quarta-feira, 30 de junho de 2010

Resenha: O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias

O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias é um pequeno livro de autoria do famoso diretor de cinema Tim Burton. Apesar de assinar um filme do Batman de 1992, odiado pelos nerds, ele é responsável por outras obras que são fantásticas, como O Estranho mundo de Jack, Edward Mãos de Tesoura e o novo A Fantástica Fábrica de Chocolate, só pra citar três. E então foi lançado no Brasil o livro de Tim Burton.

A proposta da obra é ser infantil, mas ela, como tudo que ele faz, reflete a mente um pouco estranha de Burton. O livro é composto por diversos poemas simples, que contam histórias de meninos e meninas diferentes: a menina palito, o menino fósforo, o menino ostra...

Com muita graciosidade, alguns poemas vêm acompanhados de ilustrações bem no estilo Tim Burton, ou seja, elas lembram bastante os filmes de animação do diretor, como o recente A Noiva Cadáver. Isso com certeza é um atrativo aos olhos dos fãs dele.

No entanto, é impossível não apontar que, mesmo aparentando uma proposta infantil, alguns pais não ficariam nada contentes em entregar aos filhos este livro, em especial pelo que consta no poema central, “O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra”. Abordando a sexualidade sem sutileza, o autor pode chocar quem espera um compilado de poeminhas infantis.

Apesar de tudo, das ilustrações, da criatividade e do bom nome do autor, o livro não chega a ser maravilhoso. Repetindo a mesma fórmula em diversos poemas, lá pelo meio o leitor já começa a se cansar de ler mais ou menos a mesma coisa.

Estrelinha dourada para o tradutor, que conseguiu adaptar bem algumas nuances do texto. Quem quiser comparar, sugiro especialmente o poema “Menino Palito e Garota Fósforo” e o que dá o nome do livro, em que a seleção de palavras e pequenas modificações mantiveram a reação que o leitor teria se lesse o original.

Nerdshop:

O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias, de Tim Burton (Girafinha)

terça-feira, 29 de junho de 2010

Resenha HQ: Memórias de um sargento de milícias

Sinopse: Leonardinho é o filho desordeiro e malandro do português Leonardo-Pataca. Ambos vivem todo o tipo de confusões no Rio de Janeiro da época de Dom João VI.

Análise: O crítico Antonio Candido e poeta Mário de Andrade são dois dos muitos autores renomados que, ao longo da história da literatura brasileira, já analisaram a obra Memórias de um sargento de milícias, único trabalho de Manuel Antônio de Almeida. Mário de Andrade, inclusive, a usou como base para seu maior texto: Macunaíma.

Não é por acaso que, quase todos os anos, o livro está na lista de leituras obrigatórias dos principais vestibulares do Brasil e continua sendo estudado com afinco nos colégios e universidades.

Pensando nessa importância histórica, e seguindo sua recente linha de clássicos da literatura brasileira em quadrinhos, a Ática lança esta adaptação de Memórias de um sargento de milícias, com roteiro de Ivan Jaf e arte de Rodrigo Rosa, o mesmo time criativo de O Cortiço.

O roteiro da obra tem uma adaptação mais fiel, talvez pelo volume de texto ser menor e pelo fato de o livro de Manuel Antônio de Almeida ser mais rico em descrições, muito bem retratadas pela HQ.

A arte de Rodrigo Rosa está ainda melhor que em O Cortiço. Desta vez, o quadrinhista gaúcho optou por requadros maiores e uma diagramação mais convencional. O destaque é a colorização competente, que, aliada ao expressivo traço do autor, gera belas imagens.

Há que se destacar que a adaptação da obra faz uso dos principais elementos, como o antológico início "Era no tempo do rei..." ou a cena em que o Vidigal recebe as mulheres vestido de pijama e farda.

Entretanto, algumas coisas inevitavelmente se perderam com a transposição da literatura para os quadrinhos, como, por exemplo, quando Leonardo tem um caso com a mulher do Toma-Largura, e Manuel Antônio de Almeida faz uma clara metáfora entre sexo e uma refeição com sopas e que, na HQ, ficou apenas nas sopas.

Esse tipo de perda é inevitável na transposição de um meio para o outro, mas não diminui o brilhantismo da adaptação. O trabalho editorial acompanha esse alto nível: o livro traz vários extras e explicações teóricas. Um álbum recomendado para alunos, professores e fãs de quadrinhos.

Nerdshop:

Memórias de um sargento de milícias, de Ivan Jaf (roteiro e adaptação) e Rodrigo Rosa (arte), Ed. Ática

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Resenha: A Invenção de Hugo Cabret

Sinopse: Hugo Cabret é um menino de 12 anos que trabalha como relojoeiro de uma estação de trem na França no início do século XX. Sua vida muda quando ele e seu pai encontram um estranho autômato quebrado que, se consertado, pode escrever e desenhar coisas incríveis.

Análise: A invenção de Hugo Cabret é um livro juvenil que conta a história de um menino às voltas com a invenção mágica do cinema no momento de grande produção científica e cultural que foi o início do século XX.


O livro chama atenção pela proposta do autor Brian Selznick Kubo que, para tentar passar uma sensação cinematográfica aos leitores, fez grande parte da obra ilustrada sequencialmente. Com cada dupla de páginas montando uma cena, há seqüências inteiras da história que são apenas visuais.

E o artista domina esse tipo de narrativa com mestria. Todas as seqüências conferem uma emoção maior à obra, com destaque para as perseguições, das quais o narrador se declara fã confesso. Já os enquadramentos das cenas imitam os de cinema, com closes e grande angulares, funcionando exatamente como num filme.

O texto fica bem mais leve e fluido com as inserções "cinematográficas". O narrador não perde tempo com descrições de personagens e lugares, que já estão desenhados, focando mais nos diálogos.

A trama é sobre cinema, mágica e invenções. Hugo Cabret é um jovem com talento para consertar relógios e fazer mágicas, mas que tem uma vida sofrida, pois recentemente perdeu o pai e o tio.

O garoto se agarra na sua tentativa de arrumar um boneco autômato quebrado que seu pai encontrou antes de morrer. Isso o leva a conhecer o dono de uma loja de brinquedos com os mesmos talentos, chamado Georges (na verdade, o cineasta inventor dos efeitos especiais Georges Meliès), e a sobrinha dele, Isabelle. Mas o encontro entre eles não é amigável e Hugo passará por muitas dificuldades até consertar o autômato.

A edição da SM é bem cuidada, com exceção de um único erro de diagramação na página 193, com uma linha "forca" sobrando. A ausência de orelhas e um acabamento mais simples colocaram o preço do livro, com mais de 500 páginas, a menos de R$ 30,00, facilitando o acesso dos leitores.

A história simpática aliada à narrativa gráfica sensacional fazem do livro uma ótima leitura. Quem ficar curioso e decidir ler a obra, não se arrependerá.

domingo, 27 de junho de 2010

Resenha: Hellblazer – Hábitos Perigosos

Sinopse: John Constantine está morrendo. Antes de partir, procura todos os seus amigos para se despedir, mas há ainda coisas pendentes a fazer.

Análise: Quando Garth Ennis assumiu a revista mensal Hellblazer, estrelada pelo maga canalha John Constantine, o autor se encontrava diante de uma encruzilhada: que histórias boas ainda não tinham sido contadas de Constantine?

Era inegável que os outros autores, especialmente o ótimo Jaime Delano, que tinham posto as mãos nos personagens deixaram um ótimo trabalho. Além disso, praticamente esgotaram os temas mais comuns do personagem.

Então Ennis colocou Constantine diante de algo que nunca tinha lidado e também um problema que afeta a todos: a morte. O personagem estava com câncer terminal graças ao cigarro que fumava compulsivamente.

E é diante desse plot que Hábitos Perigosos se desenrola. Contantine vai atrás de sés amigos para se despedir e encontra gente como ele, mas o mais marcante é Matt, um paciente terminal como ele que conversa do leito de um hospital. Matt funciona como um espelho e também uma consciência do protagonista. Ele diz aquilo que Constantine precisa ouvir e revela aquilo que precisa ver. Toda vez que o mago fica desorientado em seu calvário, procura Matt para se aprumar novamente.

E entre amigos e desafetos que Constantine busca uma maneira de sobreviver a algo tão humano quanto um câncer. E, ao mostrar isso, Garth Ennis compôs uma das melhores, senão a maior de todas as sagas do personagem. Basta dizer que a trama desse arco foi a maior inspiradora do terrível filme Constantine, estrelado por Keanu Reeves.

A edição da Pixel é competente e traz diversos textos de colaboradores que contextualizam e complementam a HQ. Um fato curioso é que Esse arco foi publicado depois de escolha dos leitores no site da editora. Como vox populi, vox dei, a editora acertou em cheio.

