segunda-feira, 31 de maio de 2010

Resenha: Matrix Comics

Sinopse: Compilação de diversas HQs que se passam no universo dos filmes Matrix.

Análise: Celebrando 10 anos do lançamento do primeiro filme da série Matrix, a Panini lançou esse álbum Matrix Comics Volume 1. A edição compila diversas HQs do universo da série, no melhor estilo dos curtas Animatrix, e bem longe da coisa terrível que vimos em Matrix Reloaded e Matrix Revolutions.

A primeira HQ do álbum é “Fragmentos de informação”, que tem o roteiro assinado pelos criadores do universo Matrix, os irmãos Larry e Andy Wachowski, e arte de Geof Darrow. Na narrativa, um robô é acusado pelo assassinato de seu mestre.

Bill Sienkiewicz assina roteiro e arte de “Preocupando-se com as pequenas coisas”, que conta a história de Dez, que desconfia da realidade que o cerca, e Mia, que trafica armas para viver.

Uma hacker que optou por tomar a pílula azul e se arrepende dessa escolha é o tema de “Uma vida menos vazia” de Ted McKeever.

A história seguinte é “Golias”, um conto de Neil Gaiman ilustrado por Bill Sienkiewicz e Gregory Ruth (ilustrações). Curiosamente esse conto já tinha sido lançado no Brasil na coletânea Coisas Frágeis, da Conrad.

John Van Fleet assina “Esperança ardente”, sobre humanos resistentes à Matrix que tentam resgatar uma criança.

Dave Gibbons flerta com o zen presente na série na sua história “Borboleta”, sobre um homem que limpa seu santuário.

Em “Uma espada de cor diferente”, com roteiro e arte de Troy Nixey, personagem Nac conta como obteve ajuda de um louco à Don Quixote, para sobreviver a um ataque das sentinelas.

“Sacou?”, de Peter Badge é a história mais divertido do álbum. Nela, três amigos, que foram ver Matrix, discutem o filme para tentar entendê-lo.

David Lapham conta a bonita “Não existem flores no mundo real”, narrando em preto e branco a história de Rocket, que ficou preso na Matrix e acaba reencontrando sua ex-namorada.

Outra trama marcante é “A história do moleiro”, de Paul Chadwick. Nela, é contada a história de Geoffrey, que conseguiu fazer pão em Sion.

“Liberdade artística” conta com roteiro de Ryder Windham e arte de Kilian Plunkett. A história é sobre uma artista plástica que cria estátuas de sentinelas robôs vistos em sonhos. Na exposição de seu trabalho, um menino escolhido vai visitá-la.

Gregory Ruth encerra o álbum com “Caçadores (e) Coletores”, que enfoca Flint, uma lenda entre os humanos resistentes à Matrix.

O álbum é bem interessante e deve agradar quem viu os filmes. Entretanto fica claro que não há tantas histórias a serem contadas dentro de Matrix. Tudo fica com uma cara meio parecida. Talvez o universo funcione melhor com games e RPGs, ou seja, de maneira mais interativa, como é sua natureza.

Nerdshop:
Matrix Comics Volume 1 (Panini Books)

Resenha: Os Contos de Beedle, o Bardo

Nota: Esta resenha foi feita a partir da leitura da edição inglesa do livro.

Sinopse: Cinco contos do famoso Beedle. O livro foi traduzido das runas por Hermione Granger e contém anotações de Alvo Dumbledore.

Análise: No último livro da série Harry Potter, um manuscrito em runas, com anotações de Dumbledore, chega às mãos de Hermione. São contos tradicionais no mundo dos bruxos. A jovem, então, os traduz e compila.

Claro que tudo isso é ficcional, mas a autora J. K. Rowling fez a maior onda em cima deste Os Contos de Beedle, o Bardo. Foi feito um leilão pelo manuscrito, do qual a Amazon saiu na frente. Depois, a autora anunciou que sua instituição infantil Children’s High Level Group publicaria a obra, em um acordo com as editoras Bloomsbury, Scholastic e com a Amazon.

Por fim, o livro foi publicado. Eu, muito ansiosa, vi o valor do título (em pré-venda num site de compras) e já encomendei a minha edição capa dura da Bloomsbury... Se eu tivesse tido um pouco mais de paciência, poderia ter adquirido o título brasileiro: o lançamento da edição nacional ocorreu em torno de uma semana depois do inglês.

Lamentos à parte, fui afoita ler o conteúdo. O livro, fisicamente, é uma graça, apesar de cada edição ter suas diferenças. A capa da Scholastic é muito estranha, nada delicada. Já a nacional é exatamente a inglesa, com exceção do material de capa – a britânica tem capa dura; a capa brasileira é de material firme, mais espesso que brochura.

Os contos, em si, não cumprem o papel que deveriam: dar um gostinho a mais de Harry Potter aos fãs. São contos “de fadas” bruxos, ou seja, são pequenas histórias com lição de moral ao fim. Após cada conto, há um texto assinado por Dumbledore, que trata sobre o conto em questão. Ora ele explica o contexto em que o conto foi escrito, ora explica a lição de moral.

A grande decepção fica por conta da organização editorial. Lendo a sinopse desta resenha, o leitor pode pensar num livro que tenha publicado contos, com anotações à mão do Dumbledore. Algo mais dinâmico, mais interessante visualmente. O que os leitores receberam, no fim, foi um livro quadrado, que peca pela convencionalidade editorial.

Há ainda outro aspecto que pode também desanimar o leitor: há notas de rodapé assinadas por Dumbledore e algumas por Rowling. Isso quebra todo o clima do livro. Se a tradução das runas foi feita por Hermione, por que não é ela a responsável pelas notas de rodapé?

Aparentemente a Rowling não vai mais retornar à Hogwarts. Pelo menos é o que o desânimo causado por este livro indica.

Update: A edição brasileira foi lançada em dezembro de 2008, simultaneamente com outras regiões como Estados Unidos e Reino Unido.

Nerdshop:

Contos de Beedle, o Bardo, de J.K. Rowling

domingo, 30 de maio de 2010

Resenha: Blacksad

Sinopse: John Blacksad é um gato detetive particular num mundo de animais antropomorfizados. Nesse número de estréia ele se vê as voltas com a investigação da morte de uma atriz com quem já foi ligado no passado. História fechada.

Blacksad é o que há de mais fino nos quadrinhos. A começar pela soberba arte de Juanjo Guarnido, que desenha, arte-finaliza e pinta cada uma das páginas. Ao ver o resultado, não é de se estranhar que na Europa os autores lancem em média um álbum por ano. Cada um dos quadros é completamnte rico de detalhes. Além disso as cores ajudam o leitor a mergulhar no melhor estilo noir da obra.

O Noir [noite, em francês], para quem não sabe, é um estilo de histórias policiais muito comum durante os anos de 1920 e 1930, persistindo com muito força até o fim dos anos de 1950 e vem sendo lembrado por diversos meios desde então. As histórias geralmente mostram um detetive particular durão que narra quase tudo que acontece em off. O protagonista está mergulhado numa cidade grande cheia de corrupção e crimes e acaba se envolvendo com alguém, quase sempre uma mulher bonita, que precisa de sua ajuda para se livrar de gangsters e criminosos. O ambiente é dark e opressor, e o detetive, nunca tirando seu sobretudo e seu chapéu, não pode confiar em ninguém enquanto tenta seguir o seu próprio código de conduta. O estilo ficou eternizado pelos trabalhos dos escritores americanos Raymond Chandler e Dashiell Hammet.

Pegue toda essa definição de noir e coloque na figura dos personagens animais antropomorfizados e você terá Blacksad. A trama chega a ser um pouco clichê, ela não se destacaria muito num pulp da primeira metade do século XX. Contudo é contada extremamente bem, e a arte, como já foi dito, ajuda o leitor a entrar de cabeça nesse mundo corrupto.

As cenas de ação são de tirar o fôlego e os personagens são bastante interessante. Cada espécie de animal representa uma classe de personagens típicos das histórias policiais. Lá estão os ratos, os lagartos, os cachorros (como policiais, lógico), os macacos, os porcos e o gato, mais esperto e observador que os demais.

A edição da Panini está excelente. A começar pela imagem da capa que, mesmo mostrando pouco, comunica bem o que o leitor pode esperar da história. A adaptação do texto está fluida e muito bem feita. Aqui vale uns parabéns ao ótimo trabalho do editor da série Levi Trindade. Pena que apenas os dois primeiros números da série foram lançados no Brasil e hoje se encontram fora de catálogo.

A todos os leitores de quadrinhos, Blacksad é uma boa opção de leitura.

Resenha: Batman, O Messias

Sinopse: Batman acorda acorrentado e escorraçado nos esgotos de Gotham City. Ele foi subjugado pelo Diácono Blackfire, líder de uma seita que alista mendigos e desesperados da cidade para assassinar criminosos. Por trás de tudo isso, articula-se um plano para ganhar a confiança da população e tomar a cidade.

