sábado, 31 de julho de 2010

Irmãos Grimm em quadrinhos

Sinopse: Adaptação de diversos contos de fadas nas famosas versões dos Irmãos Grimm.

Análise: Irmãos Grimm em quadrinhos é uma excelente iniciativa da editora Desiderata, e, particularmente, de seu editor de quadrinhos S. Lobo.

Num projeto ousado de reunir diversos autores de quadrinhos do cenário independente num grande álbum que adapta os contos de fadas dos Irmãos Grimm.

Sabidamente, muitos autores de quadrinhos nacionais sofrem de preconceito dos leitores. Muitas vezes, não sem razão, pois muitos quadrinhistas nacionais não saem do amadorismo e tentam clamar os leitores por um possível patriotismo. Além disso, grande parte desses autores tem um inegável talento para o desenho, mas deixam a desejar no roteiro.

Irmãos Grimm em quadrinhos dribla todos esses preconceitos, pois reúne autores talentosos nos dois aspectos trabalhando em histórias já consagradas, mas apresentando numa roupagem diferente.

Um a um, os trabalhos são:

“Velho Sultão” de Allan Alex, que narra a história do maroto cão Velho Sultão para se livrar da morte certa. Uma abertura com chave de ouro na belíssima arte de Allan Alex.

”A Gata Borralheira” de Fido Nesti. O autor já adaptou, com maestria, os Lusíadas para a editora Peirópolis e agora apresenta a mesma desenvoltura para dar a versão de uma das mais famosas histórias dos Grimm.

A seguir vem “O Pequeno Polegar” de Daniel Og. Mais um bom trabalho, numa HQ curta. É interessante notar que o trabalho de todos os desenhistas tem traços particulares, que ficam ainda mais acentuados diante do contraste com o trabalhos dos outros.

Já “João Porco Espinho” de Claudio Mor, é uma divertida história moralizante dos irmãos. A narrativa de Claudio More bem desenvolvida e seu traço caricato dá um ar leve para a trama.

A famosa “Os Músicos de Bremen” ficou no traço de Vinicius Mitchell. História muito divertida, cuja arte do desenhista acentuou. Destaque para os tons de cinza.

O trabalho seguinte, de Carlos Ferreira (texto) e Walter Pax (arte) em “Hansel e Gretel (João e Maria)” é bem mais pesado. A arte a lápis de Pax dá um clima tenso é mórbido para a trama. A história, que naturalmente já é medonha, ficou ainda mais tenebrosa.

”João Sortudo” de Rafael Sica apresenta o personagem muito utilizado na série do selo Vertigo Fábulas mas pouco conhecido no Brasil.

”Branca de Neve” de Rafael Coutinho é, disparado, o melhor trabalho do álbum. Como é um dos mais famosos contos de fadas, senão “o” maior, Coutinho fugiu do óbvio e fez um trabalho fenomenal.

Eduardo Filipe ilustrou a narrativa ”O Rei Barbicha” , mais um dos contos moralizantes dos irmãos alemães.

Em ”Chapeuzinho Vermelho” , Arthuro Uranga fez um trabalho bom, mais burocrático, no sentido de não apresentar nenhuma nova leitura sobre essa fábula marcante.

”Margarete Esperta” de Roberta Lewis é uma típica história alemã, que, em muito, lembra as narrativas de Juca e Chico.

Os desenhos de Odyr para ”As três línguas” são de muita qualidade, mas a sensação que se tem ao ler a adaptação é que ela acabou ficando muito curta, poderia ter sido mais desenvolvida, sobretudo o clímax.

O mesmo pode ser dito de “Rapunzel” do ótimo Fabio Lyra.

Para encerrar em grande estilo, “A Bela Adormecida” de Allan Rabelo, do próprio S. Lobo e do Sr. Blond.

Pelo conjunto, Irmãos Grimm em Quadrinhos é um dos ótimo trabalho nacional nas livrarias.

Nerdshop
Irmãos Grimm em Quadrinos, vários (Desiderata)

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Invencível – Negócios de Família

Sinopse: Mark Grayson, era um jovem comum, com uma vida comum, até descobrir que é filho de um dos super-heróis mais poderosos da Terra.

Análise: Invencível é uma HQ muito divertida sobre a adolescência (in)comum de um filho de super-herói que segue os passos do pai, que é uma clara referência ao Superman. As histórias são despretensiosas e enfocam muito mais no cotidiano comum de Mark, como desventuras amorosas, evitar bulling na escola e a relação familiar, do que nas aventuras da sua versão poderosa.

Isso não implica que as aventuras de Invencível de seu pai não sejam legais. Muito pelo contrário, são bem interessantes, mas não diferem da maioria das histórias de super-heróis. Por isso mesmo que esse não é nem o enfoque nem o melhor do álbum.

Esse foi o álbum de estréia da editora HQM e com nada menos que as quatro primeiras edições do título original Invincible, com capa exclusiva produzida no Brasil, introdução de Kurt Busiek, sketchbook dos personagens, reprodução das capas originais, reserva de verniz, lombada quadrada com orelhas, etc.

Todo esse rebusque é muito bem vindo, mas parece soando um pouco demais para a série que é bem simples e, na verdade, não demandaria tanto.

Mesmo assim, Invencível – Negócios de Família é uma excelente opção nas comic shops e merece ser conferida pelos fãs de HQs, sobretudo de super-herói.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Resenha HQ: O Instituto


Sinopse: Um homem recorre a um instituto secreto para resolver um problema com sua esposa. Isso acaba o envolvendo numa trama cheia de mistérios sobre o tal Instituto.

O Instituto é uma excelente HQ nacional, que não fica devendo nada para roteiros de filme de suspense hollywoodianos.

O roteiro de Osmarco Valladão é rápido e direto, sem enrolação. Já os desenhos de Manoel Magalhães são muito bons e bem característicos. Com isso, a narrativa se torna cinematográfica.

Há alguns problemas também na edição. A HQ foi publicada em tons de cinza, isso deixou a arte um pouco carregada. Há alguns problemas gráficos, como o letreiramento em algumas páginas que está estourado e serrilhado. A ilustração da última página está totalmente estourada.

Os dois autores lançaram também The Long Yesterday, da editora Comic Store, outra excelente história, dessa vez sobre viagem no tempo. Infelizmente a Comic Store não deu continuidade ao projeto por problemas financeiros.

Mesmo assim, quem encontrar esse excelente álbum nacional não pode perder a oportunidade de adquiri-lo e lê-lo sem demora.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Resenha: Incidente em Antares

Sinopse: A greve geral na pequena cidade de Antares contou com a presença também dos coveiros, e até o cemitério foi fechado. Naquela sexta-feira 13, os sete mortos insepultos decidem lutar pelo direito de serem enterrados.

Análise: Este livro pode ser lido por dois tipos de pessoa: os que já leram alguma obra de Verissimo e os que nunca leram nada.

Quem nunca entrou em contato com a obra do autor talvez se surpreenda com a qualidade do texto. Não há firulas e rococós, nem grandes descrições nem linguagem difícil. Em tempos em que as vendas de livro são dominadas por best-sellers, encontrar um texto bem-escrito chega a ser um alívio.

Aqueles que já leram algo do autor também encontram na obra uma diferença sutil mas bastante perceptível. Incidente em Antares, como pode ser conferido no prefácio da edição da Companhia das Letras, foi uma obra diferenciada desde sua concepção: Verissimo não utilizou seus métodos tradicionais de redação.

O que temos, então, é uma obra muito importante, uma voz a favor da liberdade. Mas não esperem encontrar jargões de luta libertária. A crítica à repressão só pode ser encontrada na ironia presente no texto e nos absurdos das atitudes de alguns personagens.

A política é o palco de Verissimo, e é até estranho quando ele não trata dela. Mesmo assim, ele sempre se afasta de posicionamentos críticos em relação às ações de seus personagens. Fica a cabo do leitor fazer isso – o que é ótimo.

Claro, o autor não se isenta tanto assim da responsabilidade. Diferentemente do que faz em O Tempo e o Vento, em que retrata a história do Rio Grande do Sul por meio da família Terra Cambará, aqui ele faz questão de mostrar que o tema é, sim, a política.