Nerdshop:
Hellblazer - Hábitos Perigosos, de Garth Ennis e William Simpson

sábado, 26 de junho de 2010

Resenha: Flores Manchadas de Sangue

Sinopse: Seleção de cinco histórias de samurai escritas e desenhadas por Cláudio Seto.

Análise: Em 2008 foi o ano do centenário da imigração japonesa no Brasil. Diversos eventos tomaram o país e, no mundo dos quadrinhos, não foi diferente. Na edição do prêmio HQ-Mix desse ano, por exemplo, diversos autores e pessoas ligadas aos quadrinhos de origem nipônica foram homenageados. Mas a maior homenagem de todas foi a Cláudio Seto, cujo personagem Samurai, título de uma importante revista em quadrinhos dos anos 1960 e 1970, virou a estátua que era o troféu do prêmio naquela oportunidade.

A homenagem foi justa e merecidíssima para o emblemático autor e ganhou contornos ainda mais marcantes quando, poucos meses depois, ele veio a falecer em decorrência de um derrame.

As HQs brasileiras perdiam um ícone e um de seus grandes expoentes. Curiosamente, as editoras Devir e Jacarandá preparavam um álbum que compilava cinco histórias do autor, escolhidas por ele mesmo. É este Flores Manchadas de Sangue, que acabou saindo postumamente.

Seto sempre batalhou para difundir a cultura oriental, sobretudo a japonesa, em terras tupiniquins e em seu prefácio do livro explica que as histórias por ele selecionadas representam os cinco elementos nipônicos: água, fogo, terra, metal e madeira. Antes de cada trama, então, ele contextualiza cada elemento em um texto introdutório e mostra como cada espada de cada elemento influi na personalidade de seus protagonistas.

A partir daí, somos brindados com cinco tramas que representam o que melhor Seto produziu. São elas: “O Sósia”, “O Monge Maldito”, “A Flor Maldita”, “Idealismo Frustrado” e “Flores Manchadas de Sangue”.

“O Sósia” é regido pela Ha no Ken, a espada de metal, e conta a história de um daimyo que nomeia um sósia para proteger-se de ataques a seu feudo, só que o tal sósia está decidido a tomar o lugar de seu suserano. A espada de metal rege pessoas decididas e fortes e é essa a característica do protagonista.

O próprio Seto explica ainda que essa HQ é importante para definir o seu estilo artístico. A partir dela que o estilo de sua arte-final ficou definida.

Em “O Monge Maldito”, a espada da água, Mizu no Ken é o elemental. A maleabilidade da espada da água faz com que aqueles que a usam montem seus planos e se mantenham neles até realizá-los. E é assim o protagonista da história, o monge Ôkami, que manipula um feudo ao seu bel-prazer e desperta a ira de todos.

“A Flor Maldita” é uma história com um ar sobrenatural, mostrando um feudo amaldiçoado por uma flor vermelha que atormenta quem lá se instala. Quem a rege é a espada do fogo, Hi no Ken, implacável, que pode tanto guiar quanto ferver o coração dos homens, como acontece com Hirano, o personagem principal da trama.

Tsuchi no ken , a espada da terra, determina um espadachim idealista, assim como Kodi, o personagem principal de “Idealismo Frustrado”. Ele entra para o grupo Gooyotô, que pretende derrubar o poder opressor no Japão.

Essa história em especial se destaca no álbum por ser um retrato de sua época. Nela, Seto simboliza os jovens envolvidos no combate contra a violenta ditadura militar que assolava o Brasil na época da feitura da HQ (1972). Entretanto, ele critica o própria expediente violento que alguns grupos utilizavam. Sem dúvida nenhuma, no que se refere ao roteiro, é o ponto alto do álbum.

Já quando o assunto é a arte, o destaque fica para a trama que encera e também empresta o nome ao álbum, “Flores Manchadas de Sangue”. Ki no ken, a espada de madeira, é quem rege esse capítulo do livro. Saber cair, se levantar e continuar lutando é o que faz o seu espadachim. O enredo é sobre amor impossível, focada em um samurai que faz tudo para estar com sua amada, apesar do destino trágico que os aguarda.

Ainda sobre destinos trágicos, todas as histórias do álbum, bem como muitas outras de Seto, tem ares shakesperianos, terminando quase sempre em um banho de sangue. Mas mesmo sendo possível antever os finais de cada história, o seu desenrolar e a abordagem das personalidades envolvidas é o que as tornam atraentes.

Além disso, a arte de Seto é ótima. Sob influência dos gekigás japoneses que a comunidade nipônica brasileira sempre teve algum tipo de acesso, o seu trabalho, bem como o de seu contemporâneo Júlio Shimamoto, é comparável ao de mestres como Kazuo Koike e Goseki Kojima de Lobo Solitário.

O álbum é ainda abrilhantado por uma ótima introdução de Franco Rosa e orelha de Antônio Mendes, que contextualizam o trabalho de Seto e de sua geração, trazendo ao leitor a consciência da importância do trabalho desse importante quadrinhista que, infelizmente, não pode mais contar novas histórias.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Resenha: Píppi Meialonga

Sinopse: Píppi é uma menina de nove anos órfã, que mora em uma casa com o macaco Sr. Nilson e seu cavalo.

Píppi Meialonga é um livro episódico, que conta pequenas aventuras da menina com seus dois novos amigos, que moram na casa da frente, Aninha e Tom.

A história da obra é bem simples: Píppi vive sozinha. Sua mãe morreu quando era ainda pequena, então ela passou a acompanhar o pai, capitão, em suas viagens pelo mundo. Quando o pai morre num naufrágio, a menina assume a propriedade deles, chamada Vila Vilekula, e passa a viver sozinha.

Apesar de uma tristeza aparente, não há tempo para esse sentimento na obra. Píppi é uma criança bem dinâmica e resolvida: ela limpa a casa, faz biscoitos, dorme quando sente sono, passa a noite acordada. Pra completar, ela tem uma força descomunal, o que impede que policiais a levem para orfanato e que ladrões roubem sua fortuna.

Forte, independente, rica: Píppi é tudo o que uma criança quer ser. E por isso ela é tão cativante. Sua inocência frente aos padrões morais é muito engraçada, rendendo situações divertidas e respostas afiadas na ponta da língua. A risada é garantida.

A obra já gerou filmes, desenhos... mas, com certeza, nada é melhor do que o próprio livro. A tradução foi feita com muito cuidado, direto do sueco (língua original).

Píppi Meialonga cativa leitores de todas as idades. Recomendo para qualquer um que quiser uma leitura leve e divertida, ou para dar de presente a alguma criança (ou adulto...).

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A Gota D'Água - Diário de Um Banana Vol. 3

Sinopse:Começa mais um difícil ano de escola da vida do Greg Heffley, o irmão do meio de uma família norte-americana para lá de atrapalhada.

Análise: A versão brasileira do Diário de Um Banana, primeiro volume da saga de Greg Heffley, arrebatava o leitor com uma narrativa hilariante e despretensiosa. O segundo, Rodrick é o Cara, mantinha o bom nível e terminava fazendo o leitor ansiar pelo próximo.

A espera acabou. Eis o terceiro, e excelente, volume A GotaD'Água.

Os três livros trazem um design que imita um diário de uma criança (de um "banana", no caso), como páginas pautadas, uma tipologia que emula uma letra escrita à mão e diversos cartuns entre os blocos de texto. E nele é narrado o ano escolar de Greg Heffley.

Como de praxe, Greg se mete em todo tipo de situação hilária e se atrapalha sempre que precisa conversar com alguma garota. Os eventos são semelhantes aos apresentados nos dois livros anteriores, e igualmente divertidos. Por isso, Diário de um banana - A gota d'água deve acertar em cheio no gosto de seu público-alvo.

Para os leitores brasileiros, uma diversão a mais é um longo episódio em que quando o pai de Greg o obriga a praticar algum esporte - e ele escolhe o futebol. Como se sabe, a relação dos norte-americanos com o esporte número um do mundo é completamente diferente da do resto do mundo, sobretudo da dos brasileiros.

No livro, o time é formado por meninos que não deram certo em outros esportes ou pior, no caso de Greg, por alguém que não está disposto a fazer muito esforço. Mesmo assim, a equipe ganha liga e tem uma campanha perfeita, rumando para um título quase invicta.

Greg fica tranquilamente na posição de ponta de banco, até que algum pai reclama que seus filhos não estão jogando e o treinador começa a colocá-lo em campo apenas para formar barreiras em faltas.

Pensando numa maneira de escapar também disso, ele passa a treinar de goleiro reserva e fica fora quase o campeonato inteiro... até o titular se machucar. Eis o gancho para mais boas risadas.

Aí que mora a diversão da série Diário de um banana: a vida de Greg é repleta de situações comuns, que poderiam acontecer com qualquer um. Sobretudo com um leitor juvenil, disposto a dar boas risadas.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Homem Nerd ganha prêmio

O Homem Nerd teve seu trabalho de divulgação de FC e Fantasia brasileiros reconhecido, ao empatar na premiação de melhores do ano do gênero, promovida pela Fábrica de Sonhos. Empatamos em primeiro lugar na categoriaSites Informativos, com o siteFantastic.

