreviventes chega a uma prisão, e nela tenta se manter longe dos zumbis. Só que lá dentro se esconde o verdadeiro perigo.

A interação entre os ex-detentos da prisão e os sobreviventes, além de novas situações complexas impulsionam a leitura do álbum, que mesmo com mais de 140 páginas, parece acabar rápido.

A arte da HQ Charlie Adlard combina perfeitamente com os tons de cinza de e Cliff Rathburn, conferindo o clima pesado que a narrativa demanda.

A edição da HQM está muito boa. No fim do livro há todas as capas originais. O único porém fica para a sazonalidade do título, que não tem nenhum tipo de periodicidade.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O segredo do décimo terceiro apóstolo

Sinopse: Um monge é assassinado, antes de morrer confia um terrível segredo ao seu melhor amigo, o padre Nil. O monge estava prestes a descobrir uma epístola que poderia abalar o Ocidente, mas foi silenciado antes de terminar a pesquisa. O amigo prossegue a busca do que estava oculto por séculos. Algo que Roma, Meca e Jerusalém vão fazer de tudo para impedir.

Análise: Uma leitura rápida da contracapa de O segredo do décimo terceiro apóstolo (Le secret du Treiziéme Apôtre, tradução de Maria Alice Araripe de Sampaio Doria), imediatamente levará a uma comparação, já bem clichê nos thrillers históricos, temos mais um rival de Dan Brown e seu Código Da Vinci. Escrito pelo ex-monge beneditino francês, Michel Benoît, especialista em história da origem do cristianismo, o livro revela um mundo oculto, que arrastará seus leitores às sombras dos princípios da civilização ocidental.

Lançado pela Bertrand Brasil, o romance segue o suspense de um segredo. Perigoso para os cristãos, inquietante para os judeus e provocador para os islâmicos. Desde a crucificação de Jesus Cristo até a atualidade, apóstolos, papas e outros poderes religiosos e políticos o escondem sigilosamente. Ocultando o segredo, o Vaticano jamais permitiu sobre a existência de um décimo terceiro apóstolo e impediu toda manifestação que levasse a desvendar a real verdade: uma epístola escrita pelo próprio nazareno.

O autor até assinala que sua narrativa segue a história da humanidade, cheia de violência, mentiras e manipulações, a qual o Vaticano se comportou como uma sociedade secreta poderosa, recorrendo sempre ao pior para manter esse poder. O segredo do décimo terceiro apóstolo é um thriller ambicioso, por criticar a atual Igreja Católica e relatar uma narrativa que mistura o religioso, o histórico, o metafísico, a realidade da ficção. Segundo suas próprias palavras: “Não há nenhuma relação entre Jesus e Roma. Entre Ele e os evangelhos e tudo que veio depois há um abismo incomensurável chamados dogmas.”.

Assim sua narrativa apresenta o monge Andrei – talvez um alter ego do autor – e sua investigação ante os pergaminhos do Mar Morto. E estava prestes a descobrir algo que mudaria por completo a nossa concepção de Igreja católica fundada por Pedro, assim como a própria figura de Jesus. Quando decide informar o conteúdo de sua pesquisa, é morto no trem Roma-Paris. Seu amigo e discípulo mais direto retoma as investigações, e acaba descobrindo uma realidade diferente de tudo que sabia sobre sua religião.

Não encontraremos aqui sociedade secretas, nem tampouco reviravoltas perante outros segredos. Seguindo a linha do clássico de Umberto Ecom O nome da rosa, o livro transcorre o fictício com o verossímil, numa intriga solidamente documentada, que certamente quem o ler ficará com “a pulga atrás da orelha” pela forma que o argumenta apresenta o Vaticano. Só para dar um exemplo, o vilão da história, é um cardeal austríaco, favorito do papa João Paulo II, uma figura importante do conservadorismo, que quando jovem foi da juventude hitlerista, que no romance chama-se Cartzinger, um personagem daqueles bem malévolos, que durante os anos 1940 assassinou vários inocentes. Uma crítica ao atual papa? Provavelmente.

Benoit escreve dentro do gênero histórico, mas mesmo sabendo que é uma ficção, não há nenhum indício apresentado que aquilo que lemos pudesse ter ocorrido na realidade. O segredo do décimo terceiro apóstolo foi planejado dentro da reformulação histórica das origens do catolicismo, de sua relação com os judeus e com os muçulmanos. Uma releitura da história que dá um novo parâmetro ao gênero e cujo autor consegue escrever com seriedade, perfeitamente estruturado sem cair nos erros mais freqüentes do estilo. Leiam sem medo da ‘verdade’...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Resenha HQ: Kingdom Hearts

Sinopse: Sora é um jovem cheio de vontade de explorar o mundo com seus amigos Riku e Kairi. Os três estão trabalhando duro numa pequena embarcação para poderem sair da ilhota que os abriga. Entretanto, quando estão prestes a começar sua jornada, uma misteriosa força surge do nada, seqüestrando os amigos de Sora, que só escapa devido a uma arma mágica em formato de chave, que o transporta para uma estranha cidade. Lá, ele encontra com Donald e Pateta, também em busca de um amigo desaparecido, o rei Mickey.