Batman, O Messias é um grande clássico do Homem-Morcego. HQ foi escrita nos anos 80 por ninguém menos que Jim Starlin, o homem que matou Robin, Capitão Marvel e criou o Thanos.

O gibi conta a história de Diácono Blackfire, um líder religioso que pretende mergulhar Gotham nas trevas e para isso, seqüestra e tenta converter Batman. Aí que se desenrola grande parte da trama: Batman lutando contra lavagem cerebral e fanatismo religioso.

Em O Messias, Starlin lida com assuntos delicados como os pastores religiosos fanáticos que seduzem fiéis e os jogam contra forças da sociedade. Além disso, os quadrinhos tem um enfoque humano muito forte na figura do Batman, como homem, lutando contra seus medos.

Os diálogos são fortes, a trama é bem composta, relegando a ação a segundo plano. Os desenhos de Bernie Wrightson incrementam ainda mais a narrativa, sobretudo a sua diagramação dos quadrinhos, passando exatamente a sensação claustrofóbica de se estar o tempo todo no esgoto. Outro ponto excepcional da obra são as cores Bill Wray, feitas há mais de vinte anos e, portanto, sem auxílio do photoshop.

A edição da Panini está ótima, com papel de boa qualidade e capa cartonada. O mais importante é que o erro cometido pela Abril ao inverter as páginas na edição anterior da HQ não foi repetido pela nova editora.

Apesar de Batman, O Messias ter tanta qualidade, ele padece de um mal de seu tempo: é impossível não compará-lo ao Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Muitos elementos introduzidos por Miller estão lá, como a figura da televisão que narra grande parte dos acontecimentos. Mas apesar da forte influência, que marca profundamente a obra, Batman, O Messias consegue se desvencilhar e ser um marco na vida do Homem-Morcego.

sábado, 29 de maio de 2010

Resenha: Batman & Spirit

Sinopse: A maior criação de Will Eisner, o Spirit, se encontra com o Batman.

crossovers legais, bem-escritos, que apresentam histórias divertidas de encontro de super-heróis de universos diferentes, como LJA & Vingadores ou Batman e Planetary. E há outros crossovers que simplesmente não são bem-feitos. Aqui temos mais exemplos, como os famigerados Marvel x DC, ou qualquer um dos encontros clássicos de heróis, como Homem-Aranha e Superman, que, apesar de divertidos, não acrescentavam muita coisa de interessante. Batman & Spirit se encaixa nessa segunda categoria.

Ao ler a HQ de Jeph Loeb e Darwyn Cooke, fica claro que eles pretendiam fazer duas homenagens: ao trabalho de Will Eisner em Spirit e a exatamente esses encontros clássicos de super-heróis.

A primeira homenagem se dá sobretudo nos desenhos de Cooke, que tentam imitar o estilo de Eisner. Além disso, há outras referências como os requadros e a narrativa, que também remetem ao trabalho do criador de Spirit. A homenagem mais interessante é na abertura da HQ. Eisner tornou famoso sua abertura das HQs de Spirit por nunca ter repetido um abre. O letreiro escrito “Spirit” sempre era retratado de alguma maneira diferente: ou o personagem corria sobre ele, ou estava encostado, ou caindo. Nessa edição, a referência é muito bem-feita, com Spirit em queda livre junto com o letreiro.

Mas essa imitação do estilo de Eisner acaba tendo um efeito contrário. Em vez de remeter nostalgicamente ao trabalho do autor, acaba soando mais como uma caricatura mal-acabada.

A segunda grande referência aos crossovers clássicos na verdade é o principal ponto negativo do gibi. O roteiro de Loeb é pobre e sem graça. Fica claro que a idéia dele era fazer uma HQ divertida, mas fez um trabalho desinteressante, que não empolga a leitura. Will Eisner e o Spirit mereciam mais.

O principal ponto positivo da edição é o “dossiê” do Spirit no final. Um texto que situa o leitor na mitologia do personagem. Infelizmente, o texto não é assinado e não sabemos se é uma tradução do original ou um trabalho feito pela editora brasileira.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Resenha: A Guerra dos Bastardos

Sinopse: Uma guerra no submundo brasileiro está na iminência de começar. Envolvidos nela estão bolsas de dinheiro, lutadoras de vale tudo, músicos decadentes, entre outros.

A Guerra dos Bastardos de Ana Paula Maia é um livro acima de qualquer expectativa. Pronta para virar filme, a obra narra uma iminente “guerra” que pode acontecer num pequenino submundo do crime carioca. Envolvidos nessa tragédia estão: uma bolsa de dinheiro, capangas, mafiosos, bancas de apostas, capangas, produtores e cinegrafistas de cinema, atores e atrizes pornôs e, principalmente, Gina Trevisan, uma boxeadora, que não é a protagonista, mas é o estopim para toda a ação do livro.

A trama é narrada por Dimitri, funcionário de uma locadora que está envolvido com todos os personagens da trama, direta ou indiretamente. Apesar de ter um narrador, o livro é quase todo narrado em terceira pessoa, pois a figura de Dimitri em pessoa surge em poucos momentos da história. Na verdade, não há nenhum personagem que seja o centro das atenções. A autora Ana Paula Maia montou uma narrativa onde várias tramas paralelas se entrecruzam e interagem para contar a história principal.

Todos os personagens são ambíguos e agem de acordo com as suas ambições. Não há heróis ou vilões, há apenas dinheiro e tirar vantagem para sobreviver. Nem mesmo Gina, a tal boxeadora e o mais perto que pode se chegar de uma heroína na história, é nobre. Ela não hesita em trapacear e enganar para se dar bem no final.

O estilo que Ana Paula Maia usa para narrar sua história é colocando os verbos no tempo presente (ao invés do mais comum, no pretérito). Isso é um pouco diferente do usual e atravanca um pouco a leitura, mas combina totalmente com o estilo do livro, pois a narração fica seca e direta.

Há alguns probleminhas, como situações um pouco clichês e coincidências que facilitam o andamento da trama. O final é um pouco fraco também, mas tudo isso é compensado com momento geniais do livro, como a luta de Gina contra o boxeador homem Hugo.

Destaque para a novata editora Língua Geral, que chama atenção pelos belos projetos editoriais, tanto no texto quanto na arte. Sua coleção Ponta-de-Lança na qual A Guerra dos Bastardos está incluído, pretende apresentar autores pouco conhecidos de língua portuguesa ao público em geral. Uma ótima iniciativa.

Outro ponto positivo é a excelente capa com o serrote e o punho fechado com um soco inglês, que chama bastante atenção e aguça a curiosidade dos leitores (sobretudo os nerds fãs de pancadaria como nós), de autoria de Rico Lins, que também assina o excelente projeto gráfico.

Leia o primeiro capitulo no site da editora clicando aqui.

Nerdshop:
A Guerra dos Bastardos, de Ana Paula Maia (Língua Geral)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Resenha: Uma Nota Errada - The 39 Clues Vol. 2

Sinopse: Com muita dificuldade, Amy e Dan encontraram a primeira das 39 pistas. Agora eles seguem os passos do músico Wolfgang Amadeus Mozart e vão a Viena. Mas quem lhes conduz nessa descoberta é Maria Anna (ou Nannerl), irmã de Mozart, por meio de seu diário.

Sem demora chega ao Brasil o segundo volume da série de sucesso 39 Clues, idealizado para ser o sucessor de Harry Potter pela editora Scholastic. No seu país de origem o sucesso é grande e agora o público brasileiro a está descobrindo.

No primeiro volume fomos apresentados à família Cahill, formada por personagens famosos da história da humanidade, e à busca pelas 39 pistas que levam ao grande tesouro do clã. O órfãos Amy e Dan Cahill se envolvem na busca ao redor do mundo, sempre acompanhados por sua “au pair” Nellie.

Além do componente de ação, aventura, suspense e investigação, a série tem uma preocupação escolar, apresentando personagens históricos a cada volume. No primeiro, o foco foi em Benjamin Franklin e suas peripécias políticas e científicas. Nesse Uma Nota Errada, o personagem é Mozart, membro do clã Cahill dos artistas, os Janus.

O livro, que é assinado por Gordon Korman, segue o ritmo do primeiro, mas com outra técnica narrativa, um pouco mais ortodoxa, sem idas e vindas no tempo e sem as introduções temáticas que Rick Riordan fazia a cada capítulo.

Há lugar para muita mais ação e aventura, com pequenas informações e curiosidades sobre Mozart, Maria Antonieta e outros personagens históricos, mas sem um didatismo que deixaria o livro chato para os jovens adolescentes, seu principal público-alvo.

Por dosar bem diversão e informação, The 39 Clues surge como uma ótima série para ser utilizada como paradidática, com uma grande possibilidade de estimular os alunos o gosto pela leitura.