Criamos até uma notícia extra no site, confira clicando aqui. Para ver o resultado completo da premiaçnaõ do Ficção Científica e Afins, basta clicar aqui.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Resenha HQ: Corto Maltese - A Balada do Mar Salgado

Sinopse: Um dos maiores clássicos das histórias em quadrinhos, publicado na Itália em 1967, foi o primeiro tomo da série de aventuras do marinheiro Corto Maltese, do lendário quadrinista Hugo Pratt (1927-1995). Ambientada entre 1913 e 1915, o livro narra a perigosa jornada de Corto Maltese pelas areias do Pacífico, onde ele acaba envolvido em um conflito tribal.

Análise: Já faz tempo, em 2006, quando a Pixel Media estreava promissoramente com este A Balada do Mar Salgado, de Hugo Pratt.

A lendária HQ, a preferida de muitos estudiosos e conhecedores da nona arte, é uma aventura intrigante, que envolve piratas, aborígines, 1ª Guerra Mundial, reféns, e tudo mais que se tem direito.

A trama é cativante e é impossível parar de ler as 178 páginas do álbum antes de chegar o fim. Corto Maltese é um anti-herói, um personagem ambíguo, capaz de atos admiráveis e detestáveis, como todo ser humano. E não é só o protagonista que é um personagem verossímil, com profundidade, todos que participam da trama, tem seus motivos a razões para agir da maneira como agem, sendo impossível determinar se há heróis ou vilões, são apenas pessoas numa situação incomum.

Há um aspecto em especial na personalidade de Corto Maltese que chama a atenção. Pratt era também um aventureiro, que viajou o mundo, fundando escolas e plantando amores onde quer que passasse (Brasil e Argentina foram dois de seus destinos). Seu caderno de viagem foi a principal matéria prima de Corto Maltese e suas aventuras.

Além da excelente construção dos personagens, a arte de Hugo Pratt é mais um trunfo do livro. Ele sabe ser detalhista quando necessário, como nos mapas que ajudam os leitores a se situarem e uma de suas paixões, e minimalista quando a situação exige. Em nenhum momento a narrativa empaca, muito pelo contrário, flui perfeitamente até o final. Entretanto, em alguns momentos podemos notar uma certa preguiça de Pratt, repetindo enquadramentos e deixando cenas limpas para dar andamento para a seus desenhos.

A Pixel seguiu publicando a coleção de Corto Maltese, até o ocaso da editora interrompê-la, deixando ainda muito material inédito. Entretanto, ler A Balada do Mar Salgado é uma experiência enriquecedora e uma verdadeira aula de quadrinhos, quem puder, aproveite.


Nerdshop:
Corto Maltese - A Balada do Mar Salgado, de Hugo Pratt (Pixel)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Senhor das Vulvuzelas

O clima de Copa do Mundo tomou conta do mundo nerd com o vídeo abaixo, parodiando a série O Senhor dos Anéis e as famigeradas vulvuzelas:

Resenha: A Boa Sorte de Solano Dominguez

Sinopse: Solano Dominguez é um malandro cubano que, após perder a esposa prostituta que lhe sustenta, tira a sorte grande ao “ganhar” uma bela filha de herança.

Análise: Wander Antunes é um homem descolado de seu tempo. Seus trabalhos, como O Corno que Sabia Demais – Zózimo Barbosa, publicado pela Pixel, e neste A Boa Sorte de Solano Dominguez, da Desiderata, situam histórias nos anos 50. E ambas tem mais uma coisa em comum, essencial, os personagens principais são malandros cafajestes.

Solano Dominguez era casado com a prostituta mais formosa de Cuba pré-Fidel, que o sustentava, mas que caiu em desgraça e morreu, deixando-lhe uma filha criada em escola de freiras. Solano, um vagabundo, decide então leiloar a virgindade da bela filha ao homem mais rico do lugar, Don Enrique e precisa transformar a ex-carola em uma moça libidinosa.

Novamente a influência de Nelson Rodrigues e suas crônicas da A Vida Como Ela é é notória. Tanto no sexo quanto no desfecho tragicômico. Os diálogos são engraçadíssimos e o desenrolar da trama inusitado.

Os desenhos em preto e branco de Mozart Couto são a combinação perfeita para o roteiro, dando um ar meio retrô a obra. Sua diagramação é pouco ousada, mas isso é compensado pela boa caracterização dos personagens.

Já a edição da Desiderata está show. Tratamento gráfico de primeiro, com reserva de verniz na capa e orelhas, um projeto gráfico eficaz e, o melhor, um formato que valoriza o trabalho do desenhista (21 x 29 cm).

Por todos esses motivos, A Boa Sorte de Solano Dominguez é um livro imperdível e leitura obrigatória para os fãs de uma boa história em quadrinhos.

Nerdshop:

A Boa Sorte de Solano Dominguez, de Wander Antunes e Mozart Couto (Desiderata)

domingo, 20 de junho de 2010

Mangá: Death Note

Sinopse: O jovem Light encontra um caderno mágico, que tem a tenebrosa propriedade de causar a morte de quem tem o seu nome escrito nele. O rapaz decide então acabar com toda a vilania do mundo, dando cabo dos diferentes assassinos ao redor do globo. Mas as circunstâncias misteriosas das mortes dos bandidos deflagram uma investigação em todo o planeta comandada pelo misterioso L.

Análise:O polêmico mangá Death Note foi lançado no Brasil pelas mãos da JBC. Trata-se de uma HQ de terror sobrenatural mesclado com psicológico. Há elementos da cultura japonesa, como os deuses da morte Shinigamis, mas também muito de thrillers cinematográficos, com investigação e suspense como principal tônica da história.

Contudo, o que mais chama a atenção em Death Note é ótima arte de Takeshi Obata. As expressões são muito limpas e sensíveis. Na narrativa, há uma mescla de cenas cuja simplicidade impera com cenas mais detalhas e bem elaboradas. Com toda a certeza, é uma arte de saltar aos olhos.

Interessante a retratação dos Shinigamis, deuses da morte na cultura japonesa. Aqui, diferentemente de Bleach, por exemplo, os Shinigamis são criaturas mais bestiais, que usam roupas pretas, lembrando um pouco a caracterização do personagem o Corvo, do filme homônimo.

A trama de Death Note seduz o leitor facilmente, se escorando nos mistérios que a recheiam. Há, porém, alguns momentos duros de engolir na história. Além disso, as motivações do protagonista também podem ter sua verossimilhança discutida, afinal, o sujeito quer ser um “deus do novo mundo” após erradicar todo o mal da Terra.

Por 12 edições, os leitores puderam se envolver nas investigações de L, M e N tentando desmascarar Light. No geral, o mangá conseguiu manter um bom nível durante toda a sua duração e, sem muita enrolação, chegou a um final satisfatório. A boa notícia é que é muito fácil encontrar todas as edições de Death Note a venda. Quem arriscar, não se arrependerá.

sábado, 19 de junho de 2010

Resenha HQ: Copacabana

Sinopse: A partir da protagonista Diana, uma prostituta negra, a Copacabana retrata o lado sombrio da famosa praia carioca: um submundo corrupto movido pelo dinheiro do turismo sexual.

Análise: Copabana é uma HQ de excelente qualidade. Trata-se de uma graphic novel de mais de 200 páginas sobre o submundo carioca entorno da famosa praia de Copacabana.

Na pele da protagonista Diana, o leitor se envolve num mundo de drogas, corrupção, assaltos e golpes, onde não necessariamente o mais forte sobrevive, mas sim o mais esperto.

A narrativa que S. Lobo imprime é como a de um romance, dividido em capítulos. Dessa maneira, o leitor pode conferir pausas a sua leitura sem prejudicar o ritmo da obra.

A trama em si é cativante e tem um clima noir e erótico interessante. Contribui para a sua boa execução a ótima arte em preto e branco de Odyr. Com um traço sujo e escuro, o desenhista faz um trabalho que não é facilmente palatável, com detalhes sutis e de muita qualidade. Cada desenho casa perfeitamente com o roteiro.

Dessa maneira, cada página é um trabalho único, que reunidas no álbum transformam Copacabana numa ótima HQ autoral e que deve agradar o público adulto, tanto masculino quanto feminino.

Nerdshop:
Copacabana, de S. Lobo e Odyr (Desiderata)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Resenha: On the road - Pé na estrada

Antes de tudo, um aviso: este livro não é auto-biográfico. Provavelmente só eu fui tonta o suficiente pra acreditar nisso, praticamente inventando a informação. Mas é sempre bom prevenir. A única razão que me fez pensar que tal obra era auto-biográfica é que ela parece uma, e que ela convence.