Análise: Em 2002 foi lançado para o console de videogame Playstation 2, um jogo elaborado por duas empresas poderosas no mundo do entretenimento: a norte-americana Walt Disney Pictures e a japonesa Square, famosa pela sua linha de jogos de RPG para diversas plataformas.

O jogo se chamava Kingdom Hearts e trazia uma improvável reunião dos personagens da Square, a maioria da franquia de jogos Final Fantasy, e os da Disney, como Donald, Pateta, Mickey e Pluto.

Na trama, Sora se junta a Donald e Pateta. Os três se embrenham numa viagem por diversos mundos que são, na verdade, ambientações de longas-metragens da Disney, como Hércules, Aladdin, A Pequena Sereia, O Estranho Mundo de Jack, entre outros.

A adaptação em mangá, feita por Shiro Amano e lançada pela Enterbrain no Japão e pela Tokyo Pop nos Estados Unidos, segue a trama do jogo à risca.

Com um necessário enxugamento de algumas seqüências, o roteiro pega o essencial da trama e traduz perfeitamente no mangá. A arte detalhista e limpa de Amano casa bem o estilo mangá dos personagens de Final Fantasy com o estilo ocidental antropomorfo de Donald e Pateta. Os fãs do jogo notarão uma certa diferença de traço de Sora, Cid e os outros, entretanto, o autor fez uma adaptação para melhor enquadrar ao seu estilo.

O grande problema do mangá, porém, é a narrativa. A combinação da narrativa e trilha sonora sombrias com o humor, que funcionava perfeitamente no jogo, soa falsa e sem graça na HQ. Não há nenhum momento que realmente empolgue o leitor e também não há nada de novo para quem já conhecia o jogo.

O TPB de Kingdom Hearts lançado pela Tokyo Pop, que tem leitura ocidentalizada, mas manteve as onomatopéias no original, pode ser facilmente encontrado no site da Amazon ou mesmo na Livraria Cultura. Mas só vale para quem for realmente fã do game.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Resenha: Menina Infinito

Sinopse: Primeiro álbum da personagem Mônica, criada pelo quadrinhista Fábio Lyra na série “Menina Infinito” da revista Mosh.

Menina Infinito é umas das HQs que mais se destacou dentro da excelente revista independente Mosh. Apresentando uma personagem comum, humana, insegura e um pouco gordinha, com histórias simples mas profundas, a série cativou todo mundo que deitou os olhos nela.

Tanto, que a série mereceu um álbum com histórias novas, que vieram nesse ótimo álbum da Desiderata. Em três histórias independentes, Fábio Lyra desvelou o que tinha de melhor em seu trabalho.

Todas as tramas falam de eventos possíveis do dia-a-dia. Quem nunca teve nenhum amigo que quis dar um chute no saco, ou um amigo que arrumou uma namorada “Yoko Ono” que o afastou do grupo?

Exatamente por abordar esses temas tão comuns aos leitores é que a HQ consegue cativá-los. Mas a abordagem de Lyra não é nem um pouco simples. Seus personagens são complexos, com defeitos e reações verossímeis ao comportamento do ser humano. Não é porque a narrativa não é uma saga épica que ela é pueril, muito pelo contrário, exatamente por ser voltada ao cotidiano que Menina Infinito consegue ser profundo.

É de se notar que, apesar das histórias do álbum se passaram numa cidade, no tempo presente e ter temas comuns, elas passam longe do que se vê, por exemplo, em novelas. Não há qualquer patuscada que são típicas desse tipo de narrativa. As tramas de Menina Infinito são quase reais, poderiam acontecer com qualquer um, não uma tola versão moderna de contos de fada.

Interessante notar que por ser oirunda da Mosh, revista independente que mesclava quadrinhos e rock, a contextualização das histórias tem muita influência da música. Mônica é colecionadora de vinis velhos e se apaixona facilmente por rapazes que fazem cds mixados. Há ainda a presença dos ambientes de festas e bares onde a música se faz presente.

Por último, a arte de Fábio Lyra é a ideal para as suas HQs. Ele não precisa se desdobrar desenhando músculos e detalhes que não acrescentariam nada a narrativa. Por isso tem tempo para se dedicar a expressividade dos personagens, o que faz com precisão.

Por tudo isso, Menina Infinito é um álbum imperdível para quem procura HQs inteligentes.

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Menina Infinito, de Fábio Lyra (Desiderata)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Os Espiões

Sinopse: Um editor alcoólatra responsável por avaliar originais em uma pequena editora se vê às voltas com um mistério único quando recebe uma carta de Ariadne, moça da cidade interiorana Frondosa. Com crimes passionais e mocinhas sequestradas à vista, uma operação espiã é organizada pelo protagonista, mas nem tudo é o que pareceà primeira vista.

Análise: Cronista renomado, Luis Fernando Verissimo é garantia de best-seller. Seus livros de crônicas, puxado pelo carro-chefe Comédias da vida privada, são os favoritos de muitos no gênero. Já seus romances, mesmo vendendo bem, chamam menos atenção do público. Talvez pelos seus enredos um pouco bizarros, que subvertem clichês e enveredam por caminhos que o leitor não está habituado. Esse é o caso de Os Espiões, seu último romance.

Trata-se de um livro que, mais uma vez, pega um conceito - no caso os dos livros de espionagem - e o adapta para um universo brasileiro cômico. O protagonista, conhecido pelo seu pseudônimo Agomar Peniche, narra em primeira pessoa a história de Ariadne, moça do interior que lhe manda capítulos de seu livro contando uma louca história de amor e traição, que ele assume ser a dela mesma.