Nerdshop: Uma Nota Errada, de Godon Korman (Ática)

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Resenha: Fundação

Sinopse: Um Império Galático está prestes a ruir, o que será seguido por 13 mil anos de barbárie. Apenas os esforços da Fundação podem impedir isso.

Fundação é um dos maiores clássicos da ficção científica. Isaac Asimov, seu autor, é também grande nome do gênero, responsável por outros títulos importantes como O Fim da Eternidade e Eu, Robô.

Asimov se destaca pela humanidade de seus personagens e por histórias elaboradas e complexas, envolvendo diversas teorias científicas e sociológicas. Por exemplo, o materialismo histórico é o que mais influência a trama de Fundação, apesar de Asimov sempre ter dito que o que direcionava sua narrativa era a Teoria Cinética dos Gases.

Na realidade, a saga é uma trilogia, composta por Fundação, Fundação e Império e Segunda Fundação. Juntos, esses três livros cobrem, mil anos de história da queda e da ascensão do Império Galático.

Neste primeiro volume Hari Seldon, personagem especialista em psico-história e que permeará os mil anos de história da Fundação, prevê o fim do Império Galático e 13 mil anos de barbárie. A única maneira de evitar isso é criando uma Fundação que preserve o conhecimento do Império.

A partir daí, cada tomo da história aborda personagens diferentes, em diversas épocas, trabalhando e lutando pela Fundação.

Ao ler, a ideia que imediatamente vem a cabeça é que a história é uma analogia do Império Romano e da subsequente Idade Média, mas as metáforas de Asimov cabem para qualquer Império, desde Alexandre da Macedônia até o atual norte-americano.

E não é a complexa trama e o principal charme do livro, mas sim os personagens que fazem a história acontecer. Após longos intervalos de tempo, surgem novos líderes que mudam o rumo da história por alguma decisão que tomam. Dessa maneia, Asimov mostra que apesar de o rumo das coisas ser inexorável, ele ainda é decidido por pessoas.

E com essas história cativantes, a leitura é fluida e envolvente. Ajuda nisso o fato de a edição brasileira da Aleph estar impecável, com textos de apresentação situando o leitor no universo de Asimov, uma ótima tradução de Fábio Fernandes além de um trabalho gráfico muito bom. Tudo que o um clássico do calibre de Fundação merecia

Nerdshop:
Trilogia Fundação de Isaac Asimov (Aleph)
Fundação vol. 1 de Issac Asimov (Aleph)

terça-feira, 25 de maio de 2010

Orgulho Nerd: Dia da Toalha e aniversário de Star Wars

No dia 25 de maio de 1977 estreava em Los Angeles o clássico Star Wars (naquela época chamado no Brasil de Guerra nas Estrelas). O filme que revolucionou a história do cinema fez tanto sucesso que a cidade californiana declarou essa data, 25 de maio, como o Star Wars Day. Os fãs, entretanto, discordam, preferem comemorar o dia de Star Wars um pouco antes, em 4 de maio.

Mas o dia 25 de maio cresceu em importância no imaginário nerd muito tempo depois, em 2001, após a morte de Douglas Adams, o autor da série de O Guia do Mochileiro das Galáxias. Adams faleceu em 11 de maio de 2001, e no dia 25 muitos fãs se encontraram, todos de toalhas em punho, para uma homenagem ao autor da comédia científica.

A partir de então, o dia 25 de maio passou a ser lembrado como o "Dia da Toalha", em homenagem a Adams e ao objeto que ele dizia ser imprescindível para um mochileiro das galáxias.

Ao reunir as duas efemérides, o dia 25 de maio se tornou o dia do Orgulho Nerd. Portando, nerds, hoje é o nosso dia!

Resenha: A Rainha do Castelo de Ar

Sinopse: Lisbeth Salander quase morreu, e agora está num hospital se recuperando enquanto aguarda pelo julgamento em que é acusada de tentativa de homicídio. Mas Mikael não vai ficar parado, conduzindo uma investigação paralela para provar que sua amiga é na realidade a vítima de uma grande conspiração.

O drama de Lisbeth, que começou no livro A Menina que Brincava com Fogo, tem seu desfecho em A Rainha do Castelo de Ar (Luftslottett som sprängdes). O autor Stieg Larsson constrói uma conspiração gigantesca, envolvendo várias camadas do poder sueco, em que Lisbeth atua como vítima – seu único “problema” foi não ter sido uma vítima passiva.

Inicialmente, pode parecer que a personagem Lisbeth fica parada, à espera de sua sina. Afinal, ela está se recuperando de uma cirurgia que extraiu uma bala de sua cabeça. Mas a garota é dura na queda e vai fazer de tudo para cumprir seu objetivo: acabar com aqueles que destruíram sua vida.

Enquanto isso, Mikael conduz uma investigação paralela. O drama e a conspiração por trás da história de Lisbeth só crescem, e cada vez mais Mikael precisa de mais e mais ajuda. Felizmente, há quem esteja ao seu lado para colaborar.

Em A Rainha do Castelo de Ar, Larsson não perde o ritmo e conduz a narrativa brilhantemente. O autor não procura inovar na linguagem e nem sempre apresenta desfechos surpreendentes, mas vez ou outra nos mostra que a qualidade de sua obra não se prende à surpresa do responsável pelo crime. Larsson quer especialmente mostrar a complexidade do crime que apresentou, e fazer uma grande defesa às mulheres (seu tema nesta série).

Não é à toa, portanto, que os personagens que mais se destacam sejam mulheres (exceto Mikael Blomkvist, claro). Temos a heroína Lisbeth Salander que, para quem ler a trilogia, certamente entrará no rol dos personagens favoritos. Temos Erika Berger, a bem-sucedida jornalista e editora. Rosa Figuerola, a policial forte em busca da justiça. Anika Giannini, a advogada especializada em defender mulheres. É impossível não se identificar com algumas de suas qualidades ou se admirar com alguns traços de suas personalidades, especialmente para as leitoras.

O destaque da história é o julgamento. Anika conduz a defesa de Lisbeth brilhantemente, e é com alívio que vemos uma ode à força da verdade, que tudo resolve. De modo geral, a trilogia Millennium nos dá um sopro de esperança. É claro que o autor fala da realidade sueca (um país com 0% de analfabetismo, por exemplo), mas ele também nos lembra da função dos poderes, da função da polícia na sociedade, da importância do jornalismo investigativo sério. É o primeiro passo para mudanças, certamente.

Em 2004, Stieg Larsson morreu de um ataque cardíaco. Com isso, a então série Millennium teve de ser restrita a uma trilogia, publicada toda postumamente. Larsson não pôde ver o sucesso instantâneo de sua série: Millennium foi publicado em diversos países, e ganhou adaptação para o cinema sueco (ótima, por sinal).

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Resenha: O Livro das Mentiras

Sinopse: Um dos maiores mistérios da Bíblia é a arma que Caim matou Abel. Um dos principais mistérios que envolvem a criação do Superman é o assassinato não resolvido de Mitchel Siegel, pai do roteirista de Jerry Siegel. O que poucos sabem é que tavez as duas mortes podem estar ligadas pela arma do crime.

Antes de fazer sucesso como roteirista de quadrinhos e de seriados, Brad Meltzer se tornou conhecido pelos seus romances, que sempre figuram no topo das listas do New York Times. O mais recente trabalho dele lançado no Brasil é O Livro das Mentiras, que mistura temas bíblicos, nerds e investigação policial em um thriller repleto de ação e suspense.

O enredo mistura a história não resolvida do assassinato do pai de Jerry Siegel (co-criador do Superman) com o famoso fratícidio bíblico de Abel morto por Caim. No meio disso tudo, uma sociedade secreta nazista, espiões russos, espiões americanos, sem-teto, bibliotecários e um protagonista com problemas com seu pai, os "dad issues".

Na narrativa, Meltzer alterna coisas reais, como as duas primeiras tentativas de Siegel de fazer uma HQ com um Superman, com coisas inventadas, tentando conferir mais veracidade. No final do livro, o próprio autor esclarece em um posfácio o que é real e o que ele imaginou na história.

Entretanto, esse subterfúgio é o mesmo utilizado por Dan Brown em seus livros, principalmente em seu maior sucesso: O Código Da Vinci. Por sinal, essa não é a única similaridade entre O Livro das Mentiras o livro de Dan Brown. Toda a construção da história, inclusive com um vilão que acompanha os passos dos heróis, além de elementos como quebra-cabeças em coisas em museus e ecos bíblicos aproximam os dois livros, tornando O Livro das Mentiras uma espécie de O Código Da Vinci nerd.

Portanto, o livro, que é baseado em mistérios e suspenses revelados aos poucos, pode ser um pouco enfadonho e previsível para quem já está acostumado com esse tipo de narrativa. Ou não, haja visto que Brown repete sua fórmula há tempos e permanece na lista dos mais vendidos.