A história de Antares é contada na primeira parte do livro. É apenas na segunda metade, quando já se está habituado com personagens, ambiente etc., que os mortos de fato morrem e depois se levantam para lutar por seus direitos. Tudo isso em meio a uma greve geral (e em uma sexta-feira 13...).

A grande questão que se coloca aqui é a falsidade das relações sociais. Os mortos, por estarem mortos, não precisam de mais nada deste mundo, e (para usar a mesma expressão do livro) as máscaras são enfim depostas.

Talvez o que falta dizer é que o incidente relatado na ficção ocorreu em 13 de dezembro 1963, poucos meses antes do golpe que, na História, instituiu a ditadura militar no Brasil. Assim, é quase impossível não chorar ou pelo menos se arrepiar ao ler as últimas linhas do livro.

Nerdshop:

Incidente em Antares, de Erico Verissimo (Companhia das Letras)

terça-feira, 27 de julho de 2010

Invencível – Negócios de Família

Sinopse: Mark Grayson é um estudante como a maioria dos jovens da sua idade, que trabalha num fast food depois das aulas e nos finais de semana, que curte muito as garotas e que gosta de acordar tarde aos sábados até que seus desenhos animados prediletos comecem na tevê. Só que Mark é filho de um dos super-heróis mais poderosos da Terra.

Análise: Invencível – Negócios de Família é uma HQ muito divertida sobre a adolescência (in)comum de um filho de super-herói que segue os passos do pai (uma clara referência ao Superman). As histórias são despretensiosas e enfocam muito mais no cotidiano de Mark, como desventuras amorosas, evitar bulling na escola e a relação familiar, do que nas aventuras.

Isso não implica que as aventuras de Invencível de seu pai não sejam legais. Muito pelo contrário, são bem interessantes, mas não diferem da maioria das histórias de super-heróis. Por isso mesmo que esse não é o enfoque nem o melhor do álbum.

Esse foi o álbum de estréia da editora HQM e com nada menos que as quatro primeiras edições do título original Invincible, com capa exclusiva produzida no Brasil, introdução de Kurt Busiek, sketchbook dos personagens, reprodução das capas originais, reserva de verniz, lombada quadrada com orelhas, etc.

Todo esse rebusque é muito bem vindo, mas parece soando um pouco demais para a série que é bem simples e, na verdade, não demandaria tanto.

Mesmo assim, Invencível – Negócios de Família é uma excelente opção nas comic shops e merece ser conferida pelos fãs de HQs, sobretudo de super-heróis

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Elenco completo de Vingadores

Acabou a Comic-Con de San Diego, mas quem lá foi, viu pela primeira vez reunido o elenco e diretor de Vingadores. Confira no vídeo abaixo:

Resenha: Numerati

Sinopse: Todos os dias, deixamos uma série de pistas sobre nossas atividades e consumos, tanto online quanto fora da rede. Esses dados podem ser armazenados, cruzados e analisados em busca de informações úteis para políticos, lojas e instituições. Quem decodifica esses dados são os Numerati.

Análise: Na era da informação, é natural que deixemos rastros de tudo o que fizermos, tanto online, por meio de nossos endereços de IPs e acessos em áreas logadas do Google ou Yahoo, quanto fisicamente em cadastros e programas de fidelidade em lojas, supermercados, editoras e nos mais variados bancos de dados.

Tudo isso é convertido em dados que podem tanto ajudar as empresas a vender mais e políticos a receber mais votos, quanto ajudar hospitais a prevenir mais doenças e a polícia a evitar mais crimes.

Quem decodifica esses dados são os que o autor Stephen Baker chama de Numerati, pessoas especialistas em transformar informações em números e estatísticas.

Em sete capítulos distintos, o livro aborda como essas informaçõs a nosso respeito estão mudando a maneira do mundo encarar a si mesmo. Cada um desses tomos da obra analisa um ponto diferente que os Numerati estão influenciando.

No primeiro, “Funcionário”, é contado como as empresas podem aumentar a produtividade de seus funcionários interpretando bem os dados fornecidos pelo trabalho deles.

O seguinte, e também o mais interessante do livro, é “Consumidor”, sobre lojas tanto de comércio online quanto físicas, que utilizam os dados fornecidos pelas compras de seus clientes para oferecer melhores preços e produtos aos consumidores certos. Esse é o mais fácil de se comprovar e tomar contato, basta acessar agora sua área logada em sites como Submarino e Lojas Americanas e observar ofertas especiais na sua página, geradas a partir do seu histórico de compras.

O capítulo 3, “Eleitor”, aborda como os hábitos dos eleitores podem ser codificados e decodificados em possíveis votos. Particularmente, um capítulo mais voltado para a realidade norte-americana, que tem sua política polarizada entre Partido Democrata e Partido Republicano.

Já o capítulo 4, “Blogueiro”, fala sobre a poderosa ferramenta de comunicação que os blogs se tornaram, interferindo na difusão e divulgação das informações.

Outra capítulo bastante americano, mas de interesse mais global, é o quinto: “Terrorista”, sobre as grandes agências de contra-terrorismo dos EUA e do mundo, que tem seus Numerati trabalhando para antecipar as ações dos mais temidos grupos criminosos do mundo.

“Paciente”, o sexto tomo, talvez seja o mais útil, revelando que é possível monitorar e antecipar doenças mais precisamente por meios de dados coletados eletrônica e constantemente.

O último, “Namorado”, é um tanto quanto mais frívolo, e aborda os sites de relacionamentos amorosos, muito comuns nos EUA.

O livro mostra que há gente empenhada em desvendar os segredos do comportamento humano, seja para vender mais, seja para salvar mais. O processo é complexo, mas já está em andamento.

No geral é um trabalho interessante e que abre infinitas possibilidades para a humanidade, mas é assustador pensar que, tal qual o clássico de George Orwell, 1984, os nossos passos estão sendo seguidos e, que por mais que o autor afirme que são analisados apenas como números e não associados as identidades das pessoas, eles estão sendo observados.

Nerdshop:
Numerati, de Stephen Baker (Arx)

sábado, 24 de julho de 2010

Courtney Crumrin & o Pacto dos Místicos

Sinopse: Courtney continua seu aprendizado pouco ortodoxo com seu tio. Só que agora, a menina toma contato com a sociedade dos Místicos e descobre que a sociedade magia também tem seus problemas.

O primeiro volume da história de Courtney Crumrin, Courtney Crumrin & as Criaturas da Noite, apresenta em histórias curtas o universo mágico criado por Ted Naifeh. Com narrativas com uma pegada semelhante às infanto-juvenis como Harry Potter e Crônicas de Spiderwick, mas que quebram a expectativa óbvia com diversas sacadas de humor negro, Naifeh criou uma série de quadrinhos que cativa logo na primeira aventura lida.

Neste segundo volume, Courtney Crumrin & o Pacto dos Místicos, o autor Ted Naifeh continua com sua estrutura de narrativas curtas, só que dessa vez elas se juntam para formar uma história mais longa. Ou seja, há um fio condutor, que é a trama do acusação de assassinato contra elfo Skarrow.

No meio disso, pequenas histórias nas quais Courtney se envolve mais com o mundo da magia e tenta livrar a cara de Skarrow.

Em uma narrativa juvenil convencional, esperar-se-ia clichês e um desfecho água-com-açúcar. Só que as histórias de Courtney Crumrin não são convencionais e, a cada capítulo, Naifeh guarda uma surpresa para o leitor, que o faz mergulhar ainda mais no livro.

A arte em preto e branco, com um acabamento repleto de sombras, dá oclima tenebroso necessário para as histórias. Interessante que sem grandes ousadias gráficas, mas com um trabalho competente, a arte de Naifeh é agradável e marcante.

A soma de tudo isso é um álbum de qualidade indiscutível e uma excelente opção de leitura. E fica a torcida para que a Devir continue publicando as histórias de Courtney Crumrin.

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Courtney Crumrin & o Pacto dos Místicos, Ted Naifeh (Devir)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Resenha: Noturno

Sinopse: Um avião pousa em Manhattan com o mistério de que, a exceção de quatro, todos os seus passageiros estão mortos. Nesse avião também estava um caixão misterioso. Tudo isso é o pré-requisito para uma infestação de vampiros em Nova York.