Na narrativa, é possível notar diversos elementos recorrente de outros textos de Verissimo, como a mocinha do interior, as esbórnias nos bares, homens de meia idade, pseudo intelectuais e referências literárias das mais variadas e inusitadas.

Na trama, aos poucos o interesse do personagem se torna paixão e ele envolve seus loucos amigos em uma história de espionar Ariadne e a fauna urbana de Frondosa, sua cidade.

Por meio de personagens tipos bizarros, Verissimo faz o que faz de melhor em sua literatura: humor. E garante boas risadas o tempo todo para os leitores, mesmo em passagens trágicas. Interessante notar que a grande crítica valoriza muito Verissimo, mas ignora os componentes do humor em seu texto. Como se fazer rir fosse menos que fazer chorar ou refletir.

Não caia nessa, leitor. Os Espiões é uma comédia, e das boas.

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Os Espioões, de Luis Fernando Verissimo (Alfaguara)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Local - Fim da Jornada

Sinopse: Continuação da história de Megan McKeenan, a cada capítulo numa cidade diferente dos EUA, desta vez focando mais profundamente em Megan e nas pessoas ao seu redor.

Análise: Se na primeira parte, Ponto de Partida, as viagens de Megan serviam para mostrar os cidadãos comuns das cidades pelas quais ela passava, em Local – Fim da Jornada acontece o oposto: as histórias das pessoas ao redor dela servem para enterdemos quem é a protagonista Megan McKeenan.

O primeiro capítulo do livro, o sétimo da saga de Local, é sobre um primo problema de Megan. Os autores Brian Wood e Ryan Kelly constroem a narrativa da vida do adolescente com requadros com textos de cartas que Megan manda para ele de suas viagens. Os conselhos que ela dá e os anseios que ela divide criam o tom apresentado nos desenhos. O resultado é excelente e faz com que esta seja a melhor história do volume.

Nas tramas subsequentes, o leitor tem a oportunidade de conhecer mais sobre a mãe de Megan, seu pai e seu irmão. Tudo isso prepara terreno para o comportamento da personagem no último capítulo, no qual ela precisa exorcizar seus fantasmas para finalmente poder se fixar em algum lugar.

Dessa maneira, Wood e Kelly criam uma obra de quadrinhos memorável e acessível. Memorável por ser bem construída, narrativas precisas, com histórias marcantes e personagens interessantes. Acessível por abordar pessoas comuns, que poderiam fazer parte da vida de qualquer um e, portanto, um álbum que poderia ser lido por qualquer leitor.

Destaque especial para a arte em preto e branco de Kelly. Sua evolução é sentida ao longo das histórias. Os últimos capítulos ganham detalhismo e os personagens, expressividade. No principío era até difícil reconhecer Megan em meio às cenas. No fim, seu rosto é mais marcante.

Mais uma vez a edição da Devir está de parabéns, repleta de extras como ensaios dos autores, rascunhos e capas originais. Tudo à altura do que uma obra do calibre de Local merece.

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Local – Fim da Jornada, de Brian Wood e Ryan Kelly (Devir)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Trailer Dylan Dog

Sucesso na Itália há bastante tempo (e com várias tentativas frustradas de ser publicado no Brasil), Dylan Dog vai virar filme em Hollywood, e o papel do detetive do sobrenatural será de Brandon Routh. O trailer foi divulgado recentemente e o resultado não é muito animador, mas vale a pena conferir:

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Macanudo nº 1

Sinopse: Coletânea de tirinhas do argentino Liniers, publicadas em português pela primeira vez.

O recém-lançado Macanudo é uma compilação das primeiras tirinhas publicadas pelo argentino Liniers no jornal La Nación. Alcançando grande sucesso em seu país de origem, graças a sua grande qualidade, não tardou para ele se tornar conhecido do público brasileiro, mesmo sem ter seus trabalhos traduzidos por aqui.

Tendo em vista esse status cult que Liniers já tinha por essas bandas, até que demorou para alguma editora nacional investir no argentino. Mas a espera valeu a pena. A Zarabatana fez um trabalho primoroso, sobretudo no sentido gráfico. O livro tem um formato diferenciado que valoriza a disposição das tiras, é inteiro colorido, tem um projeto gráfico diferenciado e várias coisas a mais, como as fotos de pingüins nas segunda e terceira capas.

Se a embalagem é boa, o conteúdo é melhor ainda. O autor publica suas tiras em um jornal de grande circulação. Diante disso, sua proposta é que as HQs aliviassem o leitor de todas as más notícias e pessimismo diário do periódico.

Com isso em mente, o trabalho de Liniers apresenta um humor leve, quase metafísico, que traz ao leitor uma sensação de conforto.

Para isso, o autor usa uma série de personagens que se revezam. Alguns aparecem em pequenas séries de duas ou três tirinhas. Mas há outros mais recorrentes, como os pingüins, os duendes, ou o Robô Sensível Z-25.

Na menina Enriqueta que é acompanhada do urso de pelúcia Madariaga e do gato Fellini é possível ver as principais influências de Liniers, como Calvin de Bill Waterson e Mafalda de Quino. Porém, ainda nessas tiras, o principal são as situações cotidianas bem exploradas e as sensações suscitadas no leitor.