Uma curiosidade é que Meltzer controla os momentos de tensão da narrativa com capítulos curtos, raramente passando de três páginas. É nesse ponto que a sua proximidade com os quadrinhos mais se mostra. Nas HQs, o roteirista precisa pensar sua história dividida sempre em conjuntos de duas páginas e inserir algo que faça com o leitor tenha vontade de virar a próxima página. Nos livros, essa necessidade é menor, o autor não precisa levar em consideração a diagramação das páginas, controlando a narrativa pelo tamanho de seus capítulos.

Brad Meltzer faz capítulos curtos e, invariavelmente, coloca algo que desperta o interesse do leitor no próximo. Nesse sentido, é um autor extremamente competente.

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O Livro das Mentiras, de Brad Meltzer (Planeta)

domingo, 23 de maio de 2010

Resenha: Pride and Prejudice and Zombies

Faltou zumbi...

Sinopse: As irmãs Bennet são guerreiras, mas nenhuma delas está casada. Quando o jovem e rico Mr. Bingley muda-se para Netherfield, surge a oportunidade de Jane, a Bennet primogênita, se casar. Junto com ele vem o orgulhoso e mais rico ainda Mr. Darcy, que conquista a atenção de Elizabeth, a segunda mais velha.

Jane Austen é uma autora ícone da língua inglesa, no Brasil, no entanto, ela é pouco conhecida. Mas tanto aqui como nos países de língua inglesa ela conquista profundamente seus leitores, e sua obra – a mais famosa delas é o romance Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice no original) – ecoa numa infinidade de séries e filmes para cinema e para a TV.

A mais nova adaptação de Orgulho e Preconceito é Pride and Prejudice and Zombies. O autor Seth Grahame-Smith debruçou-se na obra original de Austen para criar esta paródia, inserindo toda a história num contexto peculiar: a Inglaterra do início do século XIX estaria sob a praga zumbi. O trabalho dele foi alterar alguns detalhes e inserir alguns poucos trechos, de forma que os zumbis fossem pano de fundo para a clássica história de amor que se desenrola.

A obra rapidamente tornou-se bestseller nos Estados Unidos, e uma nova onda editorial foi iniciada, em que obras clássicas são retrabalhadas para criar uma nova (e esquisita) leitura. O próximo da lista é outro de Austen, Sense and Sensibility and Sea Monsters(Razão e Sensilbilidade e Monstros Marinhos).

No entanto, a leitura de Pride and Prejudice and Zombies não surpreende em nada os que já leram a obra original. As inserções sobre zumbis são poucas e há muito (até demais) do texto original. Muitas cenas deveriam ser mais sangrentas ou mais engraçadas, mas sempre deixam a desejar.

Ainda, a editora optou por incluir algumas ilustrações ao longo da obra. Uma pena... Ficaram com um acabamento arcaico, e feias. Dentre os outros aspectos técnicos da edição, não há nenhum ponto que mereça ser destacado positivo ou negativamente. A exceção fica para a capa, que chama a atenção e revela muito o espírito da ideia.

Para os que nunca leram qualquer obra de Austen, não vejo por que Pride and Prejudice and Zombies agradaria. Na quarta-capa está escrito que a obra “transforms a masterpiece of world literature into something you’d actually want to read”. A história envolvendo os zumbis tem um papel tão secundário que não altera em nada o destino dos personagens centrais: eles se comportam da mesma forma como no original e todas as resoluções são as mesmas.

Para os leitores brasileiros, vale lembrar que a Editora Intrínseca já prometeu a versão nacional para 2010, ano que marcará também a adaptação para os quadrinhos e para o cinema.

A curiosidade que Zombies suscita é grande. Talvez seja por isso que a decepção na leitura é proporcional.

Resenha: A Menina que Brincava com Fogo

Lisbeth Salander: guarde este nome

Sinopse: Lisbeth Salander está sendo acusada de triplo assassinato, e a imprensa acredita nisso. A exceção é Mikael Blomkvist, da revista Millennium, que fará de tudo para provar a inocência daquela que, dois anos antes, salvara sua vida.

Quem já viu os livros da série Millennium deve ter de assustado. O primeiro, Os Homens que Não Amavam as Mulheres, tem 522 páginas. Este segundo volume, A Menina que Brincava com Fogo (Flickan som lekte med elden), tem 608. O terceiro é ainda um pouco maior. Mas eu já digo aqui: supere esse medo, porque esta série é uma das mais empolgantes que você poderá ler em sua vida.

Este segundo livro começa com as férias de Lisbeth Salander, em sua tentativa de superar os sentimentos que nutre pelo mulherengo Mikael Blomkvist. Os dois mal se falam, apesar das tentativas de Mikael, que então se dedica ao trabalho na revistaMillennium – um sucesso graças à ajuda de Salander. Mas como os personagens foram muito bem construídos no primeiro livro da série, e, por dispensar apresentações, a história que se segue ganha a profundidade pretendida pelo autor.

Na revista, Mikael está às voltas com uma edição especial sobre tráfico de mulheres na Suécia, que conta com a participação do também jornalista Dag Svensson e da criminalista Mia Bergman. Então seus dois amigos e colaboradores são assassinados e também o tutor de Lisbeth. Espalham-se notícias sobre a culpa de Lisbeth, que passa a ser procurada pela polícia, mas Mikael acredita que, de alguma forma, os assassinatos estão ligados às pesquisas de Dag e Mia.

Stieg Larsson prova mais uma vez que seu lugar no mundo era mesmo como autor. Sua narrativa é ágil e detalhada, mas sempre selecionando bem os pontos em que se aprofundará, o que poupa o leitor de descrições enfadonhas.

Outro ponto em que Larsson se destaca é no desenrolar de seu mistério e na consequente resolução. É com o personagem Mikael que descobrimos os detalhes da investigação; quando se revela o segredo, o leitor não se sente enganado, já que todas as informações descobertas pelo jornalista lhe foram reveladas. Como se não bastasse, as inversões de foco narrativo (o personagem cujo ponto de vista é narrado) tornam a leitura ainda mais dinâmica e emocionante.

Ainda deixo uma outra dica para o leitor: em hipótese alguma termine de ler A Menina que Brincava com Fogo sem ter o terceiro e último volume da série (A Rainha do Castelo de Ar) na mão. É impossível não abrir o livro logo em seguida.

Imperdível.

Nerdshop

A Menina que Brincava com Fogo, de Steg Larsson (Companhia das Letras)

Resenha: Arquivos DC – Liga da Justiça

Sinopse: Coletânea das histórias clássicas da Liga da Justiça.

Arquivos DC – Liga da Justiça é uma ótima iniciativa da Panini, apresentando as primeiras histórias da Liga da Justiça na Era de Prata dos quadrinhos, escritas por Gardner Fox e desenhadas em sua maioria por Mike Sekowsky.

São mais de 500 páginas de quadrinhos mostrando todas as aventuras da Liga da Justiça original, composta pelos sete principais personagens da editora: Superman, Batman, Mulher Maravilha, Flash, Lanterna Verde, Aquaman e Caçador de Marte. Logo na primeira trama eles ganham um sidekick, Snaper Carr. Posteriormente o Arqueiro Verde e Elektron também entram para a equipe. Superman e Batman dão pouco as caras, sendo que nem chegam a aparecer em algumas histórias. A liderança era rotativa, mas na maioria das vezes fica a cargo da Mulher Maravilha.

As histórias são muito ingênuas e refletem bem como eram os quadrinhos da Era de Prata. Basicamente quase todas as tramas mostram, com algumas variações, vilões temíveis que dividem a Liga em pequenos grupos para realizar tarefas que impeçam que a Terra seja destruída. Quase todos os vilões conseguem capturar a Liga mas nunca dão cabo nos heróis, preferem perder tempo explicando seu plano do mal.

Outro detalhe é que quase todos os bandidos tinham asseclas amarelos para deter o Lanterna Verde, todos tinham algo feito de kriptonita e sempre insurgia fogo do nada para deter o Caçador de Marte.

Há algumas diferenças nos poderes dos heróis. Mulher Maravilha não podia voar, mas usava seu jato invisível. Já o J’onn J’onzz parece uma versão um pouco piorada do super, tendo praticamente os mesmos poderes só que um pouco mais fraco e não há nenhuma menção a telepatia ou intangibilidade.

Um detalhe interessante é que o primeiro inimigo que a Liga enfrenta nas HQs é Starro, uma espécie de Estrela do Mar alienígena gigante (!) que ataca o planeta. Quando Grant Morrison assumiu os roteiros da Liga nos anos 90, foi exatamente esse o primeiro inimigo que ele colocou para os heróis combaterem.