Análise: Num primeiro momento a história resume-se a Sal Paradise e sua decisão de viajar de New Jersey a San Francisco para encontrar Dean Moriarty, seu amigo ainda não tão amigo assim, no exato ano de 1947. Com uns 50 doláres no bolso ele bota o pé na estrada e adeus vidinha simples casa-trabalho-casa. Sal passa por diversas cidades e Kerouac descreve-as brevemente, nunca enchendo o leitor de detalhes mas sempre falando o suficiente para que possamos vislumbrá-las aos olhos do protagonista. Além disso, parte da viagem é feita por ônibus, parte via caronas (daquelas que envolvem o dedão), e tudo parece lindo. Os carros, os motoristas, os passageiros, os caronistas, os habitantes locais... cruzar os Estados Unidos de carona parece ser a melhor experiência do mundo.

Bom, este primeiro momento engana. A história não é sobre uma viagem, é sobre várias. E não é apenas sobre viagens, é sobre o sonho americano e a liberdade que o Oeste – leia-se Califórnia – oferece.

Sal chega a San Francisco, encontra seu amigo Dean e juntos fazem diversas outras coisas. É um vai e volta entre Leste e Oeste tão grande que em determinado momento você não sabe mais onde eles estão: se em Frisco, Denver ou New York, e no final nem faz diferença, porque onde quer que eles estejam a vida é a mesma. Passeios noturnos por becos e bares undergrounds tocando o ensandecido bop, garotas loucas para se agarrarem a eles, promessas vãs sobre atravessar o país e construir uma vida nova repleta de sonhos e realizações; é o beat.

E num ritmo frenético, numa narrativa simples e sem rodeios, Kerouac consegue filosofar suas loucuras através de Dean e seus pensamentos mais profundos e confusos por Sal.

É exatamente neste momento em que se percebe que o livro o enganou. A história não é sobre viagens ou sobre o sonho americano, é sobre amizade, especificamente a que rola entre Sal e Dean.

O livro é também sobre como o sonho americano é hipócrita, e a melhor maneira de eu ilustrar isso é copiando aqui um parágrafo do livro, que diz tudo:

"Dean me mostrou outras fotos. De repente percebi que eram essas as fotografias que nossos filhos olhariam algum dia, com espanto, pensando que seus pais tinhas vivido vidas ordeiras, tranqüilamente, tudo conforme o figurino, e que eles acordariam de manhã para percorrer orgulhosamente as calçadas da vida, sem jamais sonhar com a loucura esfarrapada e a balbúrdia de nossas vidas reais, de nossa noite real, o inferno disso tudo e a estrada do pesadelo sem sentido. Tudo isso num vazio sem começo nem fim. Oh, a santa ignorância dessas pobres crianças.”

A edição da L&PM vale a pena, o preço é de um pocket brasileiro e a edição tem prefácio e posfácio escritos por Eduardo Bueno, grande fã da obra e do autor, além de assinar a tradução para o português. Inclusive no posfácio ele comenta sobre ter ido de New York a Porto Alegre de carona!

Nerdshop

On The Road, de Jack Kerouac (L&PM)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Resenha: Có!

Sinopse: Um homem se depara com uma surreal surpresa em sua fazenda, envolvendo suas galinhas e seus porcos.

Gustavo Duarte é mais conhecido por suas bem-humoradas charges publicadas diariamente nas páginas do jornal esportivo Lance!. Lá, sempre consegue, no espaço de um quadrinho e sem nenhum texto verbal, impor sacadas interessantes sobre o que acontece no mundo esportivo e arrancar risos até dos mal-humorados fãs de esportes.

Por isso não é de surpreender essa sua ótima estreia nos quadrinhos sequenciais. Nas 32 páginas de Có!, ele não utiliza nenhum texto verbal, tal qual as suas charges. Mesmo assim, compõe uma excelente narrativa imagética contando a divertida história de um fazendeiro que, após umas cervejas a mais, passa a ter problemas surreais com os animais da sua fazenda.

O traço leve e expressivo de Duarte, aliada a essa boa narrativa visual, conferem à arte o grande atrativo da revista, que por sinal foi bem aceita por editores estrangeiros na San Diego Comic-Con. A trama pode ser um pouco manjada e bastante nonsense, entretanto isso não tira o brilho da história. No Brasil, a revista foi indicada ao prêmio HQ-Mix na categoria independente.

Aqueles que acharem que o bom trabalho artístico de Duarte vale o investimento, pode adquiri-la no site do autor ou então nas livrarias Comix Book Shop e HQ-Mix Livraria.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Três Dedos


Sinopse: Em entrevistas feitas com personalidades animadas, o leitor conhece os primórdios dos filmes de animação. Porém há mistérios e conspirações que determinam o destino dos personagens.

Análise:
Os falsos documentários (ou mockmentaries) são um tipo de filme que trazem enfoques interessantes sobre assuntos diversos. Normalmente, tais produções usam o artifício de um objeto de estudo inexistente para conseguirem maior liberdade para retratar uma situação ou até fazer uma denúncia.

Três Dedos (Three Fingers) transporta com maestria essa fórmula cinematográfica para o mundo dos quadrinhos. Tanto que, ao folhear as páginas do volume, o leitor se sentirá assistindo a um desses documentários conspiratórios que são transmitidos em canais de TV a cabo.

O roteiro é muito bem estruturado, revelando seus segredos de forma cadenciada. A paródia a personagens famosos dos desenhos animados é um charme a parte, premiando os conhecedores do assunto com diversas referências.

Aquele objetivo denunciativo ao qual me referia no começo do texto também está presente em Três Dedos. A obra pode ser entendida como uma crítica ao poderio aparentemente ilimitado do império Disney. É sabido que a empresa fez lobby junto ao Congresso dos Estados Unidos para mudar leis e manter-se detentora dos direitos patrimoniais de Mickey Mouse, seu carro chefe.

Talvez a suposiçao acima seja exagera, mas combina perfeitamente com a tônica dessa envolvente HQ.

Nerdshop:
Três Dedos - Um Escândalo Animado, de Rich Koslowski (GAL)

Resenha: Fundação e Império - Fundação vol. 2

Sinopse: A história dos mil anos de bárbarie continua. Dessa vez, pode surgir uma nova crise, não prevista por Hari Seldon.

Análise: Na matemática variável é um elemento representante do conjunto de todos os resultados possíveis de um fenômeno. Quando ela muda, muda o resultado. Na grande equação da psico-história de Hari Seldon, há variáveis, mas o resultado será sempre o mesmo: mil anos de barbárie e depois a criação de um novo Império Galático, pacífico, equilibrado e democrático.

Para isso foram fundadas duas Fundações científicas que prevaleceriam diante das adversidades e seriam os pilares desse novo Império. Uma em cada lado da galáxia e sem contato com a outra.

Com o passar dos anos, crises se aproximam de uma das fundações e elas sempre são solucionadas de acordo com as previsões de Seldon, mas sempre por líderes fortes, prontos para levar a Fundação a um novo patamar evolutivo socialmente. Esses são os eventos narrados no primeiro volume: Fundação.

São os primeiros duzentos anos de história, nos quais tudo transcorre de acordo com a inexorável certeza da psico-história e nos quais o povo fica confiante e sem preocupações. Entretanto, as pessoas e suas emoções não são constantes, são variáveis, e uma equação com elas pode ter infinitos resultados. E eis que surge a maior variável de todas, aparentemente não prevista por Seldon: o Mulo.

O Mulo é um mutante com poderes psíquicos que conquista gradativamente os planetas da Galáxia e se aproxima da Fundação. Algumas pessoas tentam se levantar contra ele, e partem em busca da segunda Fundação. Essa é a principal narrativa deste segundo volume: Fundação e Império.

Épico, científico, humano e político é o enredo de uma das maiores sagas da história da ficção científica. Nela, o autor Isaac Asimov coloca a ciência inventada por ele psico-história no centro dos acontecimentos, com um carrossel de personagens que se alternam ao longo de mil anos de história.

E nessa segunda parte da saga, tudo dá errado para essa ciência. É um espelho negativo para o sucesso mostrado no primeiro livro, algo como um Império Contra-Ataca para A Nova Esperança. Mas o leitor não consegue deixar de torcer pelas forças históricas da Fundação diante das crises, mesmo sabendo que eventualmente eleas terminarão como previu Seldon.

O resultado é um livro tão envolvente que é impossível não terminá-lo e querer ler o próximo, Segunda Fundação, para saber se Hari Seldon tinha razão ou se as variáveis mudarão o resultado de sua equação.

Nerdshop:
Trilogia Fundação de Isaac Asimov (Aleph)

terça-feira, 15 de junho de 2010

Resenha: Chinês Americano

Sinopse: Enquanto o Rei Macaco tenta ser reconhecido como um sábio, Jin Wang, garoto de origem chinesa que vive em São Francisco, busca se integrar à comunidade americana tradicional.