Uma coisa interessante é que a HQ tem um efeito notado por muitos leitores. É muito fácil e agradável se recordar das tirinhas depois de lê-las. Duas pessoas que conhecem o trabalho do argentino podem passar horas conversando sobre as HQs que mais gostaram.

Voltando ao álbum em si, apesar do ótimo trabalho da Zarabatana no sentido de edição e adaptação do texto, em alguns momentos a tradução soa artificial. Algumas palavras como “pestanejar” soam antiquadas nas falas dos personagens e a adaptação para a cultura brasileira é funcional, mas saber que o trabalho é estrangeiro acaba matando a graça de algumas dessas piadas adaptadas.

Fora isso, Macanudo é um trabalho que beira a perfeição.

Nerdshop:
Macanudo, Liniers (Zarabatana)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Resenha: Malditos Paulistas

Muitas pessoas, como eu, devem ter lido Marcos Rey na pré-adolescência, com seus livros da lendária Coleção Vaga-Lume, a maioria deles policiais. Quem achou que O Mistério do Cinco Estrelas não tinha uma “versão” adulta se enganou. Se Marcos Rey era bom na literatura juvenil, é na adulta em que ele se supera.
Um pouco irônico, beirando o cronista (mas não o sendo), Rey consegue retratar o cotidiano paulistano, porém sem utilizar estereótipos e lugares-comuns. Ele, na verdade, usa e abusa do humor, tornando a leitura de sua obra ainda mais interessante.
Malditos Paulistas é assim. Raul é um carioca que veio para São Paulo em busca de um emprego e de mudanças em sua vida. Ao aceitar um trabalho como motorista particular, ele percebe que a elite do Morumbi está longe de ser perfeita, e as intrigas então começam. Muitas mulheres, apartamentos no Guarujá, bares ao redor do porto, tudo isso envolve o personagem, que não cessa a busca por respostas e por justiça (pessoal, claro).
O mais engraçado do livro nem são as situações descritas – por exemplo, como o chefe de Raul enriqueceu com bonecas (títeres) da Carmem Miranda –, mas sim Carioca e suas respostas e comentários.
A edição da Companhia das Letras é bem agradável de ler, apesar da capa pouco chamativa. Todas as escolhas gráficas combinam com a linguagem do livro, bastante dinâmica. De qualquer forma, atualmente é mais fácil encontrar as obras do autor na Editora Global, que há uns anos comprou todos os direitos de publicação.
O surpreendente de Malditos Paulistas é a redescoberta do autor e, em especial, perceber que ele é ainda melhor do que lembrávamos.
Nershop:
Malditos Paulistas, de Marcos Rey (Companhia das Letras)

sábado, 14 de agosto de 2010

Midnight Nation

Sinopse: David Grey e Laurel finalmente chegam em Nova York e precisam passar por uma última provação antes de recuperar a alma do herói.

Ao longo Midnight Nation é contada a saga de David Grey em busca de sua alma, J. M. Staczynski e Gary Frank levam o leitor por uma viagem bizarra cruzando a América, criando no melhor estilo road-movie uma verdadeira “road-HQ” . Momentos marcantes, emocionantes e enigmáticos permeiam todo o caminho.

A história tem um um clima místico. Fantasmas, almas penadas, realidades paralelas, até mesmo um pitada de magia são suas temáticas.

A HQ se desenvolve no melhor estilo hollywoodiano, começando com um tira investigando homicídios de traficantes e se envolvendo em algo que não compreende. A trama é bem amarrada e obriga o leitor a querer ler o resto o quanto antes. Os desenhos de Gary Frank só tem a acrescentar.

Quem acompanhou Midnight Nation não podia esperar pelo próximo número, tal a ansiedade de saber logo como terminava a história. E quem chegou até esse último número não se decepcionou.

Staczynski não se preocupa em explicar precisamente quem é Laurel ou seu adversário. A ecos bíblicos, mas podem ser livre-interpretados. O interessante da trama é a decisão que David fará no final que determinará se ele reaverá ou não sua alma.

No fim há um posfácio de Staczynski explicando como ele criou a história de Midnight Nation e o quanto ela tem ligação com sua própria história de vida. O texto esclarece muito, mas não é necessário para entender a trama.

Spoiler: Mais um detalhe, aquela conversa enigmática entre o herói e si mesmo mais velho, como diriam Bill & Ted, fica bem menos enigmática na segunda vez.

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Midnight Nation - o povo da meia-noite nº1, Straczynski (Panini)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Mesmo Delivery

Sinopse: A companhia Mesmo Delivery é responsável por um misterioso sistema de entrega contrata o boxeador Rufus para dirigir um caminhão. Ele é acompanhado por Sngrecco, um ex-imitador de Elvis Presley. Antes de chegar em seu destino, os dois se envolvem em uma briga com figuras ainda mais bizarras.

Mesmo Delivery é o primeiro trabalho do brasileiro Rafael Grampá depois dele ter faturado o Eisner, o “Oscar” dos quadrinhos, por seu trabalho na antologia 5. Na esteira do prêmio, a HQ foi lançada quase simultaneamente nos EUA e no Brasil.

Ao ler o álbum fica claro o motivo do reconhecimento internacional do autor. Trata-se de uma obra de imensa qualidade, tanto no roteiro quanto na espetacular arte.