Outra curiosidade é a ciência do absurdo que povoa as narrativas. Em uma história J’onn J’onzz, o Caçador de Marte, modifica facilmente a composição de minerais para criar Magnetita. Viajar pelo espaço e pelo tempo são coisas corriqueiras para os heróis. Entre outros absurdos.

Arquivos DC – Liga da Justiça vale mais como curiosidade, apesar de ser diversão garantida. Uma dica para aqueles que comprarem o álbum, não leiam todas as histórias de uma vez só que pode-se enjoar facilmente. O melhor é ir lendo aos poucos para melhor apreciar esse clássico das HQs.

sábado, 22 de maio de 2010

Resenha: Artemis Fowl - O menino prodígio do crime

Sinopse: A graphic novel Artemis Fowl: O menino prodígio do crime reconta a história do primeiro volume da série, acompanhando as aventuras do jovem gênio do crime, Butler, Holly Short, Palha, Raiz e muitos outros.

Artemis Fowl: O menino prodígio do crime é a estréia do selo Galera Record no mercado de quadrinhos. Trata-se de uma adaptação da famosa série de livros infanto-juvenis de aventura Artemis Fowl, já publicado pela editora no Brasil.

Na trama, Artemis Fowl é o maior ladrão do mundo, mesmo tendo apenas doze anos de idade. Ele descende de uma longa linhagem de ladrões e recentemente seu pai desapareceu em circunstâncias misteriosas, deixando para trás sua mãe enlouquecida. Fowl conta com a ajuda de seu forte mordomo Butler e Juliet, irmã de Butler. Enquanto não desiste de encontrar o pai, o plano do protagonista é realizar o mais ousado roubo já cometido: contra o povo das fadas.

Pelo plot da história pode-se notar que é uma trama de fantasia com muitos elementos clássicos da literatura européia do gênero, mas também há uma mescla bem forte com a ficção-científica. Tanto as fadas quanto o Artemis Fowl e seus amigos recorrem a recursos tecnológicos. O resultado dessa fusão de gêneros é bem interessante.

A construção da história, que já era um sucesso na sua versão literária, é muito bem executada. A leitura flui muito bem e tudo é bem amarrado. O leitor fica preso para saber o desfecho da trama. E, apesar de ser uma história com começo, meio e fim, com uma conclusão emocionante, os autores introduzem diversos ganchos para os próximos volumes, como o misterioso sumiço do pai de Artemis Fowl.

Para explicar mais sobre os personagens, há na abertura dos capítulos diversas fichas técnicas de cada um deles.

Baseado em cima de uma história de sucesso, havia poucas chances dessa HQ não dar certo. Entretanto, a quadrinização em si é um pouco burocrática.

A sensação que se tem ao observar a arte de Giovanni Rigano e as cores de Paolo Lamanna é que o gibi parece uma fotonovela de um desenho animado. A colorização por computador e os requadros sempre com uma diagramação fixa é que conferem essa sensação.

Esse tipo de narrativa talvez decorra do fato de que o desenhista Giovanni Rigano é italiano e segue a escola desse país de fazer quadrinhos, para eles fummeti. Por lá, é muito comum os requadros variarem pouco durante a edição, buscando uma estilo de enquadramento mais cinematográfico.

Um outro aspecto da quadrinização, só que positivo, é que os autores evitarem lotar de recordatórios os quadrinhos. Diferentemente de outras adaptações, o texto ficou mais concentrado nos diálogos, deixando apenas o essencial para compreensão da história nos recordatórios.

No geral, Artemis Fowl: O menino prodígio do crime é uma HQ interessante e fica a torcida para que a editora lance também as continuações.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Resenha: O Alienista

Sinopse: “(...) O Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, do Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbrãs e Pádua. Aos 34 anos regressou ao Brasil.” No Brasil, o médico foi para Itaguaí e lá abriu sua Casa Verde, para cuidar de alienados e loucos. Mas nem tudo correu como o planejado.

A novela mais famosa de Machado de Assis, O Alienista, dispensa apresentações. Nesse texto, Machado narra a história de um médico que, em nome da ciência, vai prendendo e estudando todos os loucos da cidade de Itaguaí. Com o passar do tempo, ele prende qualquer pessoa que apresente qualquer patologia mental, por menor que fosse. A população da cidade se revolta e há uma série de reviravoltas, com um enredo inspirado na Revolução Francesa.

Bom, quem não conhecia ou ainda não tinha lido o texto original de Machado agora poderá conhecer na excelente adaptação dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá. Tal projeto vem na onda de adaptações literárias para os quadrinhos, que vem tomando muitas editoras de assalto. Casas como a Escala Educacional e Peirópolis já tem grande catálogo do gênero. Recentemente Conrad, Nova Fronteira, Agir, Salamanda e Ática também entraram no jogo.

As adaptações tem uma razão a mais que o simples trabalho artístico. Há alguns anos, o governo brasileiro colocou no seu edital do PNLE (Programa Nacional do Livro Escolar) as histórias em quadrinhos, tanto que ano passado algumas HQs já foram selecionadas para as compras governamentais. Juntar HQs e adaptações passa a ser um mercado lucrativo para as editoras.

Voltando ao Alienista, o trabalho dos gêmeos está com muita qualidade. O traço dos dois, misturado e indissociável, é muito bem executado. A arte é em sépia, e isso confere ao trabalho um estilo arcaico, quase como uma pagina velha, já amarelada.

O texto original, quando reproduzido, não sofreu nenhuma alteração, apenas algumas palavras tiveram a grafia atualizada. A qualidade literária de Machado e a narrativa visual gráfica dos gêmeos conferem uma fluidez excelente para a obra.

Destaque para o projeto gráfico de Marcelo Martinez, que encontrou uma ótima forma de compor um texto corrido em páginas tão grandes sem cansar a leitura.

Por todos esses motivos, o Alienista é uma leitura imperdível.

Nerdshop:
O Alienista, Fábio Moon & Gabriel Bá (Agir)

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Resenha: O Labirinto dos Ossos – The 39 Clues Vol. 1

Sinopse: Antes de morrer, Grace Cahill muda seu testamento, oferecendo aos membros de sua família duas opções: aceitar uma herança de US$ 1 milhão cada ou uma pista para encontrar um tesouro de valor inestimável. Os órfãos Dan e Amy Cahill topam a busca, mas não são a única equipe na contenda, e as demais estão dispostas a tudo para tirá-los da jogada.

Livros juvenis são um filão interessante e rentável. Além do óbvio público-alvo adolescente e pré-adolescente, muitas obras desse gênero literário conseguem fazer com que adultos empolgados se sintam rejuvenescidos. As séries Harry Potter e Crepúsculo são dois exemplos cabais disso.

Depois do fim de Harry Potter, a editora Scholastic ficou sem sua galinha dos ovos de ouro. Mas por pouco tempo, pois o sucessor já estava sendo planejado pela casa publicadora. A ideia era aproveitar a tendência de convergência de mídias, que tinham chegado ao auge em Lost, usando diversos meios para enriquecer a história principal e manter o público “logado” na trama o tempo todo.

Outra coisa que a editora tinha em mente é que não adiantava fazer uma história com a mesma roupagem de fantasia que dominava o mercado. Era o momento de quebrar expectativas, voltando-se para as ciências humanas e naturais, indo para um ambiente realista.

O resultado disso é a série The 39 Clues, que chega ao Brasil agora pelas mãos competentes da Editora Ática. O primeiro de dez livros da saga é O Labirinto dos Ossos, de Rick Riordan. Nele são apresentados os irmãos Cahill, seus adversários, a missão e as primeiras das 39 pistas a serem desvendadas para que se chegue no esperado tesouro.

Na trama, a família Cahill é influente na história da humanidade. Seu parentesco é vasto e seus membros estão em toda parte do mundo e em todas as épocas. Traçar o caminho da família é também traçar o caminho para o tesouro. Como não poderia deixar de ser, há quatro ramificações da família, cada uma formada por notáveis em um tipo de conhecimento. Ninguém sabe ao certo ainda quem é quem, mas aos poucos o autor revela a índole dos personagens.

Os protagonistas são expressivos. Amy é uma adolescente de 14 anos, nerd e sabe-tudo, odeia multidões e tem problemas de timidez. O oposto de Dan, seu irmão, 11 anos, que odeia estudar, é impetuoso e corajoso, adora matemática e tem memória fotográfica. Seguindo a jornada do herói, os dois são órfãos e perderam a querida avó. Nada emocional os impede de seguir na aventura.

O fio condutor da jornada em busca de um tesouro – que não é tão inovador assim vide O Código da Vinci ou os Goonies – é perfeito para a narrativa crossmídia. Descobrir pistas na internet e jogar o card game fica muito mais interessante com esse pano de fundo. Além disso, há uma preocupação em tudo que é citado ser exatamente como no mundo real. Todos os episódios históricos, todos os lugares, estritamente tudo citado é confirmável com uma simples pesquisa no Google.