Guillermo Del Toro é conhecido por seus filmes que evocam o terror e o fantástico. O resultado da sua parceria com o escritor Chuck Hogan (premiado autor de livros de terror e já elogiado por Stephen King) resultou nesse Noturno (The Strain), primeiro volume do que ambos planejam chamar de Trilogia das Trevas.

O livro é uma divertida história de terror clássica, no qual um pequeno grupo precisa enfrentar uma infestação de criaturas demoníacas. No caso, vampiros.

A estrutura da história, portanto, não tem nada de inovador. Na verdade, lembra bastante outras narrativas, como Os Sete de André Vianco. Há o perigo misterioso, o ceticismo inicial, um especialista no assunto e muitas cenas de ação.

Em dados momentos, a trama parece montada tal qual um game, com os personagens passando fases cada vez mais difíceis, até chegar ao chefão. Há ainda figuras típicas da jornada do herói, como a dama em perigo e o mestre sábio.

Mesmo com todo esse formato pasteurizado, os autores encontram espaço para observar e criticar a sociedade norte-americana. Há trechos sobre a questão dos imigrantes, sobre divórcios, sobre carreiras e, principalmente, a invasão de vampiros é uma grande metáfora sobre a paranoia americana pós-11 de Setembro.

Por isso tudo, Noturno é uma leitura divertida e reflexiva, além de funcionar como crônica do seu tempo, ilustrando metaforicamente o mundo à sua volta.

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Noturno, de Guillermo Del Toro e Chuck Hogan (Rocco)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Novo Trailer de TRON Legacy

Aqueles que, como eu, são fãs do primeiro TRON vão curtir o trailr novo de TRON Legacy, divulgado na Sna Diego Comic-Con hoje:

Fun Home – Uma Tragicomédia em Família

Sinopse: Relato autobiográfico da Alison Bechdel, um verdadeiro contraponto da personalidade opressora de seu pai.

Análise: Fun Home é uma HQ diferente do habitual. Trata-se de um complexo romance gráfico autobiográfico denso e profundo, focado na relação antagônica da protagonista e seu pai.

Logo nas primeiras páginas a relação de Alison, a narradora, e seu pai Bruce vai sendo desvendada. Alison é lésbica e desde criança se sentia pouco à vontade em roupas femininas e fazendo coisas de meninas. Já seu pai, um homossexual mal resolvido, passava horas decorando e redecorando a casa da família da maneira mais espalhafatosa possível.

Após isso ficar bem demarcado nas primeiras páginas, a HQ passa a não ter uma linearidade clara. Os fatos e discussões do livro vêm e vão de maneira cíclica. Eventos, como quando Alison finalmente se revela lésbica para os pais e sua mãe conta que seu pai também teve casos homossexuais, se repetem diversas vezes na HQ. Isso porque a história não é sobre fatos mas sim sobre um relacionamento de pai e filha. A HQ então mergulha fundo na cabeça de Alison, que é a principal personagem desse drama familiar.

Outros personagens importantes, como sua mãe, seus irmãos e sua primeira namorada, também são desvendados. Seus desejos e temores e a importância deles para a trama principal são profundamente explorados.

A relação familiar, na verdade, é o principal mote de Fun Home. A família, cheia de problemas e relacionamentos difíceis, é dona de uma funerária que funciona na própria casa, dando um ar meio bizarro ao seu convívio familiar, comparado com o da Família Adams por Alison. O próprio nome do livro, faz referência a essa funerária fazendo um trocadilho com Fun que significa “feliz” em inglês mas também é o início da palavra funeral, com Home, que tem o significado de casa, lar.

Esse caráter autobiográfico da história nos faz facilmente colocar Alison Bechdel no mesmo balaio de Harvey Pekar (American Splendor), Roberto Crumb e outros quadrinhistas que contaram suas vidas “diante das pranchetas”. Mas Alison não pode ser classificada junto de nenhum grupo. Até mesmo sua arte é pessoal, em entrevista a Folha de São Paulo, a desenhista declarou que “[escolhi os quadrinhos porque são] um meio para o qual os meus pais não tinham critérios estéticos. Por isso, eles não podiam me julgar”. Ou seja, até na sua expressão artística a presença de seu pai está presente.

Outro aspecto interessantíssimo da obra são suas inúmeras referências literárias. O pai de Alison era professor de literatura de uma escola do Ensino Médio e uma das formas que ela encontra para se aproximar dele é pelos livros que tanto o seduzem. A partir daí, inúmeras referências a clássicos da literatura (sobretudo ao existencialismo de Albert Camus) vão se desvelando e se misturando a história.

Tal riqueza literária fez a revista Time eleger Fun Home o “livro do ano” em 2006. Além disso, o álbum empilhou prêmios, inclusive o Eisner Awards de melhor não-ficção (o “Oscar” dos Quadrinhos). O sucesso não foi só de crítica, foi de público também, pois o livro chegou mesmo a figurar na famosa lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. A arte da autora é muito boa também. Ela possui um traço que ao mesmo tempo consegue ser claro e bastante detalhado. O álbum é colorido com toques aquarelados em tons de verde, fugindo do simples P&B.

Outra coisa digna de nota é a excelente edição da Conrad. Tudo está de muita qualidade, desde o projeto gráfico e a escolha da tipologia ótimos até a sensacional tradução de André Conti.

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Fun Home, de Alison Bechdel (Conrad)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Fell - A Cidade Brutal


Sinopse: O detetive Rich foi transferido recentemente para Snowtown, um lugar sombrio que fica às margens da sociedade, onde andar fora da lei parece ser o correto.

Análise: Fell é uma excelente HQ que chega às livrarias brasileiras. Ao lado de Sam Noir: Detetive Samurai, ela marca a estréia da editora Landscape no mercado de quadrinhos. E, no caso de Fell, uma excelente estréia.

O álbum compila as oito primeiras edições originais norte-americanas, da Image Comics, que apresentam os personagens e mostram os casos iniciais de Rich na sombria cidade de Snowtown, além de seu relacionamento com a dona do bar local, Mayko.

Além da temática sombria, a HQ do roteirista Warren Ellis (Planetary) e do desenhista Ben Templesmith (30 Dias de Noite) se destaca por outros motivos, sobretudo pelo fato de que cada edição de Fell é uma trama fechada. Dessa maneira, os autores possibilitam que se leia qualquer edição sem precisar acompanhar os números anteriores ou posteriores. Mesmo assim, ler todas as histórias juntas tem um impacto muito maior.

A parceria dos autores gerou bons frutos. Warren Ellis é famoso pelo seus roteiros repletos de sacadas interessantes. Já o desenhista Ben Templesmith é dono de um estilo de arte gráfica impressionante, que ao mesmo tempo choca e seduz o leitor.

Tantas qualidades conferiram a série e aos seus autores a indicação ao prêmio de Melhor Série Contínua no Eisner de 2006; e a Templesmith a de Melhor Pintor/Artista Multimídia no Eisner de 2007. Apesar disso, a HQ nunca levou o prêmio.

A edição brasileira é bastante competente. Graficamente bem feita, a capa conta com reserva de verniz. O seu formato é o 16 x 24 cm e ela 148 páginas coloridas. O preço é justo: R$ 33,00.

Como ponto negativo há de se ressaltar alguns erros de revisão, como na primeira página do gibi onde, em vez de "cheiro", está grafado "cheito".

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Fell - A Cidade Brutal, de Warren Ellis e Ben Templesmith (Landscape)

terça-feira, 20 de julho de 2010

Resenha: Olga

Uma mulher forte

Sinopse: A alemã, judia e comunista Olga veio para o Brasil na década de 1930 para apoiar o Partido. Militante fiel, tornou-se guarda-costas de Luís Carlos Prestes, com quem se casou e teve uma filha, Anita.

O livro de Fernando Morais Olga narra os acontecimentos da vida de Olga Benário Prestes, desde sua entrada no comunismo até sua morte. Quem não conhece sua história com detalhes certamente vai se emocionar com a obra, repleta de momentos chocantes, tristes, felizes.

Olga foi uma mulher forte e decidida. Isso pode parecer pouco aos olhos de um cidadão de hoje, então se torna essencial falar sobre a época em que ela viveu, o mundo das décadas de 1920 e 1930. Na Alemanha, instabilidade política, com a extrema direita e a extrema esquerda promovendo lutas armadas e homicídios políticos. No Brasil, Getúlio Vargas no poder. Ser uma mulher forte e decidida era “privilégio” de poucas...