A trama é um pouco estranha e, no fundo, simples. Apesar de não ser muito complexa, Grampá desfila uma imensidade de personagens marcantes e bizarros. O autor tem o domínio da narrativa, tanto no sentido de desenvolvimento da história quanto no sentido gráfico.

A história é contada de uma maneira não linear, revelando aos poucos ao leitor o que é o Mesmo Delivery e quem são as pessoas que estão envolvidas com ele. Graficamente, cada página é uma aula de quadrinhos. Mesmo com diagramação simples dos quadros, Rafael Grampá usa diversos outros recursos para impulsionar o leitor a continuar na história.

Artisticamente, o trabalho é impecável. Retículas excelentes, um traço diferente e atraente, onomatopéias integradas a arte, uma paleta de cores impressionante – escolhida pela próprio autor mas a colorização é assinada por Marcus Penna – e, sobretudo os enquadramentos.

Quando o assunto é enquadramento de cenas e “tomadas”, Grampá é um verdadeiro mestre. Suas “câmeras” são ousadíssimas, totalmente diferente do que estamos habituados a ler. Ele usa os recursos dos quadrinhos ao máximo, pegando cenas que seriam impossíveis de ser reproduzidas no cinema, por exemplo.

A edição da Desiderata está a altura do conteúdo. Capa cartonada com reserva de verniz e cores especiais, papel couchê no miolo e introdução de ninguém menos que Lourenço Mutarelli.

Por tudo isso, Mesmo Delivery já coloca Rafael Grampá no hall dos grandes autores de quadrinhos da atualidade. Mas com certeza, essa HQ fará muito mais que isso, colocará o autor ainda mais em evidência no mercado internacional de quadrinhos. E com justiça.

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Mesmo Delivery, de Rafael Grampá (Desiderata)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Local - Ponto de Partida

Sinopse: Todos têm um lugar que chamam de lar, tendo crescido lá ou não. E esse lugar pode muito bem acabar definindo uma boa parte do que você é ou vai se tornar. Tendo isso em mente, cada capítulo deste livro enfoca a vida da jovem Megan McKeenan numa cidade diferente dos EUA, mostrando um pouco do dia-a-dia de pessoas normais diante de situações e escolhas nem sempre tão simples.

Local de Brian Wood (roteiro) e Ryan Kelly (desenhos) é uma ótima história em quadrinhos sobre temas cotidianos. Ela difere da maioria das HQs que povoam as bancas e livrarias por não ter nenhum tipo de ação, violência ou comicidade. Trata-se uma densa história que vai fundo na mente dos personagens e fala visceralmente de problemas humanos.

Mas dizer que Local é uma história só é um equívoco. Na verdade, cada capítulo é uma história diferente de Megan McKeenan em diferentes cidades norte-americanas. Aqui podemos traçar um pequeno paralelo com um herói mascarado: como o Spirit de Will Eisner, Megan não necessariamente é a protagonista das histórias, mas ela é o elo que une todas elas.

Em cada lugar, a moça tem de conviver com um mosaico diferente de personalidades e de situações inusitadas, as vezes causadas pelos locais, mas na maioria das vezes por ela mesma.

Mas Megan nunca cria raízes. Talvez por avidez por aventura, talvez por algum tipo de inquietação, ela não consegue ficar no mesmo lugar ao fim de cada uma das histórias. Mas o fato que fica claro é que Megan tem medo de se relacionar e deixar envolver pelas pessoas.

Os bons argumentos das tramas são amarrados pelo traço de Ryan Kelly, competente na narrativa mas com uma arte um pouco suja, que não deve agradar todos os leitores. Seu principal pecado sãs as expressões dos personagens. Muitas vezes é difícil saber quem é quem ou mesmo identificar Megan diante dos outros. Por duas vezes, mesmo, esse recurso é utilizado nas histórias.

Em compensação, Ryan faz um ótimo trabalho com os cenários, parte importantíssima dessa “road” HQ. Todas as cidades são muito bem caracterizadas por meio de referências fotográficas. Se o leitor visitar as cidades citadas, encontrará os locais retratados.

Por tudo isso, Local é uma ótima HQ tanto para fãs da nona arte quanto para aqueles que só procuram um bom presente para um amigo. Ou seja, é um gibi que pode ser lido e apreciado por todos, iniciados ou não.

E com um bônus de que ao fim de cada história há comentários dos “diretores”, Brian Wood e Ryan Kelly explicam as influências, o processo de feitura e a trilha sonora. Há ainda prefácio, extras como rascunhos e biografia dos autores, caracterizando um bom trabalho editorial.

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Local – Ponto de Partida, de Briam Wood e Ryan Kelly (Devir)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Leões de Bagdá

Sinopse: Bombardeios norte-americanos no Iraque atingem um zoológico, liberando um bando de leões que precisam aprender a lidar com a inesperada liberdade.

Baseado numa história verídica, divulga na imprensa, sobre os leões que escaparam de um zoológico em Bagdá após um bombardeio norte-americano, o roteirista Brian K. Vaughn criou a metafórica O Leões de Bagdá.

Na HQ, o bando de leões anseia por liberdade, mas não tem capacidade de escapar do zoológico. Como o próprio povo iraquiano, consegue a inesperada liberdade graças a um bombardeio norte-americano.