Chinês Americano chega às livrarias já sob a polêmica de ter sido indicada ao National Book Award na categoria infantil, um dos mais importantes prêmios de literatura norte-americano, e, por isso, ter sofrido com ataques da imprensa norte-americana por ser uma HQ e, portanto, não poderia concorrer a prêmios literários.

Polêmicas à parte, trata-se de uma excelente obra, com um inegável valor artístico, seja ele literário ou não. O trabalho de Gene Luen Yang é ótimo. O autor domina como poucos a narrativa em quadrinhos, conseguindo interligar três histórias paralelas com competência.

Sua arte é estilizada, com um ar mais infantil e caricatural. O livro é inteiro em cores e o trabalho de colorização é ótimo. O acabamento gráfico da Companhia das Letras é fantástico e faz jus a qualidade da obra. Por tudo isso, o preço está bastante justo para um livro de 240 páginas coloridas.

O roteiro mostra três histórias correndo em paralelo. A primeira, e mais interessante, é a Rei Macaco, antiga lenda chinesa que inspirou diversas histórias como Dragon Ball. Nela, o Rei Macaco quer ser reconhecido como um sábio que é semelhante aos deuses, mas sua origem como macaco o impede de conseguir tal feito, mesmo ele dominando todas as artes do Kung Fu.

A história é uma metáfora para a segunda, e fio condutor do livro, é a de Jin Wang, criança oriental tentando se enquadrar dentro da cultura norte-americana. Wang sofre por se sentir excluído e só consegue amigos dentro do gueto oriental.

A terceira trama é “Todo mundo adola Chin-Kee”, que aparentemente é uma paródia de sitcoms norte-americanos, mas na realidade se interliga com a trama principal.

Todas as histórias tem uma veia autobiográfica e refletem a possível exclusão que o autor sofre na América. Cada uma tem seu charme, mas é inegável que a trama do Macaco Rei é a mais atrativa.

No geral, a HQ é bem-executada e a leitura é agradável. Talvez a única grande crítica fica por conta da maneira como as três narrativas se intercalam no final, de maneira abrupta. Mesmo assim, Chinês Americano é um livro que mereceu figurar em todas as listas de prêmios que esteve presente.

Nerdshop:
Chinês Americano, de Gene Luen Yang (Quadrinos na Cia)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Rodrick é o Cara - Diário de um Banana vol. 2

Sinopse: Depois dos eventos mostrados em Diário de um Banana, seguiram as férias de verão de Greg Heffley, que também foram terríveis. Só que dessa vez os eventos foram muito piores, pois Rodrick, seu irmão mais velho, descobriu uma coisa sórdida sobre Greg e o chantageará ao longo do próximo ano letivo.

Diário de um Banana com certeza foi um dos livros mais engraçados lançados no Brasil em 2008. Visando a um público infantojuvenil, o livro agradou a todas as idades e foi figurinha constante em listas de mais vendidos.Não demorou para que viesse o segundo livro da série, Rodrick é o Cara.

Interessante notar que a série no seu país de origem começou num blog do designer de games Jeff Kiney e após o sucesso online, já tem quatro volumes impressos.

A narrativa dessa segunda história se passa no ano letivo seguinte ao do livro anterior, iniciado pelo novo diário de Greg, que além de ter de conviver com a pouca popularidade na escola precisa aguentar as chantagens de seu irmão, Rodrick. O primogênito da família presenciou um fato constrangedor de Greg - irmão do meio - durante as férias de verão. Fato que o protagonista quer manter em segredo de todo mundo da escola.

A sequência do livro, então, é um apanhado de fatos hilários do cotidiano de Greg, como episódios de bullying na escola, uma partida de RPG com sua mãe, as aulas de bateria com Rodrick, entre muitas outras coisas.

O resultado é um livro hilariante, com diversas passagens que levam o leitor a perder o ar de tanto rir. Mesmo com o anterior, Diário de um Banana, sendo ainda melhor e mais hilário, Rodrick é o Cara não deixa o nível cair.

Há de se destacar o bom trabalho da editora, sendo a edição em capa dura brasileira ainda melhor que a norte-americana. Além disso, o trabalho de tradução e preparação do texto ficou excelente, aproximando a linguagem do cotidiano dos jovens leitores.

Nerdshop:
Rodrick é o Cara, de Jeff Kinney (V&R)

domingo, 13 de junho de 2010

Resenha: O Corno que Sabia Demais

Sinopse: Diversas histórias do detetive particular Zózimo Barbosa no Rio de Janeiro da década de 1950.

Análise: O Corno que Sabia Demais é uma ótima HQ nacional. Wander Antunes, completamente inspirado na obra de Nelson Rodrigues em A Vida como ela é..., criou uma série de narrativas curtas no Rio da década de 1950 contadas pelo detetive Zózimo.

Zózimo não é necessariamente o protagonista das histórias, como o Spirit, de Wil Eisner, ele apenas participa das histórias de outras pessoas. E são histórias de adultério, morte, traição, tal qual as da inspiração em A Vida como ela é...

Wander criou uma galeria de personagens que encarnam estereótipos dos personagens de Nelson Rodrigues. O próprio Zózimo é um detetive particular malandro, que não hesita em enganar seus clientes para ganhar dinheiro fácil. Há também o Paranhos, um tira que não acredita em investigação, seu lema é: “O que resolve é bater sem dó nem piedade. Aí o sujeito confessa tudo, o que fez e o que não fez!”. Mas o maior de todos os tipos em O Corno que Sabia Demais é o Bonitão. Seu nome já diz tudo, é o amante latino. Talvez fosse melhor ainda se ele se chama-se Ricardão, pois toda história em que há adultério de uma esposa, o vetor é o Bonitão.

As tramas, apesar da inspiração de Nelson Rodrigues, são bem mais leves e raramente terminam em tragédia. Os desenhos de Gustavo Machado e Paulo Borges contribuem bastante para isso, tendo um estilo próprio bem leve e casam perfeitamente com o roteiro. Destaque para a narrativa bem televisiva em alguns pontos e cinematográfica em outros, com cenas onde a “câmera” da closes, e outras em que se afasta em grande angulares.

Dois destaques especiais, primeiro para o título das histórias que são muito divertidos. Segundo para as gírias e o jeito de falar dos personagens, perfeitamente natural e condizente com os anos 50.

Por todos esses motivos, O Corno que Sabia Demais é leitura obrigatória pra os fãs de quadrinhos mais bem-humorados.

Nerdshop
O Corno que Sabia Demais, de Wander Antunes, Gustavo Machado e Paulo Borges

Resenha: Homem-Aranha – Ruas de Fogo

Sinopse: Uma nova droga surge nas ruas de Nova Iorque. Cada um que toma essa droga, denominada triex, ganha poderes equivalentes ao de super-heróis, causando destruição, medo e riscos, até mesmo aos próprios usuários da droga. Cabe ao Homem-Aranha, em conjunto com a polícia local, desmontar a rede de tráfico que colocou o triex nas ruas.

Homem-Aranha: Ruas de Fogo é o primeiro de uma malfadada linha de livros pockets da Marvel Comics que a Panini tentou lançar sem sucesso nas bancas brasileiras.

Os livros nada mais são do que romances ambientados no Universo Marvel, com os personagens Marvel. Trocando em miúdos, fanfics oficiais.

A trama em si é bastante interessante: uma história típica urbana do aranha envolvendo diversos elementos da cidade, como as escolas públicas, bairros de periferia, teatro (com importante participação de Mary Jane), polícia, e, o principal, tráfego de drogas. Todos esses elementos acrescentam o interesse e a qualidade à trama.

Keith Decandido, autor do livro, é um conhecedor do universo do Amigão da Vizinhança, como fica bem claro em diversos momento da trama. Personagens como Betty Brant, Tia May e mesmo vilões do aranha tem seus passados sempre bem explicados em parágrafos concisos que atualizam o informam o leitor.

A sua narrativa é leve, fluída e é fácil ficar absorvido pela leitura. Devido a todos esses aspectos vale a pena dar uma conferida no livro, mas definitivamente ele não irá para o topo da lista de compras, no máximo para uma posição intermediária.

Mas a edição nacional não ajuda muito. A tradução está muito bem feita, mas não pode se dizer exatamente o mesmo do trabalho de adaptação. Muitas gírias ficaram um pouco regionais demais. Além disso, apesar de poucos erros ortográficos, há alguns erros de digitação e concordância que uma revisão mais apurada pegaria.

Já no quesito de produção editorial, o livro deixa bastante a desejar. Mesmo seguindo o projeto gráfico original, é possível encontrar vários problemas. Diversas órfãs [linhas solitárias no fim ou no começo das páginas, que matam o design de uma página] podem ser encontradas em quase todos os capítulos. As aberturas dos capítulos estão todas nas ímpares, como manda o figurino, contudo, nas páginas pares que ficam em branco do lado, foi esquecido de tirar o título recorrente do livro.

sábado, 12 de junho de 2010

Resenha: Bone, Fora de Boneville

Sinopse: Essa edição marca o começo da grande saga dos primos Bone, em busca de Boneville, sua cidade natal. E ao lê-la pode-se entender porque Jeff Smith tem em seus fãs Will Eisner e Neil Gaiman.