A vida de Olga foi totalmente envolvida na política. Mesmo seu amor por Luís Carlos Prestes não desliga sua história da luta comunista. A vida clandestina do casal, a gravidez na guerra, o receio da deportação... temas delicados tratados por Fernando Morais com um distanciamento suficiente, tornando o texto nem tão emotivo (que o faria parecer um dramalhão) nem tão frio (que o faria perder seu impacto).

Mais da história não digo, pois há muita emoção em descobrir os detalhes na leitura. Só aponto uma ação de Olga, para atiçar a curiosidade de quem nunca pensou em ler a obra: ainda na Alemanha, ela comandou um assalto à prisão para resgatar seu então namorado Otto Braun, também militante comunista.

A edição da Companhia das Letras colabora para que o leitor se aprofunde ainda mais na história de Olga, repleta de imagens que mostram desde a jovem Olga até a cela em que foi torturada. O único defeito dela foi ter adotado como capa o pôster do filme de 2004, com a atriz brasileira Camila Morgado – ainda mais comparando-a com a beleza da outra versão, com a foto da própria Olga.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Resenha HQ: Estórias Gerais

Sinopse: Conjunto de narrativas que contam a épica batalha pelo sertão entre cangaceiros, coronéis, jagunços e militares.

Análise: Depois de ter sido publicada em 2001, com muito custo por um de seus autores, Wellington Srbek, com ajuda do incentivo a cultura dos estado de Minas Gerais, Estórias Gerais ganhou uma nova edição. Dessa vez pela editora Conrad.

Ser editada por uma grande casa permitiu que essa maravilhosa obra tenha uma maior abrangência no mercado devido a uma distribuição melhor. Quem agradece isso são os novos leitores que puderam apreciar a ótima narrativa de Srbek com o traço do mestre Flavio Colin (falecido em 2002).

O álbum narra os percalços de diversos personagens envolvidos numa guerra de jagunços no sertão brasileiro. De um lado o bando de Mortalma e do outro o de Manoel Grande, ambos caçados pelo coronel do exército Odorico Pereira.

No abertura do álbum, Wellington Srbek conta quais são suas principais influências. Além da óbvia do escritor Guimarães Rosa, autor de, entre outras coisas, Primeiras Estórias e Grande Sertão: Veredas, o roteirista cita novelas e produções televisivas além de autores como Jorge Amado, Monteiro Lobato, João Cabral de Melo Neto e Ariano Suassuna.

E como Suassuna, Srbek ambienta sua obra no sertão com um verdadeiro carrossel de personagens. Todos tem a mesma força e a mesma exposição na história. Entretanto, há uma trama principal, a do confronto triplo entre Mortalma, Manoel Grande e Odorico Pereira, que é narrada pelos acontecimentos da vida deles e de outros personagens nos seis contos que compõe o álbum: “Antônio Mortalma”, “Tenente Floriano”, “Coronel Soturno”, “Odorico Pereira”, “O Pai-do-Mal” e “O Duelo”.

Há ainda as referências claras as histórias típicas do sertão nordestino que habitam o imaginário cultural popular brasileiro com a influência miscigenada de diversas culturas. Figuras bíblicas, como um anjo seraphin, se cruzam com tramas envolvendo o “tinhoso” e noites de lua-cheia. O próprio mito messiânico do rei português Dom Sebastião é citado.

Mas são nos filmes de faroeste e de cavalaria que notaremos as semelhanças aventurescas. Duelos de tiros e espadas (ou facões), paladinos que lutam pela justiça se digladiam com rústicos vilões. Srbek e Colin mostram um sertão mazelado, mas quase romântico.

Por falar em Colin, é impressionante observar a maestria do seu trabalho. Um leitor não acostumado com o traço do artista pode ter um estranhamento inicial. Mas logo notará que foi brindado com uma arte charmosa e com um estilo próprio e ousado. Sem fazer muitas coisas mirabolantes, Flavio Colin consegue inovar na diagramação dos quadros e na narrativa gráfica. Suas expressões e sombras são incomparáveis.

Por fim, o álbum, impresso em papel reciclado, traz um “extra” em relação a primeira edição, o conto de quatro páginas “Estória de Onça”, totalmente colorido e que havia saído anteriormente na revista independente Caliban.

Estórias Gerais é um trabalho único e marcante. Fãs de quadrinhos, de literatura ou de boas histórias devem conferir com a garantia de encontrar um ótimo trabalho.

Nerdshop
Estórias Gerais, de Wellington Srbek e Flávio Colin (Conrad)

domingo, 18 de julho de 2010

Down – no submundo do crime

Sinopse: A detetive Ransome é uma policial durona, mas isso lhe traz diversas implicações dentro da polícia. Agora ela precisa se infiltrar dentro de um cartel do crime e acabar com seu chefão, usando todos os meios que achar necessário.

Análise: A primeira coisa que chama a atenção em Down – no submundo do crime é a mensagem na capa de “impróprio para menores de 18 anos”. Depois de atentar a isso é que se percebe que a história é do ótimo Warren Ellis e que esse é o título que inaugurava a linha Top Cow da Panini no Brasil.

O aviso de “impróprio” na capa se justifica rapidamente. A série é extremamente violenta, e isso só a torna mais interessante. Balas voando para todos os lados e uma policial distribuindo tiros e sopapos em todos os bandidos ao melhor estilo John Woo.

A trama em si não tem nada de muito inovador. Nada mesmo. Típica história de policial infiltra no meio de gangsters (alguém se lembra de Cães de Aluguel, do Tarantino?). Mas as cenas de ação acompanhadas da promessa que Warren Ellis reserva algo especial para o segundo número da história já compensam o investimento.

Investimento esse que é pouco, pois a Panini optou por lançar o material Top Cow no papel pisa brite, o que diminui os custos. Mas essa diminuição de custos acarreta numa qualidade um pouco menor. Mesmo com os preços mais baixos, a linha não emplacou e rapidamente foi descontinuada pela Panini. Hoje só é encontrada em sebos ou lojas online.

sábado, 17 de julho de 2010

Eternos

Sinopse: A vida do estudante de medicina Mark Curry não anda lá muito boa. Sua namorada o deixou, as contas não param e, pra piorar, um fanático religioso o está perseguindo com uma história maluca: a de que ele pertence a uma raça milenar incumbida de proteger a Terra por deuses espaciais. Sim, ele sabe que é loucura, mas... por que tudo isso lhe parece tão familiar?

Análise: Jack Kirby criou os Eternos na época do seu retorno à Marvel em 1976, como uma livre adaptação de 2001: uma odisséia no espaço. Mas é impossível perceber a semelhança entre esses personagens e os criados pelo “Rei” na sua passagem pela DC, os Novos Deuses.

Por muito tempo os Eternos tiveram uma participação importante na Marvel, sendo que os Celestiais, personagens ligados aos Eternos, foram apontados como os criadores universo na saga Terra X. Serci chegou mesmo a integrar os Vingadores. Entretanto já há algum tempo os personagens de Jack Kirby estavam esquecidos pela cronologia da editora.

Pensando nisso, Neil Gaiman resolveu trazê-los de volta na minissérie Eternos, publicada pela Panini, com alguns extras como o Eternals Sketchbook, com os esboços do desenhista da série John Romita Jr.

A trama apresenta Mark Curry, um estudante de medicina que começa a ser perseguido por um fanático que jura que Mark é a um ser mítico sem memória, um Eterno. Paralelamente a isso outros Eternos, como Serci, vão sendo desenvolvidos. Essa idéia de apresentar Mark dessa maneira permite que Gaiman possa contar a história dos Eternos e sua luta contra os Deviantes pela boca do fanático sem ficar falso.

A prática de colocar personagens que são pessoas comuns que se vêem em situações incomuns e que são muito mais do que sequer imaginavam é uma prática muito comum nas histórias de Gaiman, como pode ser visto em Stardust, Deuses Americanos, Filhos de Anansi entre outras. Isso não é um demérito, apenas uma simbologia recorrente do autor.