Nessa fábula pós-moderna, Vaughn, ao lado do desenhista Niko Henrichon, retrata o caminho da família de leões pela Bagdá recém-destruída compondo-a de diversas referências e figuras míticas que levam o leitor a refletir e ser envolvido pela trama.

Cada um dos leões tem lideranças e comportamentos humanos típicos. O macho, Zill, é um líder pragmático e indeciso. Opta, na maiora das vezes pelo caminho mais simples para os seus. Já a fêmea mais jovem, Noor, mãe do intempestivo Ali, é a mais decidida da trupe. Seu comportamento é claramente de uma líder motivadora. Por último, Safa, é uma anciã que lidera pelo conhecimento, pela sabedoria, e que carrega muitas marcas de feridas, tanto no seu corpo quanto nas suas memórias.

Além disso, a todo momento eles relembram os clássicos personagens leões de outras histórias. O filhote Ali é a cara do jovem Simba, de o Rei Leão. Já Zill tem o comportamento muito parecido com o Leão Covarde de O Mágico de Oz.

A arte de Henrichon é um espetáculo à parte. O desenhista compôs as cenas muito bem detalhadas, com destaque, sobretudo, para as cores, que estão na medida certa. Todos os tons remontam o clima árido do Iraque. Mesmo quando estão próximos do rio Tigre, fica clara a sensação climática.

No que tange os leões, outro show. Mesmo sem apelar para a antropomofirzação dos animais, Henrichon conseguiu conferir-lhes as expressões humanas mais marcantes, como angústia, hesitação ou mesmo desejo.

A edição da Panini está competente, e com um preço muito bom, o que torna o álbum ainda mais imperdível.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Gênesis

Sinopse: Numa Terra devastada uma sociedade bem diferente se forma: as Ilhas Repúblicas. Separados do restante do mundo por uma cerca em pleno oceano, seus habitantes vivem em isolamento forçado. Tudo que se aproxima dessa cerca, ou é destruído ou executado. Até que um soldado escolhe romper as regras e, em vez de disparar, resgata uma menina das águas.

Análise: Pegue um pouco de O planeta dos macacos, de O Exterminador do Futuro, de Eu, Robô, de Inteligência artificial e mescle com um pouco de história da filosofia, e assim chegaremos ao livro Gênesis do neozelandês Bernard Beckett, lançado por aqui pela Intrínseca, com tradução de Braulio Tavares. Uma emocionante fábula, numa narrativa digna dos grandes nomes do sci-fi, como Isaac Asimov, Huxley, Philip K. Dick, Brian Aldiss, um thriller filosófico com toques humanistas.

Ambientada na segunda
metade do século XXI, a narrativa recorre aos pensadores gregos na reflexão sobre a fragilidade da civilização ocidental. Nesse futuro uma estudante chamada Anaximandra inicia sua prova de admissão à Academia.

O exame é rigoroso, pois a instituição é o
principal órgão de governo daquela utópica sociedade. Ao longo da sessão extenuante de quatro horas, Anax, é indagada por perguntas que suscitam questões importantes sobre história, ética e filosofia que a levarão a descobrir uma verdade assustadora daquele mundo novo. A narrativa avança para um desenlace surpreendente, contudo avisamos ao leitor, que pelo meio do livro, há vários reajustes que dão ao fio argumentativo um final bem diferente daquele previsto nas primeiras páginas, que poderá levá-lo a voltar para o inicio.

Os diálogos, perguntas, reflexões, hologramas expostos no exame são
maneiras que o autor nos conta sua narrativa. Inquietante pela luta dialética de quem acredita numa verdade e para aqueles que sabem o que há por trás daquilo tudo, Gênesis é de uma ingenuidade cativante, conduzindo o leitor a um futuro em que antigas – e ETERNAS – questões filosóficas se chocam com o avanço tecnológico, quando o significado de ser humano, de ter consciência e de ter uma alma tornam-se questões fundamentais Quebra-cabeças e reviravoltas em poucas páginas, numa linguagem simples, despretensiosa, o livro venceu o 2006 New Zealand Post Book Award, a mais importante premiação de ficção para jovens da Nova Zelândia. O resultado é uma aventura sci-fi honesta pelo modo simples de entreter, pela lógica contundente, pelo intenso ritmo da narrativa que levará a um final impactante.

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Gênesis, de Bernard Beckett (Intrínseca)

sábado, 7 de agosto de 2010

O Livro Negro de André Dahmer

Sinopse: Coletânea de tirinhas do autor André Dahmer, publicas originalmente no jornais Jornal Do Brasil e Folha de São Paulo; nas revistas Sexy e Bizz; e em seu site Malvados.

Recentemente a editora Desiderata inaugurou sua linha de quadrinhos. E a escolha de títulos não poderia ser melhor: o Livro Negro de André Dahmer e Mais Preto no Branco, de Allan Sieber.

André Dahmer é um autor de quadrinhos que ganhou certa fama na Internet com seu ótimo site de tirinhas diárias Malvados, inaugurado em 2001. Nele, são narradas historinhas ácidas com dois girassóis como protagonistas. Com o passar do tempo, o autor criou novos personagens e sagas, sempre ácidas e hilariantes.