Mas buscar outros meios não é essencial para acompanhar a trama, tanto que a editora nacional optou apenas por lançar os livros, sem adquirir os jogos. A leitura não fica comprometida, apenas, talvez, a experiência de quem pretendia imergir completamente no mundo de The 39 Clues.

Por falar na edição nacional, ela está muito bem executada. A capa brasileira é infinitamente superior à norte-americana, esta mais parecida com um folheto publicitário. O projeto gráfico é confortável, apesar de o formato ser diferente do habitual no país. A tradução é primorosa, bem como a edição. Há apenas uma derrapada, que não passa incólume pelos fãs de quadrinhos: há uma confusão, muito habitual, entre charge e cartum. Em dado momento, uma charge política de Benjamin Franklin é chamada de cartum, que são ilustrações cômicas sem referência a acontecimentos políticos ou do momento. Fora isso, tudo ok.

Com tudo isso, é impossível largar a leitura antes do final. E assim que chegamos na última página, já fica uma vontade de ler o próximo, que a editora promete para 2010.

Nerdshop:
O Labirinto dos Ossos, de Rick Riordan (Ática)

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Resenha: Filhos de Galagah

Sinopse: No mundo de Grinmelken, o reino de Galagah conta com Galatea, uma heroína virtuosa, filha do rei e Campeã Sagrada de sua religião, que parte para uma busca ordenada por seus sacerdotes, dragões.

A influência dos RPGs e, por conseguinte, de O Senhor dos Anéis é notória em diversos autores iniciantes brasileiros. Com Leandro Reis e seu Filhos de Galagah não é diferente.

Com uma história passada num mundo medieval fantástico habitado por elfos, dragões e feiticeiros, Reis apresenta Galetea, uma obstinada princesa paladina que luta para resgatar a honra de sua família, seu irmão que foi sequestrado e também três runas místicas que a farão a avatar do deus Radrak. Dessa maneira, ela poderá enfrentar os servos do deus maligno Enelock.

Em sua jornada, a heroína conta com o apoio dos elfos Gawyn, Sephiros e da feiticeira Illanara. Tal qual personagens de RPG, cada um deles tem suas histórias pregressas bem elaboradas e se envolvem na busca por motivos obscuros.

Reis tem uma narrativa envolvente e sabe bem como ordenar os eventos e o enredo. A história transcorre como um rio, reta e inexorável em direção à sua foz. Há algumas curvas, mas o leitor sabe quase que exatamente onde vai desembocar.

O principal destaque da obra são as cenas de ação, que Reis coordena com habilidade. A fraqueza da força é que elas se tornam constantes e em grande quantidade.

A grande falha do livro é não ser autocontido. A história não termina nele, continuará em sabe-se lá em quantos volumes. Lógico que o leitor que gostou muito da trama acompanhará os próximos livros, mas muita gente se decepcionará com o final aberto e não continuará. Além disso, ao deixar a história a terminar, o autor não mostra se é capaz de amarrar sua história com bons desfechos. Acredita-se que sim, mas não há prova de que arrebate o seu leitor.

O design do livro é interessante, com uma paragrafação diferente. O mapa do continente no final da obra está em baixa qualidade e é difícil de ler – deslize dos editores.

Quem quiser saber mais sobre o universo criado por Leandro Reis, basta acessar a página Grinmelken. Para saber mais sobre o livro, veja o ótimo trailer clicando aqui.

Nerdshop:
Filhos de Galagah, de Leandro Reis (Idea)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Resenha: Diário de Um Banana

Sinopse: Diário cômico que narra um período na vida do jovem e azarado Greg Heffley.

Diário de um Banana é uma hilariante narrativa do cotidiano do desaventurado Greg Heffley. Em seu diário, Greg conta os fatos que lhe sucedem no dia-a-dia.

Problemas de impopularidade na escola, diferenças com os pais, com os irmãos, problemas para poder jogar videogame, planos diabólicos que dão errado, enfim, tudo que um garoto normal da idade de Greg, cerca de 10 anos, tem de sofrer.

Exatamente por ser tão próximo da infância de qualquer um que se torna mais fácil se identificar e dar boas risadas com as historinhas de Greg. Cada um dos eventos que ele mostra em seu diário levam o leitor a dar boas gargalhadas e também se lembrar de algo semelhante que aconteceu consigo.

Entremeado por uma narrativa que imita o jeito de uma criança falar, mas sem nenhum erro de português proposital, mostrando que na mão de bons autores e tradutores o estilo pode estar em perfeita sintonia com o uso da língua, há ilustrações simples mas muito bem humoradas.

Esses desenhos, acompanhados de balões, funcionam como bons recursos do livro, mas não estão em quantidade suficiente para justificar o subtítulo “um romance em quadrinhos”. Talvez esse seja o único “erro” do livro, que apresenta uma produção editorial cuidadosa e bem-executada.

O acabamento é similar ao original norte-americano, que freqüentou o topo da lista dos mais vendidos no The New York Times, com uma capa dura e papel pólen. Esse cuidado gráfico encareceu o preço final do produto, mas elevou sua qualidade, deixando-o bem similar a um diário.

A editora ainda produziu um ótimo site, www.diariodeumbanana.com.br, para promover o livro, que apresenta várias atrações e um trecho do livro. A página segue o mesmo padrão da norte-americana www.wimpykid.com, mas um tanto mais modesta. Ambos os sites mostram como usar os recursos tecnológicos de maneira eficaz para promover e enriquecer o conteúdo do livro.

Quem quiser chorar de rir, como aconteceu comigo, Diário de um Banana é uma ótima pedida.

Nerdshop:
Diário de Um Banana, de Jeff Kinney (Vergara & Riba)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Resenha: Estrela do Mal — O Poder dos Cinco Vol. 2

Sinopse: Depois dos acontecimentos de O Portal do Corvo, Matt e Richard tocam a vida. Mas novamente surge o Nexo para recrutá-los pois um novo portal pode estar em vias de ser aberto, dessa vez no Peru. Matt se recusa a ajudar, mas quanto mais foge de seu destino, mais vai de encontro a ele.

Depois do ótimo O Portal do Corvo, a saga de O Poder dos Cinco, de Anthony Horowitz segue com este Estrela do Mal (Evil Star).

E, diferentemente da empolgante estréia que foi O Portal do Corvo, Estrela do Mal é um grande anticlímax. A princípio, a história parece dar um passo para trás. Mesmo depois de tudo que viu, Matt não está disposto a ajudar na luta contra os antigos, além disso não consegue acessar seu poder especial de jeito nenhum.

Mesmo a contragosto, o protagonista, ao lado de seu tutor Richard, embarca para o Peru para ir atrás de outro possível portal. E parece que, ao transferir a história de um lugar onde tinha domínio (Inglaterra) para um onde não tem (Peru), o autor Anthony Horowitz perdeu um pouco a mão.

Sua visão sobre o país latino-americano é claramente a do estrangeiro que não o compreende e o vê até mesmo com certo preconceito. O autor se esforça para enxergar o lugar de outra maneira, mas não é plenamente bem-sucedido.

Ainda comparado com o primeiro volume, Estrela do Mal também perde um pouco o ritmo e o ar de mistério que permeava a série. O leitor começa sabendo quem é o inimigo, como ele age e do que todos são capazes.

Contudo, superado esse choque anti-climático inicial, a saga entra novamente nos eixos, gerando uma boa e empolgante aventura. A conclusão da obra é de tirar o fôlego, dando um gancho perfeito para a continuação.

A sensação que se fica ao ler Estrela do Mal é de que, apesar de alguns problemas, a série ainda merece ser lida e que ainda tem muito a contar.

Nerdshop:
  • Estrela do Mal, de Anthony Horowitz (Record)
  • sábado, 15 de maio de 2010

    Virada Cultural Nerd

    Começa hoje e vai até amanhã a Virada Cultural Paulistana, com destaque para a Dimensão Nerd, só com eventos nerds, que acontecerá na Pça Roosevelt. Para saber mais clique aqui.

    O evento terá concursos de cosplay, mostras, performances, shows e uma feira de quadrinhos independentes. Compareça!

    sexta-feira, 14 de maio de 2010

    Resenha: Portal do Corvo – O Poder dos Cinco vol. 1, O

    Sinopse: O jovem órfão Matt se envolve num delito e, em vez de ir para um reformatório, é realocado para um projeto chamado LELAS, onde será educado por uma nova família do interior. Com isso, acaba envolvido num bizarro mundo cheio de magia, aventuras e segredos.

    O Portal do Corvo é o primeiro volume da série de literatura juvenil O Poder dos Cinco, do autor britânico Anthony Horowitz. Trata-se de uma coleção inteligente, que não subestima a capacidade do leitor, apresentando uma trama complexa mas ao mesmo tempo compreensível.