Os desenhos e a narrativa de John Romita Jr. casam bem com a história, apesar dele trabalhar melhor com personagens esguios como foi o caso do Homem-Aranha, seu trabalho aqui está excelente. E as cores de Matt Hollingseorth, Dean White e Paul Mounts dão um ótimo acabamento para arte.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Encantarias - Lenda da Noite

Sinopse: Tupã convoca três valorosos guerreiros - o forte Piatã, o hábil Ubirajara e o perspicaz Kuandu - para encontrar o Alguidar Karapyky, um poderoso artefato capaz de trazer a escuridão para o mundo e desequilibrar a ordem da natureza.

Análise: Encantarias é mais um excelente trabalho editorial do Estúdio Casa Velha, responsável também pela maravilhosa graphic novel Belém Imaginária.

Em Encatarias tudo é bem feito, desde o roteiro, os argumentos, os diálogos, os desenhos, a narrativa, a história, a criação dos personagens até a colorização. Há um trabalho impecável de edição, indicando notas sempre que algum termo indígena surge no texto.

A trama é, como muitas outras histórias, é baseada na “jornada do herói”, codificada por Campbell. Os três índios Piatã, Ubirajara e Kuandu partem numa busca de engrandecimento pessoal, cheia de perigos com um grande prêmio no final. No caminho eles enfrentam todo tipo de criaturas lendárias da mitologia indígena, como o Curupira e a Iara. E, num ponto onde diversos quadrinhistas derraparam ao abordar esse tema de maneira brega, os autores de Encatarias se saem bem, desenvolvendo-o com naturalidade e sobriedade.

A estrutura dos personagens é muito boa. O fato de ser um trio permite que cada um dele explore um dos aspectos da personalidade idealizado por Freud, o Id, o Ego e o Superego. Isso facilita para o leitor se identificar melhor com a história e a aceite mais facilmente. Diversos campeões de bilheteria atingiram o sucesso por se basear em estruturas semelhantes de trios de personagens principais. De exemplo maior há Harry Potter e Naruto.

Os desenhos de Otoniel Oliveira estão ainda melhores aqui. A narrativa gráfica é sensacional. Destaque para às páginas 6 e 7, onde a história é desenvolvida num diálogo longo e mostrando diferentes pontos da travessia sem nenhum requadro.

Encantarias – a Lenda da Noite é um material nacional imperdível. Para saber como adquirir, acesse o site oficial da obra.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Resenha: Cascão Porker e a pedra distracional

Sinopse: Ainda criança Cascão Porker deu um banho no temido Feiodemorte e se tornou uma lenda entre os magos. Mas para sua proteção, foi mandado para morar com seus tios, só que um dia a escola de magia Hográtis o convoca para o seu aprendizado de bruxo.

Análise: Fazer paródias sempre foi uma das grandes sacadas de Mauricio de Sousa e sua Turma da Mônica. Nas paginas das revistinhas, Star Wars virou Tauó, Lost se tornou Lostinho e o Batman ganhou a alcunha de Batmão.

Tramas inspiradas em filmes eram tantas que foi criada a série Clássicos do Cinema, que mistura clássicas HQs da turminha, como Horacic Park e Exterminador de Coelhinhos sem Futuro, com novidades como esse Cascão Porker e a Pedra Distracional.

O alvo da brincadeira não poderia ser outro senão Harry Potter e sua série de livros e filmes de sucesso. O timing da publicação é excelente, já que os fãs esperam desesperadamente pelos dois últimos filmes que encerrarão a franquia e devem esgotar as edições da revista por conta dessa ansiedade. Além do que, essa edição adapta apenas a primeira trama de Harry Potter, deixando margem para mais seis história.

E que adaptação! Com muito bom humor e sacadas geniais, a maioria envolvendo os tradicionais trocadilhos que são marca registrada de Mauricio de Sousa, a HQ aproxima os dois universos, levando aos risos fãs de todos os gostos. Destaque para o nome dos personagens, como Voldemort sendo um Capitão Feio apelidado de “Feiodemorte”.

Além do roteiro hilário e genial a HQ chama atenção pelos desenhos. Como sempre a adaptação visual é excelente, mantendo tudo de acordo com o traço da Turma da Mônica. Só que a arte tem um acabamento a lápis, diferente do habitual, que lhe confere um estilo interessante. É bom ler uma HQ da Turma da Mônica com uma arte um pouco diferenciada, para variar.

A edição da Panini ficou de muita qualidade. Além da história, há um caderno de esboços em preto e branco no final. Outro destaque fica por conta do acabamento, são 50 páginas em papel LWC e custando apenas R$ 5,50, diferente dos preços praticados nas revistas equivalentes de super-heróis, por exemplo.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Courtney Crumrin & as Criaturas da Noite

Sinopse: Courtney Crumrin é uma infeliz garota que se muda, junto com os pais, para a casa do seu tio rico, o Professor Aloysius. A enorme mansão vitoriana do velho Crumrin se encaixa perfeitamente na próspera vizinhança de Hillsborough. No entanto, como Courtney logo descobre, o seu tio Aloysius tem uma reputação sinistra em toda a região, e ele e sua residência são alvos dos rumores mais sombrios.

O universo juvenil está repleto de histórias com crianças que se envolvem em mundos fantásticos ocultos. Isso já foi explorado à exaustão, indo desde a série Harry Potter ao clássico Alice no País das Maravilhas, passando por sucessos como Desventuras em Série, Crônicas de Spiderwick, etc.

Courtney Crumrin & as Criaturas da Noite segue a mesma veia, mas com o requinte da ironia e do humor negro.

O autor da série, Ted Naifeh, usa os clichês desse tipo de história para subvertê-los. Courtney, por exemplo, não é órfã, mas tem pais ausentes. Seu tio Aloysius é um bruxo que a toma vê como uma aprendiz. O pedante mundo da alta sociedade esconde um universo repletos de trolls, fadas e duendes.

Cada capítulo do livro mostra Courtney lidando com situações bizarras como trolls sob pontes, bebês trocados por elfos malignos, gatos falantes, magias que alteram a aparência, etc. Além disso, problemas típicos do início da adolescência a afligem como aceitação perante a sociedade, autoestima, amor materno. Até aí, nada que a série Sabrina – Aprendiz de Feiticeira já não tenha feito.

Só que Courtney não é uma personagem inserida num contexto maniqueísta. Ela é mal-humorada e seu comportamento é ambíguo, irônico, às vezes até egoísta. E os desenrolar e os desfechos de cada uma das histórias puxam para um leve e hilário humor negro.

A leitura é leve e agradável, sendo fácil o livro cair nas graças de qualquer um, mas leitores e ex-leitores de literatura juvenil fantástica tendem a apreciar muito mais essa HQ.

Colabora para a narrativa a arte em P&B de Ted Naifeh (Gunwitch: Outskirts of Doom), que assina tanto o texto quanto os desenhos. Ted consegue expressões marcantes nos personagens, sabendo criar caricaturas infantis e climas ameaçadores quando necessário. Seu domínio de luz e sombra também é bastante satisfatório.

O preço do álbum também está convidativo e a Devir já colocou no mercado o segundo número da série, indicando que os fãs brasileiros podem vir a ler todos os quatro volumes já publicados das histórias de Courtney.

Saiba mais no site do autor.

Nerdshop
Courtney Crumrin & as Criaturas da Noite, de Ted Naifeh (Devir)

terça-feira, 13 de julho de 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Docteur Mystère nº 1 – Os mistérios de Milão

Sinopse: Primeiro álbum de quadrinhos do personagem criado no século XIX pelo escritor francês Paul D’Ivoi, Docteur Mystère e seu fiel parceiro Cigale.

Ao observar o álbum Docteur Mystère nº 1 – Os mistérios de Milão o leitor poderá confundi-lo com um exemplar da Liga Extraordinária, de Alan Moore. E não é pra menos, tudo na ilustração da capa lembra a obra do britânico, como os personagens e elementos exóticos na cena totalmente da era vitoriana.

Isso acontece naturalmente, pois tanto a Liga Extraordinária quanto Docteur Mystère são tem como pano de fundo a Europa vitoriana na belle epóque. Outro paralelo é que Docteur Mystère foi o protagonista de um livro do escritor com seu nome de Paul D’Ivoi em 1900 e diversos personagens da literatura da época dão as caras no álbum como o Professor Higins, de Pygmalion (que posteriormente inpiraria o musical My Fair Lady), Fagin, o Judeu de Oliver Twist, Peter Pan, o Corcunda de Notre Dame, o Fantasma da Ópera e muitas outras referências.