Neste Livro Negro, Dahmer compila seu trabalho sem colocar uma única tira dos Malvados. Inclusive, não há qualquer referência sobre seu trabalho mais famoso, a não ser nas orelhas do livro.

As HQs desse volume são, em sua maioria, melancólicas e ácidas. Seu humor é em cima de grandes desgraças da vida, como alcoolismo, adultério, tirania etc. Isso dá ainda mais charme a obra.

Seu traço é particular, dá uma impressão de uma falsa simplicidade mais é bastante complexo no sentido que traduz diretamente o que o autor quer ilustrar. Há algum experimentalismo, como por exemplo uma tirinha feita só de rabiscos.

A qualidade gráfica do álbum é impecável. As páginas em preto liso estão ótimas, sem nenhuma falha como é de praxe. Para baratear os custos da obra, a capa é inteira em P&B e tons de cinza, mas artisticamente ficou sensacional.

O Livro Negro de André Dahmer é um ótimo lançamento da linha de quadrinhos nacionais, imperdível para quem é fã de um humor sarcástico e mordaz.

Nerdshop:
Livro Negro de André Dahmer, Desiderata

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Tio Patinhas originou Inception?

O blog Cineblog descobriu em uma HQ do Tio Patinhas a ideia do filme Inception de Christopher Nolar (veja a resenha clicando aqui), de sonhos compartilhados.

A imagem segue abaixo:


Será que Nolan se inspirou no invento do Professor Pardal?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Leão Negro – Pepah

Sinopse: Othan, o Leão Negro, é apresentado a sua filha bastarda com a pantera negra Pantah, Pepah. A menina mestiça que quer ser uma guerreira como o pai. Mas seu herdeiro legítimo, Kasdhan não gosta nada da idéia.

No longínquo ano de 1987, estreava na seção de quadrinhos do jornal O Globo as histórias de Othan, o Leão Negro, criado por Cynthia Carvalho e Ofeliano de Almeida.

Remetendo as HQs de Conan, as aventuras do Leão Negro, passadas em um mundo medieval habitado por felinos antropomórficos, fizeram um relativo sucesso. Agora a editora HQM está revivendo esse personagem, sendo com histórias inéditas, como essa do álbum Pepah, ou reeditando as tiras clássicas publicadas no jornal.

O Leão Negro é um personagem carismático, um anti-herói mercenário sem muitos valores morais. Sua imagem pode ser associada, como já dito, a Conan, o Cimério. Mas Othan, seu verdadeiro nome, tem vida própria. Suas HQs são recheadas de aventuras e apresentam boas tramas, que devem agradar os leitores mais exigentes.

Pepah conta a história da filha de Othan, homônima ao álbum. As relações familiares tortas dos leões e felinos norteiam a história. Há ação, mas ela fica um pouco em segundo plano na relação de Pepah e seu irmão.

O roteiro é bem amarrado e deixa o leitor interessado até o final. Os desenhos de André Mendes e Danusko Campos adaptaram bem o personagem para o formato álbum e conferem uma narrativa visual gráfica interessante, mas sem muita inovação na diagramação dos quadros.

O grande ponto negativo fica para os tons de cinza, aplicados pela autora Cynthia Carvalho. Os tons ficaram carregados, denso, tirando a luz da história. A finalização está tão exagerada que quase matou a arte ou mesmo o roteiro.

Passado o estranhamento inicial, é possível ler o álbum sem maiores problemas, mas é preciso levar em consideração esse grande defeito.

Ao terminar de ler a HQ, o carisma do personagem fica marcado no leitor. Queremos ler mais e conhecer mais de sua história.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Justiceiro – Bem Vindo de Volta, Frank

Sinopse: Frank Castle, o Justiceiro, está de volta, e trava uma guerra sem trégua contra o crime. Seu primeiro alvo é a família mafiosa Gnucci, encabeçada pela famigerada Mama Gnucci. Mas a Força-Tarefa Especial do Justiceiro da polícia de Nova York, liderada pelo azarado detetive Soap, jurou acabar com Castle.

Análise: Após passar um período como um anjo vingador (!?), Frank Castle voltou a ativa da melhor forma possível: caçando e matando marginais. O grande estilo do retorno é culpa do britânico sanguinário (impossível classificá-lo de outra maneira) Garth Ennis e seu companheiro de lápis Steve Dillon.

A dupla responsável pela série Preacher resgatou o brio do Justiceiro depois de sua fase anterior tenebrosa. E, pelo visto nesse encadernado, os leitores tem muito a agradecer a esses dois.

Todas as 12 histórias da edição, originalmente publicada pela Abril na famigerada fase Premium e, posteriormente, pela Panini na extinta revista Paladinos Marvel, são violentas, bem humoradas, inteligentes e divertidas.

A trama principal, na qual Justiceiro vai destruindo a família Gnucci é o tom certo para conduzir o arco. Paralelamente a isso, Ennis vai apresentando pequenas outras histórias que vão se amarrando a principal aos poucos, como é o caso dos vigilantes inspirados no Justiceiro: o Santo, Elite e o Troco. Outra história de destaque é a força-tarefa para caçar Frank Castle, composta exclusivamente pelo detetive Soap, que depois ganha a ajuda da voluptuosa detetiva von Ritchofen.