Análise: Bone trata-se de uma fábula em quadrinhos da melhor qualidade. Na busca dos primos Bone nesse mundo onírico recheado de animais falantes e monstros bizarros, somos apresentados a uma fantástica narrativa.

Os desenhos de Jeff Smith são caricatos, mas muito bem executados. Além disso ele tem um domínio muito bom de luzes e sombras, fazendo um excelente trabalho na obra que é em P&B.

A comicidade é um dos pontos forte de Fora de Boneville. Há na trama diversos momentos impagáveis, como quando começa a nevar no vale.

Esse volume, por ser o primeiro, introduz diversas perguntas que só serão respondidas no decorrer da saga. Além disso, vários elementos que povoarão a história por um longo tempo já dão as caras, como o dragão vermelho, as criaturas ratazanas, e, claro, a Vovó Ben e sua neta Espinho, cuja qual Fone Bone cai de amores e passara bons e maus bocados por causa disso.

A edição da Via Lettera está bem cuidada, com um preço um pouco salgado por apenas 76 páginas, contudo, o principal problema será o tempo que a série levará para ser editada por completa aqui no Brasil. Enquanto nos EUA, seu país de origem, ela foi concluída em 2003, na edição 55, aqui o volume 9 saiu em 2004, e não há previsões dos próximas.

Nerdshop:
Bone, Out of Boneville , de Jeff Smith

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Resenha Cine: 1958, o Ano em que o Mundo Descobriu o Brasil


Sinopse: Documentário sobre a campanha da Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo de 1958. Esse foi o primeiro título conquistado pelo Brasil.

Análise
1958, o Ano em que o Mundo Descobriu o Brasil narra a conquista de título mundial de futebol menos conhecida pela maioria das pessoas. Por se tratar do ano de 1958, as imagens dos jogos são escassas. É nesse ponto que a pesquisa feita para o filme mostra todo seu brilhantismo: com muitos recortes de jornais e revistas, além das imagens e das locuções da época, é como se estivesse revivendo toda a conquista.

Para compensar a falta de filmes da época, foram recriadas as jogadas com atores. São closes dos lances que são explorados pela edição na forma de inserts, em uma maneira inteligente de modernizar os filmes antigos, onde normalmente a câmera estava distante da ação.

Depoimentos são abundantes: de jogadores da época, jornalistas esportivos e outras personalidades. Para aqueles que já não estão mais entre nós, foram recuperadas gravações das vozes. Mesmo com tal riqueza, a falta de Pelé é sentida, principalmente por se tratar da Copa onde ele foi revelado para o mundo.

O documentário já começa relatando o jogo final. Quando o time brasileiro sofre o primeiro gol, o foco desvia-se para começar a falar de acontecimentos anteriores, inclusive do fatídico vice-campeonato de 1950 no Maracanã. Até passar por todos os jogos da Eliminatórias, além dos outros jogos disputados no campeonato de 1958, o público pode até esquecer do que foi deixado em aberto no começo do filme. Felizmente o final é bem empolgante – embalado por uma boa trilha – e o pequeno deslize narrativo não interfere em uma experiência positiva.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Resenha: Goleiros - Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1

Sinopse: O livro conta toda a história dessa que é a posição mais polêmica do futebol, desde a criação do esporte, o início do jogo de bola no Brasil — quando os aristocratas desfilavam sua elegância em campo e a torcida tentava subornar o goleiro adversário com propostas tentadoras das donzelas — até os dias de hoje, mostrando que a evolução do futebol, as mudanças na regra, nos uniformes, na bola, se deve, em grande parte, à evolução dos goleiros.

Análise: Goleiros - Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1 é um delicioso livro sobre futebol. Em uma narrativa simples, mas cativante, o autor Paulo Guilherme conta diversas histórias que permeiam a mitologia da "camisa 1".

O livro começa com personagens famosos que já jogaram no gol, como Che Guevara, o Papa João Paulo II e o escritor Albert Camus. Pelé também já foi pro gol, mas isso é contado mais pra frente, sendo contabilizado todos os jogos que ele terminou no gol, e cada um dos minutos jogados pelo maior atleta da história do futebol brasileiro debaixo das traves.

Goleiros lendários de todos os países desfilam suas histórias no livro, como Yashin, Gordon Banks, entre outros.

Mas o mais interessante são as histórias de arqueiros brasileiros, sendo que em Goleiros ficamos sabendo as histórias de todos os goleiros que em algum momento já defenderam a seleção brasileira, bem como histórias de outros guarda-metas que já marcavam gols antes mesmo de Chilavert ou Rogério Ceni.

No fim há ainda espaço para uma discussão sociológica sobre o goleiro ser um cargo de confiança e o velho preconceito brasileiro de "não confiar em goleiro negro", depois do gol sofrido por Barbosa na final de 50.

Por todos esses motivos, Goleiros - Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1 é uma excelente leitura.

Nerdshop:
  • Goleiros - Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1, de Paulo Guilherme (Alameda)
  • quarta-feira, 9 de junho de 2010

    Resenha: Febre de Bola

    Sinopse: Coletânea de crônicas autobiográficas sobre futebol.

    Análise: Febre de Bola é o primeiro livro do autor Nick Hornby, famoso por Alta Fidelidade. De caráter autobiográfico, o livro conta histórias de Hornby e seu envolvimento com o futebol, sobretudo com o seu time do coração, o Arsenal.

    Nessas narrativas sobre futebol há espaço para o autor falar sobre os temas que lhe são caros, como a passagem da juventude para um amadurecimento forçado, questionamentos sobre coisas do dia a dia, e muita autocomiseração.

    Hornby está preocupado consigo mesmo. Em relatar as suas muitas frustações e poucas alegrias com o futebol e com a vida. As partidas do Arsenal são reflexos do que acontece no seu cotidiano, tanto que o livro não é dividido em capítulos, mas em jogos. Só que esses relatos raramente falam com profundidade dos jogos em si, e sim do contexto pessoal em que estavam inseridos.

    Lógico que o mote do livro é o futebol. É aí que reside sua maior atratividade. Literariamente, Hornby ainda não estava em seu auge, e muito do que é expressado neste livro ganharia mais corpo em outros trabalhos. Mas quando fala do esporte bretão, o autor explora com exatidão os nuances dos jogos e as sensações dos torcedores.

    Fãs de qualquer time brasileiro se sentirão identificados com o que é narrado por ele. Sua paixão pela equipe do Arsenal é análoga a de todos os outros torcedores, sejam eles do São Paulo (como este resenhista), do Liverpool, do Corinthians ou do Flamengo.

    Cada uma das narrativas traz alguma aspecto importante do jogo de bola, como o fato de nem sempre o melhor time em campo sair com a vitória, e o melhor futebol não ser o mais espetaculoso – há até um caso de um treinador do Arsenal que declarou “Se quer espetáculo, vá ao circo”, o que seria emulado tempos depois pelo brasileiro Muricy Ramalho, substituindo “circo”, por “Teatro Municipal”.

    Por falar em brasileiro, há um relato interessantíssimo sobre Pelé e a apresentação brasileira na Copa de 1970. Segundo Hornby, nessa ocasião os brasileiros criaram um padrão tão alto que todas as equipes do mundo passaram a tentar alcançá-lo, coisa que nunca foi possível, nem mesmo para o Brasil.

    Outra discussão que permeia grande parte do livro é a violência dos estádios, que era uma constante entre os torcedores ingleses e que causou, por exemplo a tragédia da final da Copa dos Campeões entre Liverpool e Juventus em 1985. Essa é uma das histórias mais aguardadas do livro e ganha mais impacto ainda por sabermos que Hornby assistiu ao jogo ao lado de seus alunos italianos, depois tendo de se desculpar pela tragédia.

    O autor fala ainda sobre o preconceito que os fãs de futebol sofrem ante a “intelectuais”, ou ainda sobre a paixão clubística passada de pai para filho, entre muitos outros assuntos ligados direta ou indiretamente às quatro linhas.

    Isso faz com o que o interesse de Febre de Bola fique um tanto restrito aos torcedores de futebol e fãs do autor, apesar de ser um livro que poderia ser apreciado perfeitamente por qualquer leitor.

    O grande destaque negativo da edição fica por conta da tradução. Em muitos momentos acerta, mas peca em importantes termos do jargão futebolístico, como o nome da Eurocopa.

    Há uma curiosidade: em 1997 o livro foi transformado em filme com roteiro do próprio Hornby.

    Nerdshop:
    Febre de Bola, de Nick Hornby (Rocco)

    terça-feira, 8 de junho de 2010

    Quadrinhos distópicos

    Quadrinhos e ficção científica sempre andaram de mãos dadas. Por isso é natural que um dos principais gêneros da sci-fi se traduza em alguns dos melhores quadrinhos de todos os tempos, a distopia.