O álbum, assim como Liga Extraordinária e o RPG Castelo Falkenstein, se enquadra num tipo de ficção científica entitulada vaporpunk (ou steampunk, como é mais conhecida), que se passa na era vitoriana e explora a pseudo-ciência criada por escritores de ficção da época (como Julio Verne, H.G. Wells etc.), baseada na 2ª Revolução Industrial e o exotismo do oriente.

O autores Alfredo Castelli e Lucio Fillipucci resgataram o personagem do livro de Paul D’Ivoi e deram-lhe uma roupagem mais leve, mais aventuresca, aproximando-o, não por acaso, de Martin Mystère, personagem bonelliano pelo qual os autores são conhecidos.

A trama é uma colagem de situações aventurescas, recheadas de referências e ficção científica steampunk. O personagem principal Docteur Mystère é um gentleman indiano e seu assistente um tonto e tarado jovem. Ambos estão buscando o marido desaparecido de uma dama, cujo nome não é revelado pois o protagonista é um cavalheiro. Contudo, há uma trama maior por trás e o inimigo do álbum não é o principal adversário da dupla de heróis. Essa bandido principal, que está por trás de tudo, é um típico estereotipado militar alemão que não é pego no final, dando gancho para mais álbuns do personagem.

Os desenhos de Lucio Fillipucci são bastante competente. É interessante vê-los com o recurso de cores, coisa que nos gibis da Bonelli nunca ocorrem.


O resultado é um álbum bastante competente, que infelizmente não teve continuídade pela Mythos, talvez pelas baixas vendas.


sábado, 10 de julho de 2010

Resenha livro: O Poderoso Chefão

Sinopse: A história da ascensão do sucessor do Don da família Corleone durante a década de 1940 nos EUA.

Análise: A história de O Poderoso Chefão ficou famosa quando adaptada por Francis Ford Coppola na trilogia estrelada por Al Pacino e com grande destaque para Marlon Brando e sua interpretação do Don no primeiro filme. Portanto, é impossível ler a obra de Mario Puzo sem compará-la automaticamente a sua adaptação.

E no geral a obra de Puzo foi bem adaptada por Coppola, mas, obviamente, são obras diferentes. No livro Michael Corleone já dá mostras que é o homem mais forte para substituir o pai desde o princípio. O cantor Johnny Fontane tem muito mais importância, e com ele há uma nova trupe de personagens. E há alguns detalhes do livro que foram parar em O Poderoso Chefão parte II no cinema.

Puzo escreveu um livro envolvente e bem narrado, que o leitor não vai conseguir parar de ler até chegar na última página. Suas descrições são rápidas e na medida certa. A trama tem muitos personagens, porém eles são bem desenvolvidos. Destaque para a história do cantor Johnny Fontane e sua relação com o Padrinho e com seu amigo Nino Valente, que não há no filme mas é bastante interessante .

Interessante notar que os estereótipos de mafiosos definidos por Puzo aqui são os que ficaram famosos no imaginário popular. Semelhante ao que Robert Louis Stevenson fez com os piratas, definindo personagens com tapa-olhos e pernas de pau, Puzo criou italianos dominadores, fortes e engenhosos e, na figura de Michael Corleone, colocou um símbolo que pra sempre seria associado aos mafiosos, que o ato de limpar o rosto com um lenço. Michael faz isso para evitar a corisa, que corre sem fim após ter a cara partida numa briga com um policial, mas a imagem de um mafioso no cabeça das pessoas sempre tem um lenço limpando o suor do rosto.

O Poderoso Chefão, ao lado de outros 19 títulos, marcam o início da coleção BestBolso da editora Record. Seguindo o modelo da Companhia de Bolso da Companhia das Letras, trata-se de reedição de sucessos em formato de bolso e acabamento mais barato. O resultado é satisfatório, pois apresenta uma boa edição e diagramação. A capa tem uma qualidade ruim, entretanto isso barateia o custo final do produto.

Nerdshop:
O Poderoso Chefão, de Mario Puzo (BestBolso): R$ 14,90

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Ranma 1/2 — Animangá

Antes da Conrad Editora lançar os megassucessos Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco, em dezembro de 2000, fazendo explodir a febre dos mangás no Brasil, uma microeditora paulistana já vinha tentando emplacar as histórias quadrinhos orientais por aqui.

Tratava-se da Animangá, oriunda de uma famosa loja especializada em quadrinhos japoneses de São Paulo, a editora publicava bimestralmente – a palavra mais correta seria sazonalmente pois a periodicidade nunca foi muito constante – a série de mangá Ranma ½ de Rumiko Takahashi.

A publicação começou em 1998, precedendo em dois anos antes da revolução promovida pela Conrad, e portanto ainda não apresentava algumas características que se tornaram praxe na edição de mangás no Brasil. Cada volume tinha cerca de 50 páginas, em formato americano e com leitura ocidentalizada. As imagens sofreram pesadas adaptações, com as onomatopeias sendo ocidentalizadas sem maiores retoques no original.

Além disso, os gibis não primavam pela qualidade gráfica, com muitas edições, sobretudo as primeiras, ficando com imagens apagadas e opacas e deixando o leitor com uma eterna sensação de miopia ao ler as páginas da revista.

Os primeiros volumes tinham ainda problemas da ordem de edição, mesmo com essa etapa sendo assinada pela empresa de Jal e Gual – os criadores do prêmio HQ-Mix – e de revisão. Na verdade, erros de revisão vinham numa proporção bem grande, incluindo simples erros de ortografia que um simples corretor ortográfico do Word, já bastante popular na época, resolveria, como um “palhasso” na primeira edição.

Mas apesar de todos esses problemas os primeiros números da publicação foram saudáveis. Logo uma equipe específica da editora começou a assinar a produção e a grande demanda por quadrinhos japoneses na época alavancou as vendas de Ranma ½. Afinal, por pior que fosse a qualidade da edição era a única opção de leitores que compravam aos baldes coisas como Animax, Megaman e Hypercomix, revistas inspiradas nos mangás, até mesmo distribuídas em bancas, mas nada mais eram do que fanzines.

Com o respaldo do público, a partir da quinto número de Ranma ½, alguns materiais extras começaram a surgir nas páginas do gibi. Nesse volume, por exemplo, há notícias sobre os ainda incipientes eventos de anime e mangá em São Paulo, informativos sobre aulas de desenho, de japonês, uma matéria sobre o anime Zenki e um editorial contando a trajetória da autora Rumiko Takahashi. Por esse texto os leitores souberam do curioso fato que a autora especializada em comédias românticas que foi aluna de do roteirista Kazuo Koike, de Lobo Solitário.

Uma coisa que sempre agradou aos fãs de mangás eram essas matérias que continuaram até o último número publicado pela Animangá, com destaque para as sobre a cultura japonesa. Pela revista, os otakus passaram a conhecer usos e costumes dos japoneses, como sua cultura, hábitos alimentares, higiene, organização familiar, artes marciais etc.

A edição seguinte, a de número seis, já trazia uma matéria sobre os pães que foram o motivo da desavença entre os personagens Ranma e Ryoga. Segundo um pequeno texto, a palavra japonesa “pan”, que significa pão, veio do português, introduzida por missionários do século XVI. Essas curiosidades enriqueciam ainda mais a divertida leitura dos quadrinhos.

Esse volume também trazia mais uma curiosidade. Afirmando que o mangá estava sendo um sucesso, a editora organizou uma pesquisa de opinião para saber o que deveria publicar a seguir. Dentre as opções estavam diversos títulos que de fato chegaram ao país por outras editoras, como Slayers, Video Girl Ai, Rayearth, Rurouni Kenshin e Fushigui Yuugi, que foi o escolhido pelo público. Só que Fushigui Yuugi jamais chegou a ser editado pela Animangá. Os leitores brasileiros conheceram a série sim, mas de uma segunda geração de mangás publicados pela Conrad, chegando inclusive ao seu final, coisa de que Ranma ½ da Animangá nunca teria a chance.