Interessante notar a diferença da narrativa e das tramas dessa primeira fase de Ennis a frente do personagem, com a mais recente, publicada na revista Marvel Max. As histórias que tinham como principal tônica o humor negro, ficaram mais sérias, com forte teor social. A série até mudou de selo dentro da Marvel, passando do Marvel Knights para o MAX.

Quem ainda não leu essas HQs de Justiceiro tem uma ótima oportunidade nesse álbum de 284 páginas, que tem um bom tratamento gráfico e editorial, a exceção talvez de algum texto explicando o que tinha acabado de acontecer com o velho Frank Castle.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Além do Túmulo - The 39 Clues Vol. 4

Sinopse: Dan , Amy e Nelli chegam ao Egito, atrás da próxima pista. Lá outros membros do Clã Cahill os esperam, bem como muitas recordações da avó Grace.

Análise: Cada novo volume da série 39 Clues é escrito por um autor diferente. Naturalmente, cada um deles torce a história para um tema que domina mais. Dessa maneira, Rick Riordan abriu a série compondo uma aventura que vai e volta no tempo repleta de cenas de ação no primeiro volume, O Labirinto dos Ossos. Gordon Norman faz uma aventura mais cerebral, repleta de enigmas em Uma Nota Errada, o volume seguinte; e Peter Lerangis foca mais em sentimentos amorosos no terceiro, O Ladrão de Espadas.

A autora desta quarta parte da história, Além do Túmulo, Jude Watson, opta por outro caminho, o de explorar o íntimo de seus protagonistas e a relação deles com a avó morta Grace Cahill. Dessa maneira, Watson compõe mais profundamente as emoções das crianças, levando o leitor a um grau de identificação com os protagonistas enorme, isso sem abandonar as aventuras e os enigmas que são a tônica da série.

Merece destaque a composição da indagação interna de Amy, questionando se as brigas dela com o irmão e com a memória da avó morta a levava cada vez mais dentro do clã Cahill, uma família na qual a traição e a desconfiança são uma constante. Esse momento mostra um certo rebusque, mas apenas o bastante para uma narrativa juvenil.

Tudo isso nos leva a afirmar que Watson é, até o momento, a melhor autora que já passou por 39 Clues. E vai deixar os fãs empolgados pela continuação dessa que é uma das melhores séries juvenis que já aportaram em livrarias brasileiras.

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Além do Túmulo - The 39 Clues Vol. 4, de Jude Watson (Ática)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Resenha: Os Sete

Sinopse: Após uma expedição amadora de mergulho, um grupo de amigos encontra uma caravela naufragada há mais de 500 anos na costa do Rio Grande do Sul. Ao fazer o resgate da nau, porém, algo demoní­aco foi despertado.

Análise: Os Sete é um romance sobre vampiros escrito pelo brasileiro André Vianco. A obra e o autor notabilizaram-se pelo grande sucesso que conseguiram.

Literatura especulativa (que abrange fantasia, ficção científica e terror) nunca teve uma tradição muito grande no Brasil. Seus fãs costumam preferir trabalhos estrangeiros. Além disso, a maioria dos autores brasileiros têm a tendência de escrever sobre assuntos sociais e mais realistas. Por isso o espanto diante do sucesso de Vianco.

Mas só por isso. Ao ler o livro, nota-se a estrutura consagrada que o autor usa para sua narrativa: herói obstinado, mocinha em perigo, inimigos mortais, muita ação e aventura. Além disso, a edição da Novo Século conta com a bela capa Christian Pinkovai que dá destaque ao livro.

Tudo isso aliado ao tema de vampiros, em moda na época do lançamento do livro (fim da década de 90, início dos anos 2000), contribuiu para o sucesso da obra.

A narrativa de Vianco, apesar de abusar de diversos clichês, prende o leitor, que fica interessado na história de Thiago e como ele fará para derrotar inimigos tão poderosos e nefastos. O clima de suspense inicial é bem construído. Depois que os vampiros se revelam a história perde um pouco da força, mas consegue se sustentar até o final, com um bom gancho para a continuação: O Sétimo.

Entretanto, há diversos pontos do livro que incomodam. Primeiro é a necessidade narrativa de Vianco de reafirmar a todo instante que o sotaque dos vampiros é lusitano. Toda vez que uma deles abre a boca, o narrado conclui “com um forte sotaque lusitano” ou algo do gênero. No fim do livro, o leitor pensa consigo mesmo “ok, já entendi, eles eram portugueses”. Isso atravanca a leitura.

Outra coisa que tem efeito similar é o fato de que os editores optaram por grafar os números por extenso. Como há muitas referências a datas, números como 493 ficam “quatrocentos e noventa e três”, fadigando o leitor.

Também há a questão da verossimilhança. Claramente, Vianco fez muitas pesquisas para escrever seu romance. Mas deixou outras essenciais de fora. Por exemplo, a caixa de prata que carregava os vampiros tem inscrições em três línguas, mas nenhuma é o latim, praticamente a língua comum do período em que os demônios foram enclausurados.

Apesar de todos esses problemas, Os Sete merece o sucesso que conseguiu, pelo simples fato de tê-lo conseguido, mas também pela ousadia do autor e da editora. Outro ponto positivo é que a partir de sua publicação, muitos outros autores de literatura especulativa conseguiram tirar os seus originais da gaveta.

Nerdshop:
Os Sete, de André Vianco (Novo Século): R$ 39,90

domingo, 1 de agosto de 2010