    Futuros distópicos são realidades onde a humanidade está decadente e o mundo deu errado. Matrix (que expandiu seus tentáculos para os quadrinhos) talvez seja um dos maiores ícones desse tipo de história, mas há outro exemplos como Laranja Mecânica e diversos livros de Philip K. Dick.

    Talvez a mais clássica HQ do estilo seja a lendária Dias de um futuro passado de Chris Claremont e John Byrne, estrelando os X-men. A trama conta como no futuro os mutantes são caçados até a morte por Sentinelas. Kitty Pride é a grande protagonista, tendo de viajar no tempo para evitar que a morte de um senador deflagre o futuro catastrófico.

    Ainda na Marvel, nos anos 90 a editora decidiu criar uma nova linha de personagens, adaptando-os para o futuro. Dessa maneira nasceu o famigerado Universo 2099. Aqui, os deuses de Asgard, sobretudo Thor, eram realmente adorados, e não havia mais fronteiras de estados, apenas grandes corporações inescrupulosas que dominavam tudo. As principais características do Universo Marvel tradicional foram potencializadas nessa versão futurista. Ou seja, os mutantes eram mais odiados, o povo tinha mais desconfiança em relação aos vigilantes mascarados e, para piorar, não existiam os Vingadores para amenizar a situação. Apesar de algumas idéias interessantes a linha Marvel 2099 foi extinta sem cair nas graças do público.

    A grande rival da “Casa das Idéias”, contudo, ofereceu verdadeiros clássicos das HQs ambientadas em futuros distópicos. A começar por Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, gibi da linha elseworlds (Túnel do Tempo aqui no Brasil), onde os personagens do universo DC tradicional são levados para outras realidades e atuam tramas com maior liberdade criativa.

    Em Cavaleiro das Trevas, Batman está com mais de 50 anos e aposentado. Seus inimigos também estão presos ou “penduraram as chuteiras”. Mas a realidade americana, repressora e autoritária, representada aqui na figura do Superman, oprime os cidadãos, levando jovens a se organizar em gangues contestadoras. O morcegão resolve voltar a ativa, assim como seus inimigos íntimos: Coringa e Duas-Caras.

    Em muitos aspectos Cavaleiro das Trevas foi uma HQ revolucionária, colocando o Superman como uma figura ambígua, quase como o vilão da história. Isso se a trama fosse maniqueísta a ponto de existirem heróis e vilões bem definidos. Miller inovou também ao colocar Robin como uma garota que se inspira nos passos da Batman. Outra grande novidade foi a narrativa, amarrada pelas reportagens que as redes de TV da HQ fazem conforme a trama vai rolando. Vale lembrar que Cavaleiro das Trevas influenciou diversos outros quadrinhos e até mesmo filmes como Robocop, praticamente um plágio da obra de Miller.

    Um outro clássico da distopia que saiu pelo selo DC é V de Vingança, do mestre Alan Moore. Inspirada em grande feita no livro de George Orwell 1984, em V de Vingança novamente a grande catástrofe é o autoritarismo de um governo repressivo e fascista. V é um militante anarquista, que sofreu diversas torturas e experimentos nas mãos das forças da repressão e batalha para que o governo despótico inglês seja derrubado por uma ação popular.

    Os europeus são fascinados pela ficção científica e, naturalmente, tem diversos expoentes nesse estilo também. Passando pelos fummeti de Nathan Never ou mesmo as BDs de Acquablue, esse talvez mais uma utopia, chega-se a espetacular obra de Moebius. O desenhista francês é sempre lembrado pelo seu maravilhoso traço e capacidade narrativa. Stan Lee e Neil Gaiman já pediram para roteirizar histórias com o traço desse gênio. Mas sua HQ mais notória foi feita em parceria com Alejandro Jodorowsky, chileno radicado na Europa.

    O nome da referida HQ é Incal. Num futuro longínquo, a galáxia é disputada pelo poder da Igreja e de Tecnocratas. A trama acompanha o medíocre detetive particular John Difool, que sem querer acaba ganhando um poderoso artefato milenar, o misterioso Incal. A descoberta o leva bem no meio de um conflito épico entre o Meta-Barão, o maior guerreiro da galáxia (e protagonista de outra popular série de Jodorowsky) e o fanático Tecno-Papa.

    Saindo da França para o Japão, chegamos até Akira, de Katsushiro Otomo. Aqui o dominante é a estética cyber-punk, com forte influência dos trabalhos de Philip K. Dick. A trama conta a história de um Japão tentando se reerguer após a Terceira Guerra Mundial. A narrativa é bastante complexa e envolve crianças com poderes psiquicos criadas pelo governo, gangues juvenis arruaceiras, drogas, golpes de estado e o fim do universo como conhecemos.

    Além disso, outros mangás, publicados no Brasil, abordam o tema das distopias, como Evangelion que envolve crianças que pilotam robôs gigantes num futuro pós-apocalíptico e lutam para defender o mundo contra monstros que na verdade são anjos(!). E Éden, onde um vírus devastou parte da população da Terra e traficantes e grandes corporações se degladiam para dominar o que restou.

    Outro mangá do gênero é Gunn: Hyper Future Vision, diretamente inspirado no filme Metropolis do expressionsta alemão Fritz Lang, que por sua vez teve uma livre adaptação em mangá feita pelo mestre Osamu Tezuka, ganhador de um filme animado dirigido por Katsushiro Otomo. Em Gunn, uma andróide sem memória perambula por um mundo onde uma cidade de escórias existe às margens de uma grande cidade flutuante. Contudo, o povo da cidade de baixo é quem realmente sustenta a de cima. Destaque para as maravilhosas cenas de violência.

    Nossa volta ao mundo termina onde começou: nos EUA. Só que dessa vez um pouco fora do mercado mainstream. A bola da vez é American Flagg!, série publicada pela extinta First Comics nos Estados Unidos.

    Na história, a Terra passou por diversas crises, como um combate nuclear, pragas, brigas por alimentos e um sistema bancário que entrou em colapso. Em 2031, os Estados Unidos estão em decadência, e as coisas estão piores do que nunca: guerra entre gangues, rivalidades políticas resolvidas com armas de fogo, depressão econômica, drogas, etc. Já o Brasil, é uma das potências mundiais.

    O governo norte-americano, junto com as principais corporações do país, se mudou para Marte décadas antes, e, de lá, eles não se importa com o que acontece aqui. Um semblante de força policial, os Plexus Rangers, é quem consegue manter a pouca lei que ainda existe no mundo. Reuben Flagg, outrora o astro da série de TV que dramatizava as aventuras fictícias de um Ranger, foi trocado por um holograma. Isso culminou com sua ida para a Terra e posterior alistamento nos verdadeiros Plexus Rangers.

    American Flagg! é um verdadeiro marco na produção de HQs futuristas. Tudo em sua produção é muito bem executado, desde o título (uma brincadeira mais que óbvia com flag, “bandeira” em inglês) que faz referência ao patriotismo norte-americano, até a execução da trama.

    O título foi um dos primeiros a se encaixar na denominação de quadrinhos adulto, tendo sido publicado originalmente em 1983. Recentemente a editora Dynamic Forces iniciou a republicação dessa obra magnífica.

    segunda-feira, 7 de junho de 2010

    Resenha HQ: O Cortiço

    Sinopse: Adaptação em quadrinhos do clássico naturalista de Aluísio de Azevedo O Cortiço.

    Análise: A editora Ática começou sua coleção “Clássicos Brasileiros em HQ” com a adaptação de O Alienista, de Machado de Assis, em seguida lançou O Guarani, que trouxe de volta aos quadrinhos, após hiato de mais de 20 anos, Luiz Gê. Mas o auge da coleção pode ser considerado a publicação desse O Cortiço, adaptação de Ivan Jaf e Rodrigo Rosa do clássico de Aluísio Azevedo.

    Jaf domina as adaptações de clássicos como poucos, extraindo o essencial do texto e aparando a linguagem, deixando-a acessível para jovens leitores. As oitenta páginas da HQ pegam os principais acontecimentos do livro original e os sintetizam de maneira correta e coerente.

    Porém, o principal atrativo é a narrativa visual de Rodrigo Rosa. Desenhista de mão cheia, seu traço detalhista não deixa nada de fora. O ponto alto é a briga entre Firmo e Jerônimo, com diversas cenas sem requadro, que dá uma nítida sensação de movimento. Além disso, ele faz belos painéis e ousa na diagramação, até onde é possível num livro desse calibre.