    Seguindo a tradição de autores britânicos de literatura fantástica juvenil, que tem em J.K. Rowling seu maior expoente da atualidade, Horowitz narra a trajetória de Matt Freeman, um jovem órfão que se vê envolvido num bizarro mundo de magia e segredos ancestrais.

    O livro já supreende por não apresentar um protagonista livre de defeitos, como é de praxe. Matt é um típico garoto problema, que se envolve com as pessoas erradas e termina pego após cometer um delito. Isso o leva ao projeto LELAS, que se propõe a educar jovens delinqüentes no interior da Inglaterra. Mesmo assim, apesar de andar fora da linha, Matt é um personagem de boa índole, que o leitor se identifica com facilidade.

    No LELAS, Matt acaba sob o jugo da temível Sra. Deverill e seu empregado Noah, além disso se vê envolvido com uma série de personagens estranhos que vivem no povoado do Pequeno Malling.

    Há algo estranho no ar, e Matt tenta fugir dessas pessoas que aparentemente conduzem terríveis experiências e tem poderes estranhos, como mudar o caminho de estradas e ativar uma velha usina nuclear.

    Todos que tentam ajudar Matt terminam desaparecidos ou mortos, até ele conhecer o jornalista Richard. Os dois juntos partem atrás de respostas e entram mais profundamente num universo em que poderes estranhos e ocultos estão em confronto desde o princípio dos tempos.

    Pela sinopse, O Portal do Corvo já seria uma leitura interessantíssima. Mas há ainda várias pontos que a tornam ainda mais divertida. O autor Anthony Horowitz é criador da série Alex Rider, além de diversas séries policiais de TV. Por isso, é notória as influências que a cultura pop exercem em seu livro.

    O leitor mais atento pode notar traços do livros de H.P. Lovecraft, das séries de TV Lost, Twin Peaks etc., quadrinhos norte-americanos e até de Harry Potter, o qual um dos personagens chega a mencionar em uma passagem da história.

    Além disso, a narrativa é uma verdadeira montanha-russa, com diversos momentos de ação muito bem balanceados com os de suspense.

    Talvez o maior defeito do livro seja que ele acaba rápido demais. Algumas partes da trama são deixadas de lado muito rapidamente, carecendo de explicação que talvez os próximos volumes da série possam promover.

    A edição da Record é competente. Há alguns poucos erros de revisão, como algumas palavras “comidas”, mas nada que comprometa. A tipologia pode causar um estranhamento inicial, mas a leitura flui bem apesar dela.

    Por fim, quem for fã de literatura fantástica juvenil terá muito a apreciar da leitura de O Portal do Corvo.

    Nerdshop:
    O Portal do Corvo, de Anthony Horowitz (Record)

    quinta-feira, 13 de maio de 2010

    Resenha: O estranho caso do cachorro morto

    Sinopse: Christopher Boone é um garoto de 15 anos que tem uma forma de autismo. Ao encontrar o cachorro da vizinha morto, Christopher decide bancar o detetive para tentar descobrir o assassino, mas isso o leva a diversas outras descobertas.

    O estranho caso do cachorro morto é o primeiro livro do autor Mark Haddon e é um tremendo sucesso. Vencedor de prêmios, o livro já foi traduzido para mais de 32 de idiomas e só no Brasil já conta com no mínimo 7 reimpressões. Trata-se de um livro juvenil, mas com apelo para todas as idades.

    A trama é sobre um menino autista que investiga a morte de um cão. O grande charme do livro é que é narrado em primeira pessoa, pelo ponto de vista do protagonista, como se fosse um diário que ele mantém enquanto faz suas “investigações”.

    Num trabalho de pesquisa intenso, o autor literalmente entra na mente da criança autista e passa para o papel todas as manias e dificuldades existentes nessa condição. O protagonista Christopher Boone na verdade é um gênio da matemática e da física, mas não consegue lidar bem com a interação com outros seres humanos. Tem aflicação do contato físico, não gosta das cores amarela e marrom, não entende metáforas e se torna agressivo quando acuado. Se fica nervoso, se enfia em algum lugar apertado e fica lá até sua aflição passar. É capaz de ficar mudo por dias ou semanas, apenas elevando números primos a potências gigantescas.

    Por si só, um livro narrado por alguém assim já seria de grande interesse. Entretanto, o romance tem um enredo que envolve a investigação da morte do cachorro e sua relação com seu pai e sua supostamente falecida mãe.

    Ao poucos o livro ganha em dramaticidade e a história da investigação traz revelações que tiram do prumo a vida organizada de Christopher. Há muitas passagens angustiantes para o leitor, que não consegue interromper a leitura até o saber qual será o final.

    O estranho caso do cachorro morto é um excelente romance tanto pela sua narrativa, quanto pelas sensações que desperta nos leitores. Merece ser lido e relido pela sua grande qualidade.

    Nerdshop:
    O estranho caso do cachorro morto, de Mark Haddon (Record)

    terça-feira, 11 de maio de 2010

    Resenha: Épico

    Sinopse: Em uma sociedade na qual a violência é um fato do passado, todas as disputas são travadas no mundo virtual do jogo chamado Épico.

    Ao ler Épico, de Conor Kostick, é natural a associação com diversas outras produções do mundo do entretenimento. A mais próxima e também a menos óbvia é o paralelismo do livro com a cinessérie Matrix.

    Como no filme dos irmãos Wachowski, em Épico, os seres humanos vivem uma distopia/utopia futurista, onde os recursos naturais são escassos e um mundo de realidade virtual paralelo é que guia a humanidade. Entretanto, em Épico há uma idéia um pouco mais requintada onde os humanos se plugam e desplugam desse mundo nas suas horas vagas do trabalho duro nas fazendas e minas controladas pelo estado, que serve como entretenimento, economia e instrumento de julgamento e política.

    O jogo em si é uma espécie de World of Warcraft ou Ultima Online misturado com realidade virtual, algo como o visto na série de mangás e animês .Hack. Os personagens tem de enfrentar kobolds e goblins, juntar tesouros e se equipar. Quem tem os melhores personagens consegue uma vaga na Universidade, única maneira de ascensão social. O mundo baniu a violência e pune com rigor quem a comete. Quando as pessoas precisam resolver problemas da vida real, desafiam umas as outras e ao governo, chamado de Central de Distribuição, em duelos numa arena. A Central controla os meios de produção e seus personagens tem os maiores níveis e armas mágicas, sendo praticamente impossível que um cidadão comum a derrote no jogo. Dessa maneira o governo oprime o seu povo.

    Quando o livro começa, esse modelo de mundo está prestes a ser modificado pela ação do protagonista Erik. Movido por motivações moralmente corretas, mas egoístas, como resgatar o seu pai do exílio, Erik descobre falhas no jogo que lhe permitem, juntos de fiéis amigos, conseguir tesouros mais poderosos e desafiar de maneira contundente a Central de Distribuição para acabar com diversas injustiças.

    A trama é bem conduzia pelo autor, inserindo interessantes reviravoltas, mas sem nenhuma delas ser forçada. Paralelamente ele consegue contar algumas histórias, sendo que o enfoque principal é na de Erik, amarrando muito bem todas elas no final.

    Já a narrativa é ótima. Prende o leitor no livro, alternando diálogos bem feitos e verossímeis com cenas de ação bem descritas.

    Voltando a comparação com Matrix, pode ocorrer ao leitor que Épico não tem as indagações metafísicas que o filme possui. Ledo engano, a metafísica e a filosofia estão presentes no trabalho de Conor Kostick, só que de maneira mais sutil e bem incluída dentro do texto. Figuras como Avatar, Erick e sua personagem Cindella, Anonemous, Harald, Sven e, mesmo, Ragnok, desempenham papéis marcantes e arquetípicos na trama. Porém, não se encontrará nenhuma verborragia metafísica no livro. Para meditar sobre a existência, o universo e tudo mais com Épico é preciso ler nas entrelinhas.

    Por tudo isso, Épico é um livro de fantasia/sci-fi classificado como juvenial, entretanto muito mais complexo do que se esperaria de um livro do gênero.

    Na verdade, é mais fácil encontrar exemplos de livros de boa literatura bem elaborados e com tramas complexas no gênero juvenil, mas especificamente de fantasia, do que o contrário (História sem Fim de Michal Ende é um ótimo exemplo). Entretanto, esse tipo de produção sofre naturalmente um pequeno preconceito.

    Por tudo isso, Épico é uma grata surpresa na prateleira de livros. Altamente recomendado aos fãs do gênero e leitores nerds em geral.

    Nerdshop:
    Épico, de Conor Kostick (Galera Record)

    segunda-feira, 10 de maio de 2010

    Nota de Falecimento: Frank Frazetta


    Faleceu hoje, aos 82 anos e em decorrência de um derrame, o renomado ilustrador Frank Frazetta. Frazetta é famoso por seus trabalhos de ilustrações de fantasia, capaz de gibis e, sobretudo, de sua visão sobre o clássico Conan, de Robert E. Howard.