Por algum tempo, a revista reinou absoluta entre os fãs do estilo, tendo seu lugar cativo na banca de jornal. Entre 1998 e 2000 foram quinze edições. A editora, apesar de nanica, conseguia manter a publicação no azul, distribuída para todo o Brasil pela também finada Fernando Chinaglia, e com retorno dos fãs fosse pela internet ou pela sessão de cartas. Só que, como dito, em dezembro de 2000 a Conrad soltava uma verdadeira bomba no mercado brasileiro de mangás: Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco.

Tratavam-se de duas publicações que além de serem como o original japonês, com leitura oriental, onomatopeias em japonês, formato de livro entre outras coisas, eram quinzenais, tinham mais de 100 páginas por revista e custavam apenas R$ 3,90 cada. Ranma ½ tinha praticamente o mesmo preço com metade das páginas e com uma qualidade inferior.

A editora acusou o golpe e não demorou para que aumentasse o número de páginas com o preço praticamente inalterado. Mesmo assim, a avalanche Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco foi imensa e veio seguida da entrada da JBC no mercado, no meio de 2001, com quatro títulos logo de cara: Samurai X, Sakura Card Captor, Rayearth e Video Girl Ai.

Com tantas opções nas bancas e a demora que levava de uma edição a outra de Ranma ½ os leitores naturalmente foram abandonando a revista, que voltou ao número antigo de páginas sem reduzir o preço, pelo contrário, aumentando-o sempre que possível. Depois veio um papel de qualidade inferior (de gramatura tão baixa que a imagem de uma página vazava na outra), edições ainda mais espaçadas, até que um dia, sem mais nem menos, nunca mais ouviu-se falar da Editora Animangá.

A última edição da revista foi a 27, em 2003, que ainda prometia para breve um novo produto da editora, a Revista Animangá, que publicaria os vencedores de dois concursos de quadrinhos promovidos pela editora entre 2001 e 2002.

Recentemente a JBC trouxe uma nova edição de Ranma ½, publicando-a desde seu número 1, o mais correto a fazer, e colocando-a no padrão de qualidade dos mangás encadernados da atualidade: capa cartonada, cerca de 200 páginas por volume, leitura oriental, onomatopeias com arte original etc.

Da Animangá restam poucos vestígios, além de um site fora do ar: http://www.animanga.com.br/ e uma loja virtual um pouco capenga: http://www.animanga.com.br/cgi-bin/store/animanga.cgi

Mesmo assim, a verdade é que Ranma ½ da Animangá teve altos e baixos, mas deixa nostálgico qualquer um que adentrou ao mundo dos mangás por meio dessa publicação.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Resenha: As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay

Sinopse: Livro que narra a ficcional vida dos primos Sammy Clay e Joe Kavalier, que se tornam autores de quadrinhos na Nova York pré e pós Segunda Guerra Mundial.

O leitor começa As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay (The Amazing Adventures of Kavalier & Clay) dando o crédito pelo livro ter sido o vencedor do Prêmio Pulitzer de Ficção como melhor romance, em 2001. Além disso, a obra chama a atenção por apresentar o universo dos autores de quadrinhos judeus que criaram e popularizaram os super-heróis durante as décadas de 30 e 40.

Na verdade, os dois protagonistas do romance são claramente inspirados nos criadores do Superman: Jerry Siegel e Joe Shuster. Como eles, Sammy Clay e Joe Kavalier são judeus imigrantes ou filhos de imigrantes, que vem para a América para fugirem dos percalços do holocausto. E, como a dupla da vida real que é citada diversas vezes no livro, se tornam autores de quadrinhos de super-heróis.

O autor explora muitos aspectos da cultura judaica para tentar encontrar um padrão nos super-heróis. Kavalier, ao ir para os EUA, precisava trazer o lendário Golem de Praga, talvez o mito primordial que influenciou Super-Homem e todas as suas cópias. Entretanto, o contexto dos quadrinhos da época não é deixado de lado, como o Fantasma de Lee Falk, um dos primeiros mascarados, ou o trabalho de Milton Caniff. Estranhamente, pouco é falado do mágico Mandrake.

Estranho porque Joe Kavalier, o principal personagem sob os holofotes, era um aprendiz de mágico em Praga antes de imigrar para os Estados Unidos. Praticou diversos truques, mas a arte das escapadas era sua grande paixão. Isso posteriormente influenciaria na criação do principal personagem que ele criar com seu primo Sammy Clay: o Escapista.

No livro, muitas vezes as histórias dos quadrinhos se misturam com a narrativa. E o Escapista é quase sempre quem é o foco. Criado a imagem e semelhança do Superman, a pedido do empregador dos dois Sheldon Anapol, o Escapista é uma catarse de Joe, que não consegue voltar ao seu país para libertar seus parentes, sobretudo o seu irmão menor, Thomas.

Então o Escapista, como o Capitão América, enfrente os tiranos inimigos os derrotando sempre, edição após edição. Mussolini e Hiroíto tomaram algumas bordoados do herói, mas Hitler foi seu principal adversário. Kavalier se espelhava no herói, o imaginando derrotando as forças malignas que ameaçavam sua família.

Mas o livro é uma grande tragédia. Em suas 668 páginas muitas surpresas e reviravoltas estão escondidas, bem como muitos momentos que convidam o leitor à reflexão. Os personagens são densos e complexos, suas motivações podem ser simples as vezes, mas jamais simplórias.

O pano de fundo inspirado na Era de Ouro dos quadrinhos só torna a leitura mais agradável. O trabalho de pesquisa de Michael Chabon, nesse sentido e em todos do livro, foi competente e preciso, abrindo brechas necessárias para a criação de seu romance.

Por tudo isso, os leitores que arriscarem o calhamaço As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay não vão se arrepender quando chegarem no final.

Nerdshop:
As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay, de Michael Chabon (Record)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Aprenda a desenhar com Takehiko Inoue

No Youtube há vídeos de quase tudo que você imaginar. E quem quiser aprender as técnicas de desenho do excelente Takehiko Inoue, mangá-ká de Vagabond e Slam Dunk, pode ver uma série de vídeos muito interessante postadas por lá.

Nesses vídeos, um passo a passo do complexo processo do autor para fazer seus detalhados desenhos. Para vê-los, clique aqui. O primeiro, segue abaixo:


terça-feira, 6 de julho de 2010

Resenha: Stardust

Sinopse:Tristran Thorn deve adentrar no mundo das fadas para capturar uma estrela cadente e conquistar sua verdadeira amada. Mal sabe ele as dificuldades que se colocarão em seu caminho.

Análise: Stardust é um romance gráfico de Neil Gaiman e Charles Vess. Apesar do denominação, não se trata de uma HQ, mas de uma obra literária, um conto de fadas para adultos soberbamente ilustrado.

Reza a lenda que Stardust surgiu quando Gaiman teve a idéia de uma história sobre uma estrela cadente numa noite de agito e procurou seu parceiro Vess para ilustrá-la. O famoso desenhista de temas fantásticos topou com a condição de que, ao invés de uma HQ, linguagem que os fizera faturar prêmios pelo trabalho no volume 19 da série Sandman, fosse um romance gráfico ilustrado. Dito e feito: meses depois a Vertigo lançava uma minissérie em quatro edições com a história de Stardust em texto corrido e ilustrada. Posteriormente, o trabalho seria compilada em livro.

A trama conta, ao melhor estilo Gaiman de ser, a história do jovem Tristran em busca de uma estrela cadente para presentear a sua amada. Para pegá-la, o rapaz deve cruzar o muro que separa nosso mundo do das fadas. Só que no mundo das fadas a estrela é uma bela e insolente moça e que não está disposta a facilitar a vida de Tristran.

Com o passar do tempo, Tristran aprende que nem tudo é o que parece e que há muito mais escondido dentro dele do que ele mesmo pode imaginar. A história ganha contornos épicos e maravilhosos, se desenrolando para o seu final inesperado.

Trata-se de uma aventura simpática, mas não é o melhor trabalho de Gaiman. O principal charme está no perfeito casamento do texto com as ilustrações de Charles Vess e o inusitado de um livro para adultos com uma temática associada, nos dias de hoje, ao infantil.

A Pixel, aproveitando o lançamento da adaptação no cinema lançou essa nova edição, também com nova tradução. Destaque para o último capítulo, originalmente intitulado de “Stardust” e que agora passou a se chamar “O Mistério da Estrela” para aproveitar o terrível subtítulo utilizado nos cinemas brasileiros.