    O trabalho dos dois autores casa perfeitamente com o texto original de Azevedo, mas há de se dizer que todas as cenas de erotismo, bem explícitas no original, sofreram uma certa censura, ficando apenas sugeridas na história. Por exemplo, o caso lésbico de Pombinha e Léonie, ou as puladas de cerca da esposa de Miranda. Isso é completamente compreensível haja visto a recente perseguição que os quadrinhos vendidos para planos do governo sofreram da imprensa por causa de cenas eróticas ou com palavrões.

    A edição da Ática está excelente. Como os outros livros da coleção, há um bônus, com making of e matérias sobre o original, além de suplemente do atividades. A editora não escapou de cometer erros, mas soube corrigir com uma divertida errata o fato de alguns caracteres terem se perdido na página 77.

    O resultado é que O Cortiço é uma HQ excelente que pode ser apreciada tanto por quem já leu o livro original quanto por quem ainda não conhece a obra.

    Nerdshop:
    O Cortiço – Clássicos Brasileiros em HQ de Aluísio Azevedo, Rodrigo Rosa e Ivan Jaf (Ática)

    domingo, 6 de junho de 2010

    Resenha: 1945

    Sinopse: Elen e seu irmão Maximillian Schell são dois jovens idealistas na Alemanha nazista durante a 2ª Guerra Mundial. Ambos recusam a se curvar perante o regime, sendo que Maximillian chega mesmo a agir contra o governo alemão. Já Elen fica dividida entre ajudar o irmão ou seu namorado, o soldado nazista Alex.

    1945, trabalho da mangaká Keiko Ichiguchi é a primeira incursão da novata editora New Pop no mundos dos quadrinhos. Trata-se de um shojo que conta as sofridas vidas de três jovens alemães durante a 2ª Guerra. Os irmãos Maximillian e Elen agindo contra o regime e o jovem Alex, namorado de Elen, que é um soldado nazista, mas questiona muito de seus métodos.

    A HQ é uma história fechada, e esse é o principal ponto positivo dela, pois os leitores não precisam comprar intermináveis volumes do gibi para saber o fim da trama. Como todo mangá para o público femino, o enfoque é a história de amor, aqui com um pano de fundo inusitado, mas continua sendo uma história de amor.

    Os momentos dramáticos predominam, sendo que muitos momentos a autora descamba para o dramalhão. Alguns momentos chegam a ser poéticos, mas outros flertam com cômico. A história explora com pouca profundidade o aspecto da guerra em si. Isso não é um problema pois definitivamente não é a proposta. Para aqueles que se interessarem pelo tema, recomenda-se o trabalho de Garth Ennis na minissérie Fury – o Pacificador, publicada no Brasil nas edições 36 à 40 da revista Marvel Max.

    O traço de Keiko Ichiguchi não tem nada de espetacular. A diagramação que ela imprime nas páginas é burocrática e seus desenhos alternam poucos bons momentos com alguns de puro amadorismo. Interessante notar que desenhistas nacionais como Érica Awano ou Daniel HDR apresentam resultados melhores que a mangaká em questão.

    O cuidado editorial e gráfico do volume estão excelentes. Uma bela capa, com orelhas, papel off-set e, no final, uma matéria bem interessante de Valéria Fernandes da Silva sobre a situação alemã durante a guerra. Particularmente, senti falta de um editorial introduzindo a casa publicadora, sua proposta, o título e tudo mais, contudo isso tem sido cada vez mais incomum nos mangás publicados por aqui que imagino que a maioria dos fãs não se interessem por isso.

    No geral, 1945 reúne um bom trabalho da editora brasileira com um apenas mediano da autora japonesa, mas vale a pena ser conferido pelos fãs, sobretudo do mangá shojo.

    Resenha: .hack// A Lenda do Bracelete do Crepúsculo #1


    Sinopse: A primeira das sete edições da série .hack// A Lenda do Bracelete do Crepúsculo, publicada pela editora JBC.

    .hack é um ambicioso e bem- sucedido projeto japonês inter-mídias, encabeçado pela produtora Gainax (a mesma de Evangelion). Integrando games, mangás e animes, o objetivo era contar a história de um jogo de MMORPG (Massive Multiplayer Online RPG) intitulado “The World” (que nome mais criativo, um mundo chamado “o mundo”!), onde pessoas se conectam e jogam em realidade-virtual.

    Os animês da empreitada foram exibidos no Brasil há algum tempo no canal à cabo Animax. Um inclusive, Legend of Twilight, corresponde diretamente a .hack// A Lenda do Bracelete do Crepúsculo.

    A história em si aborda como dois irmãos gêmeos ganham em um sorteio o direito de utilizar avatares (personagens do jogo) de famosos jogadores lendários que realizaram um grande feito dentro do “The World”. Esses jogadores se aposentaram e ficaram sendo conhecido como .hackers.

    A inevitável comparação com outras histórias de .hack, infelizmente podemos assegurar que nem de longe esta é a melhor história do projeto. Aqui os personagens são um pouco rasos, as vezes até bobinhos mas, lógico, sem perder o charme das indagações existenciais e dramas pessoais que assolam 9 entre 10 personagens de mangás. Até mesmo no animê correspondente, a personalidade dos irmãos está melhor construída.

    No quesito da trama, pouco é apresentado ainda. Contudo, parece que com as próximas edições os protagonistas se verão envolvidos com algo intrigante em relação ao “bracelete do crepúsculo”, que dá nome à série.

    Mais pela curiosidade e pelas possibilidades de melhora, vale a pena ler .hack// A Lenda do Bracelete do Crepúsculo. Não é nenhuma maravilha da nona arte, mas é uma diversão ok.

    sábado, 5 de junho de 2010

    Resenha: Coraline

    Sinopse: Coraline, uma menina que encontra uma porta secreta em sua nova casa, e descobre um mundo paralelo. À primeira vista, este mundo se parece bastante com a sua vida real, com a diferença de que é muito melhor. Porém, aos poucos essa fantástica aventura começa a ficar perigosa e mórbida e seus novos pais tentam mantê-la presa para sempre na nova realidade. Coraline, então, contará apenas com sua determinação e coragem para voltar para casa e salvar a própria família.

    Coraline é uma exploradora. Assim que se mudou com os pais para um dos apartamentos de uma grande casa, logo quis descobrir tudo sobre ela: seus arredores, seus vizinhos, suas novidades.

    Porém, em uma tarde chuvosa em que foi proibida de passear no quintal, ela sai em uma exploração dentro de sua própria casa. Conta as janelas, as portas, os itens azuis e faz uma grande descoberta: existe uma porta, na sala de visitas, que sempre fica trancada.

    Os mistérios que envolvem essa porta, inclusive o seqüestro dos pais de Coraline, o aprisionamento num espelho de três crianças e a obsessão de uma outra mãe são desenvolvidas com as características típicas dos textos de Neil Gaiman.

    As ilustrações de Dave McKean (Sandman, Asilo Arkham) refletem o clima do texto, de um terror de altíssima qualidade.

    O livro é catalogado como infanto-juvenil, porém atrai leitores de todas as idades. Os fãs do autor não têm como se decepcionar.

    Nerdshop:

    Coraline, de Neil Gaiman e Dave McKean (Rocco)

    Coraline - Graphic Novel, de Neil Gaiman e P. Craig Russel (Bloomsbury)

    sexta-feira, 4 de junho de 2010

    Resenha: O Ladrão de Espadas - The 39 Clues Vol. 3

    Sinopse: Amy e Dan novamente se unem a Alistar Oh na busca pelas pistas, que dessa vez apontam para o Japão. Lá se encontrarão novamente com os Kabra e com a família Holt.

    Análise: Esse é o terceiro volume da saga The 39 Clues, que mostra a busca da família Cahill pelas 39 pistas. Aos poucos a série vai ganhando forma e a verdadeira natureza das pista, que antes era apenas sugerido, se revela. Na verdade cada uma delas são componentes de uma fórmula alquímica. Dessa maneira, a alquimia e a química ficam no centro da narrativa.

    O autor deste O Ladrão de Espadas é Peter Lerangis - para quem não sabe, cada volume da saga é escrito por um autor diferente, todos sob a coordenação de Rick Riordan. Como é de praxe, Lerangis torce a história para um tipo de narrativa que lhe parece familiar, introduzindo mais emotividade no enredo, montando até um possível interesse romântico para Amy, coisa que não foi nem sugerida nos volumes anteriores.

    A saga, em si, continua emocionante e a cada novo lugar que os irmãos Cahill passam há uma aventura os esperando. Aqui no caso é o extremo oriente, então entre as cidades japonesas e montanhas coreanas, diversos ninjas, espadas e explosões os esperam a cada esquina. O enredo pode ser comparado a uma montanha-russa com quedas e curvas vertiginosas, alternados com algumas pequenas subidas. Ideal para prender a atenção de jovens leitores, o público alvo.

    Para os fãs, a boa notícia é que o próximo volume é assinado por Jude Watson, considerada pelos fãs de outros lugares do mundo a melhor autora que passou pela saga.

    Nerdshop:
    O Ladrão de Espadas, de Peter Lerangis (Ática)