    Sua morte será sentida em toda a comunidade nerd.

    sábado, 8 de maio de 2010

    Resenha: Elite da Tropa

    Sinopse: Baseado em eventos reais, livro revela pela primeira vez o dia-a-dia dramático dos policiais do BOPE, treinados para integrar a melhor tropa de guerra urbana do mundo.

    Depois de todo o sucesso do filme Tropa de Elite, muitos voltaram os olhos para o livro que originou o filme, Elite da Tropa, escrito a seis mãos pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares e dois ex-policiais do BOPE: André Batista e Rodrigo Pimentel.

    O livro é dividido em duas partes. A primeira parte é chamada de "Diário de Guerra", nela um policial do BOPE narra em primeira pessoa diversas situações que ele viveu no seu dia-a-dia. Muitas desses eventos estão retratados no filme, como o episódio da aula sobre estratégia durante o treinamento. Portanto, essa primeira parte é recheada de ação e situações que prendem o leitor.

    A segunda parte é "Dois Anos Depois: A Cidade Beija a Lona". Narrada em terceira pessoa, trata-se de uma história só, em contrapartida das diversas narrativas da parte 1. Ela é mais longa, mais focada nos diálogos que na ação. A trama envolve política, tráfico de drogas e corrupção em todos os níveis da sociedade. Aqui o BOPE mal dá as caras, e a linha narrativa se foca mais em Renata, assistente social cujo pai de seu filho é um PM corrupto, Santiago, que pode mergulhar a cidade numa guerra de facções criminosas, e no secretário de Segurança pública e seus comandados tentando evitar a tal guerra.

    Nessa segunda parte há um grande debate sociológico escondido nos diálogos sobre segurança pública e corrupção do estado e da sociedade. A situação caótica da criminalidade carioca é estudada e explorada por meio dos personagens do romance. Não é à toa, pois um dos autores é o antropólogo Luiz Eduardo Soares, que foi secretário nacional de Segurança Pública.

    Quem procura mais da ação do filme, a primeira parte será mais interessante. Quem estiver interessado em ampliar os debates que Tropa de Elite suscitou na sociedade, a segunda parte é a mais importante.

    Sobre o livro em si, é uma produção competente. Diferentemente de Cidade de Deus, por exemplo, os diálogos aqui, apesar de manter a estrutura oral, trazem as palavras escritas de maneira correta, bem como as construções. Apesar do bom trabalho de revisão, isso faz o livro perder um pouco a credibilidade, pois os diálogos soam um pouco falsos. Mas não é nada que comprometa.

    A narrativa é fluida e não perde tempo com descrições desnecessárias. É mais focada na ação e nos diálogos, porém descreve situações e lugares quando é necessário.

    O projeto gráfico é bom, de leitura confortável. Mesmo sem o personagem dar as caras no livro, a capa da última edição estampa Wagner Moura como o Capitão Nascimento, para pegar esteira no sucesso do filme.

    Um detalhe interessante é notar a presença do diretor José Padilha em todas as etapas do projeto, pois um dos autores agradece o diretor dizendo que ele é um “parceiro desde a concepção do projeto”. Longo, ambicioso e de muito sucesso.

    Nerdshop:
    Elite da Tropa, de Luiz Eduardo Soares, André Batista, Rodrigo Pimentel (Objetiva)

    sexta-feira, 7 de maio de 2010

    Resenha: Cidade de Deus

    Sinopse: Baseado em fatos, Cidade de Deus é um relato de transformações sociais pelas quais passou o conjunto habitacional Cidade de Deus: da pequena criminalidade dos anos 60 à situação de violência generalizada e de domínio do tráfico de drogas dos anos 90.

    Comemorando uma década do lançamento original do livro Cidade de Deus, a Companhia das Letras lançou duas edições novas da obra. Uma grande, com ensaios sobre o romance e com o texto integral e outra pocket, com um preço mais acessível, sem o texto integral, e pelo seu selo Companhia de Bolso.

    Quem já for ter o primeiro contato com o romance Cidade de Deus agora fará a inevitável comparação com o filme de Fernando Meirelles, um dos maiores sucessos do cinema nacional e indicado ao Oscar em quatro das principais categorias.

    Apesar dessa inevitável comparação, é bom ter na cabeça o óbvio ao folhear as primeiras páginas: o livro e o filme são duas obras diferentes. A começar pelo narrador, onisciente na versão de papel, mas adaptado para o personagem Busca-Pé no cinema. Tal adaptação era necessária para colocar as sacadas e comentários que só um narrador poderia fazer e que onisciente ficaria muito incomum em um filme.

    Uma coisa que tem em comum em ambos é o carrossel de personagens. Paulo Lins faz um bem-bolado rodízio de personagens, contando histórias mil. Malandros, bandidos, moradores, sambistas, donos de bar, jovens, trabalhadores, policiais, todos eles entram na grande dança que é Cidade de Deus. Há alguns personagens que são foco principal da ação, como Inferninho no primeiro terço do livro e Zé Miúdo no resto, mas as outras histórias acontecem ao seu redor.

    Com isso, Lins cria uma infinidade de personagens marcantes, outros nem tanto, mas todos retratos fiéis da sociedade brasileira.

    Um ícone marcante no romance é o chamado “malandro”. Independente da circunstância, quase todos os personagens de Cidade de Deus são ou desejam ser um malandro. Interessante que a figura do malandro é muito comum na literatura brasileira. Personagens como Leonardinho (Memórias de um Sargento de Milícias), Macunaíma ou mesmo Brás Cubas, imortalizaram essa figura tão emblemática da nossa cultura.

    A narrativa de Paulo Lins é quase objetiva. A fala dos personagens é recheada de gírias e os eventos são sempre verossímeis e chocantes. Os personagens são humanos e se guiam por emoções humanas, como amor, cobiça e vingança. Mesmo na guerra entre Zé Bonito (Mané Galinha no filme) e Zé Miúdo, não há lado bom ou mau, apenas dois lados lutando e um livro para contar o que acontece.

    Nesse último aspecto, o livro difere muito de sua adaptação que acaba caindo um pouco no maniqueísmo de colocar bandidos “bons” e “maus” lutando pelo controle da favela. É mais fácil pensar assim cinematograficamente, apesar de ser menos sólido, menos real. Essa é a grande vantagem do livro: ser um retrato mais fiel do mundo, apesar de o filme ser mais emocionante e uma diversão bem mais aprazível.

    Nerdshop:
    Cidade de Deus, de Paulo Lins (Companhia de Bolso)

    quarta-feira, 5 de maio de 2010

    Resenha: Che – Os últimos dias de um herói

    Sinopse: Biografia em quadrinhos do histórico Che Guevara.

    Che Guevara é um herói. Mesmo considerado um vilão para aqueles que não concordam com seus ideais ou métodos, o personagem histórico que lutou na Revolução Cubana e morreu como guerrilheiro na Bolívia em 1968 é uma inspiração, um verdadeiro para muitos super-herói.

    E todos sabemos que quem melhor retrata os super-heróis são as histórias em quadrinhos.

    Só que Che foi um herói diferente. Asmático, doente, sem grandes recursos ou poderes extraordinários, ele se aproxima do conceito de herói por lutar a favor dos oprimidos, por inspirar a justiça e combater as injustiças.

    Foi exatamente por ser um mito pouco convencional que sua biografia em quadrinhos deveria ser pouco convencional, como Che - Os últimos dias de um herói, dos argentinos Hector Oesterheld, Alberto e Enrique Breccia.

    Lançado pouco tempo depois da morte de Che, em 1968, o gibi chamou muita atenção por sua ousadia e riqueza de detalhes.

    Praticamente sem diálogos, a história mostra desde a juventude até a morte de Ernesto Guevara, sem se aprofundar muito. Claramente, os autores dão preferência a passagens mais marcantes que formaram e demonstram o seu caráter.

    O texto de Hector Oesterheld, autor que foi perseguido e morto durante a ditadura militar argentina, tem qualidade literária acima da média. Sua narrativa flui e prende o leitor, que não consegue largar a HQ.

    Mas seu roteiro fenomenal não seria motivo suficiente para alçar a HQ à condição de clássico. Isso acontece também por causa da arte sem igual da dupla Alberto e Enrique Breccia, pai e filho.

    O domínio de claro e escuro dos dois é impressionante. O resultado é uma narrativa visual soberba, marcante, em que cada página é uma obra de arte única.

    A edição da Conrad também está de parabéns. Formato de luxo, capa dura, mas a um preço acessível.

    Porém, antes de correr para comprar o livro, é importante relevar também os poucos pontos fracos. O gibi é um tanto romântico demais. Guevara é realmente tratado como um super-herói, perfeito. Sua falibilidade não é colocada à prova, o que pode incomodar um pouco. Entretanto, não desmerece a qualidade ímpar do gibi.