Internamente, essa nova versão teve melhor tratamento que a anterior, da editora Conrad. Um tratamento melhor de imagens e uma tipologia interessante nas aberturas de capítulos chamam a atenção. Contudo, o acabamento do álbum da Conrad era um pouco melhor, com orelhas e uma bela capa com reserva de verniz na ilustração. Outra diferença entre a edição nova e a antiga são os extras. A nova versão tem uma ótima galeria de esboços e de capas originais, ao passo que a anterior não.

Mas o principal atrativo do trabalho da Pixel deve ser o preço. Enquando a edição da Conrad custava em média entre R$ 50 e R$ 55, a da Pixel tem um formato mais simples e com melhor aproveitamento de papel (17 x 24) e sem orelhas, o que deve jogar o preço para uma faixa entre R$ 40 e R$ 50, facilitando a vida de quem quiser comprá-lo.

Stardust é um livro extremamente recomendável para aqueles que curtiram o filme e querem ter uma experiência ainda mais fantástica mergulhando num conto de fadas adulto.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Segunda Fundação - Fundação Vol. 3

Sinopse: O Mulo continua sua busca pela Segunda Fundação, que também está atrás do Mulo. O vencedor dessa disputa pode determinar o sucesso ou o fracasso do plano de Hari Seldon.

Análise: No fim de Fundação e Império, o Mulo triunfava ante o Plano Seldon e partia para uma ofensiva contra a Segunda Fundação. É exatamente o ponto no qual começa o terceiro livro da trilogia Fundação, Segunda Fundação. Nele uma briga de gato e rato entre as duas fundações tem início.

O objetivo desta terceira parte é recolocar o Plano Seldon nos eixos e saber como Asimov fará isso é o que nos motiva a continuar lendo. O autor não decepciona seu público, amarrando bem a narrativa e mostrando domínio tanto das ciências físicas (representadas pelas Primeira Fundação), quanto pelas sociais e psíquicas, na pele da Segunda Fundação.

Entretanto, ao fim do livro, fica uma vontade de continuar lendo a respeito da galáxia, tanto sobre o que virá depois, quanto ao que veio antes. O universo de Fundação é muito rico e não a toa Asimov fez retcons para que todas os seus livros fizessem parte, de alguma maneira, da longa história do Império Galático.

Anos depois, Asimov revisitaria a história da Fundação com Fundação II (1982), Fundação e Terra (1986), Prelúdio à Fundação (1988) e Crônicas da Fundação (1993), entretanto, mesmo os fãs atestam que ficaram muito abaixo do clásico que é a trilogia original de Fundação.

Nerdshop:
Trilogia Fundação de Isaac Asimov (Aleph)

domingo, 4 de julho de 2010

Grandes Clássicos DC – Os Novos Titãs

Sinopse: Primeiras histórias da clássica equipe de super-heróis adolescentes da DC, os Novos Titãs.

Análise: Esse Grandes Clássicos DC – Os Novos Titãs é o primeiro volume TPB do, como o próprio título sugere, grande clássico da DC Os Novos Titãs. Aqui são compilados as cinco primeiras edições da segunda série de maior sucesso da dupla Marv Wolfman e George Pérez (só perde em importância para Crise nas Infinitas Terras).

A edição começa com um interessante prefácio do roteirista da série contando todos os percalços que a história teve de passar até chegar em nossas mãos.

O gibi em si é um excelente trabalho da Panini: capa cartonada, miolo em LWC, formato americano, pinups, capas originais, etc. Contudo, isso encareceu um pouco o preço final do produto.

Na história, Wolfman já começa a desenvolver o seu excelente trabalho de contrapontos psicológicos entre os personagens, que ele próprio frisa no prefácio. Já o sempre competente George Pérez pode mostrar toda sua desenvoltura em desenhar super-grupos, sobretudo quando os Titãs enfrentam a Liga da Justiça América.

O fim do primeiro volume deixa um gostinho de nostalgia e vontade de ler mais dessa obra que abriria caminho para um das maiores sagas dos quadrinhos de super-heróis: Crise nas Infinitas Terras.

sábado, 3 de julho de 2010

Resenha: Nerdquest

Sinopse: Lucas é um jovem nerd que precisa encarar a vida agora que acabou a faculdade. Para isso, precisará lidar com pressões dos pais, amigos e namorada enquanto a única coisa que quer é continuar sendo ele mesmo.

Análise: A primeira impressão que se tem ao pegar o livro Nerdquest é que se trata de mais uma história de algum jogador de RPG que tentou novelizar alguma “campanha”. Grande engano.

Na verdade, a obra trata da vida de Lucas, um simples e comum nerd. A sua “quest” do título é a dura missão que é inerente ao ser humano e não só aos nerds: a necessidade de amadurecer. Entretanto, o crescimento que é proposto a ele é artificial, exigido por sua namorada e pelos seus pais. A atitude passiva com que encara isso prova sua insatisfação, mas não a combate. Tudo está prestes a mudar com a entrada de Ingrid em sua vida.

Em todos os sentido, Nerdquest é uma boa leitura. O trabalho de Pedro Vieira lembra de leve o grande escritor norte-americando Charles Bukowiski, ao narrar uma história que parece ter acontecido consigo mesmo. Mas, na realidade, a narrativa de Nerdquest é tão palpável que poderia acontecer com qualquer um. Inclusive, em diversos momentos, os leitores poderão identificar situações semelhantes as quais já foram testemunhas em algum momento da vida.

Essa identificação cria uma relação de cumplicidade entre o leitor e o livro, levando a uma imersão total na leitura. Logicamente, que se você um nerd a identificação será muito maior. E só a um nerd hardcore será permitido entender todas as diversas referências no livro, que vão de Senhor dos Anéis a super-heróis, passando por Matrix, Star Trek, Star Wars, Vampiro a Máscara, D&D entre outras coisas. Só fica claro que o autor não é muito fã de animes e mangás, pelos comentários dos personagens em relação a esse passatempo nerd.

Por tudo isso, Nerdquest é um livro altamente recomendado, que garante uma leitura rápida (o livro tem cerca de 100 páginas) e agradável.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Resenha mangá: Gourmet

Sinopse: O sr. Inogashira é um vendedor de produtos importados. Todos os dias sai para visitar clientes e aproveita para experimentar algum novo restaurante.

Que os mangás versam sobre todos os temas possíveis e imagináveis não é novidade para ninguém. A surpresa fica por conta de algumas dessas HQs de nicho tão específico começam a chegar no Brasil. Uma delas é Gourmet, de Jiro Taniguchi e Masayuki Qusumi, publicado pela Conrad Editora.

A HQ é sobre um rapaz, Inogashira, que, nas suas indas e vindas profissionais, experimenta diversos restaurante da vasta culinária japonesa. Em cada um dos 18 capítulos, o protagonista faz uma resenha sobre algum prato que experimentou, com algumas curiosidades e opiniões também sobre a cultura oriental.

Os pratos são de dar água na boca, mas perdem um pouco o impacto por estarem em preto e branco. Fora isso, a arte de Qusumi é competente e conduz bem a narrativa.

Isso é, se é que podemos dizer que há alguma narrativa. Cada capítulo é uma resenha sobre um prato e nada mais. Tal qual uma refeição, não há uma história, mas sim um prato a ser apreciado. Mesmo assim, é uma HQ que vale a pena ser lida.

A edição da Conrad, apesar de boa, peca em dois momentos. Primeiro, há um bem colocado glossário sobre os nomes dos pratos. Entretanto, seria melhor que os nomes fossem postos como notas de rodapé. A cada momento é preciso ir até o final do livro para saber do que o protagonista está falando. Isso quebra o ritmo da leitura.

Outro problema é a sobrecapa que induz à leitura convencional, da esquerda para a direita. Entretanto, a leitura é como todos os outros mangás, da direita para a esquerda. Isso gerará uma confusão nos leitores que estejam interessados apenas na gastronomia e não estejam familiarizados com os mangás. Para eles, sequer um aviso foi colocado avisando o sentido da leitura.

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Gourmet, de Jiro Tiniguchi e Masayuki Kusumi (Conrad)