sexta-feira, 30 de abril de 2010

Resenha: Beber, Jogar, F@#der

Sinopse: Após ser abandonado pela esposa, Bob Sullivan deixa sua monótona vida e cai na farra em um ano sabático de diversão, com viagens internacionais regadas a bebida, a jogo e a sexo.

Logo a primeira vista, Beber, Jogar, F@#er (Drink, Play, F@#k) já chama a atenção por ser uma versão masculina e, aparentemente, canalha do bestseller feminino de autoajuda disfarçada Comer, Rezar, Amar. Tudo, desde o projeto gráfico até o título aproxima os dois livros. Com a óbvia diferença de que o que fala sobre bebida, jogatina e sexo é muito mais interessante do que o sobre comida, reza e amor.

Fora isso, Beber, Jogar, F@#er é também um romance com uma autoajuda oculta. O protagonista Bob Sullivan está passando por uma depressão após ter sido chutado pela mulher e parte por uma viagem pelo mundo para procurar a felicidade, no caso dele em forma de bebida, jogo e sexo. Porém, Bob na verdade só que sair da fossa e encontrar um novo amor. É em torno disso que gira o livro.

Duas coisas precisam ser destacadas quanto à estrutura da narrativa. Primeiro, o livro fala bastante e de maneira satisfatória sobre bebida e jogatina. A primeira parte, na Irlanda, onde Bob bebe todos os dias em pubs diferentes, e a segunda parte, na qual ele joga por meses a fio em Las Vegas, são excelentes. Durante esses capítulos, é impossível largar a leitura. Mas na parte do sexo rola uma propaganda enganosa. Até tem um pouco, mas está escondido sob um certo pudor – a sensação que se tem é a de assistir a cenas de sexo de filme de comédia romântica, sem muita ação. Tudo nesse trecho, inclusive, se aproxima das comédias românticas, até o desfecho.

Segundo, o livro nos leva a crer que é uma história real. Narrado em primeira pessoa, apesar de acontecimentos insólitos, tudo é construído para fazer o leitor acreditar que a história de Bob é real, quando de fato trata-se de um romance de autoria de Andrew Gottleb. Na segunda orelha a editora avisa que se trata se uma obra de ficção, mas até chegar lá, o leitor acredita que se trata de uma autobiografia.

O trabalho da editora Planeta é competente, com uma boa tradução e uma boa preparação de texto. A diagramação usa um corpo grande e uma entrelinha generosa, que torna a leitura confortável e fluida. Isso faz com que, mesmo com alguns pontos negativos, e com algumas enganações, no geral Beber, Jogar, F@#er é uma leitura divertida, sobretudo pelas duas primeiras partes.

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Beber, Jogar, F@#er, de Andrew Gottlieb (Planeta)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Resenha: 1808

Sinopse: Pesquisa histórica que narra a fuga da família real portuguesa para o Brasil em 1808, durante as Guerras Napoleônicas.

Para entender a dinâmica de 1808 é preciso saber as circunstância de sua concepção. O autor explica, em sua introdução, que o livro nasceu como uma reportagem para um especial histórico da revista Veja sobre Don João VI e a vinda da família real portuguesa para o Brasil. O especial foi cancelado, mas o autor, que na época era editor-executivo da revista, deu continuidade as suas pesquisas movido pela paixão sobre o tema.

Orientado pela pesquisadora e professora Maria Odila Leite da Silva e com acesso a biblioteca do lendário José Mindlin, o autor Laurentino Gomes pode desenvolver um bom trabalho ao longo de dez anos de pesquisa e consulta de documentos históricos.

O fato de ter nascido como uma reportagem para uma revista de grande circulação influi diretamente no tom do texto da obra. A narrativa funciona como uma grande reportagem que explica detalhes e curiosidades aos leitores leigos. A leitura é fluente e palatável e impele o leitor a continuar. Não é à toa que o livro está no topo da lista dos mais vendidos.

Historiadores podem aproveitar o livro também, mas o autor deixa claro que não é essa a proposta. Ainda na sua introdução, ele fala que quis fugir do texto e da estrutura acadêmica. Uma prova disso são as afirmações taxativas dos números levantados pelo autor. Historiadores costumam colocar números aproximados para falar de quantidades. Laurentino, por outro lado, dá números cheios e quase sempre afirma categoricamente que são, por exemplo, “60 000 pessoas”. Inclusive, a padronização pela grafia em numerais ajudar a dar essa idéia de quantidades precisas. Não é sempre que ele faz isso e muitas vezes ele teve acesso a números precisos mesmo, mas isso incomoda um pouco no livro.

1808 é dividido em 29 capítulos, mais bibliografia, notas e três cadernos de imagens. Os capítulos são curtos e cada um aborda um aspecto da vinda, da presença e depois da partida da família real portuguesa do Brasil. Há capítulos sobre como ficou Portugal sem um governo, como foi a resistência contra os franceses, a reação dos portugueses ao chegarem ao Brasil, um sobre a rainha Carlota Joaquina e muitos sobre Don João VI, o protagonista da obra.

O cadernos de imagens trazem pinturas que retrataram os locais, costumes e pessoas da época. Nas notas, um pouco de falta de elegância da Editora Planeta, que coloca apenas número de página e título da obra. Não há qualquer menção a outras editoras ou mesmo a cidade onde a obra original foi publicada, ficando tudo apenas para a bibliografia. Não é necessário citar, mas é deselegante não fazê-lo.

No mais, 1808 é uma leitura interessante sobre o tema, mas não tem nada de muito mais especial.

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1808, de Laurentino Gomes (Planeta)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Resenha: Coisas Frágeis

Sinopse: Contos de Neil Gaiman publicados em diversos momentos de sua carreira e compilados para a edição original.

Quando a Conrad Editora anunciou mais uma tradução de Neil Gaiman os fãs se refestelaram: a editora sempre acertara a mão com o autor e mantinha poucos livros ainda sem uma versão brasileira. A escolha da vez era Coisas Frágeis (Fragile Things). Tratava-se de um livro de contos, compilando textos dele originalmente publicados em outras circunstâncias.

Mas a empolgação do leitor dura até abrir o livro. Os mais de 30 textos originais se tornaram dez míseros na edição brasileira. O motivo ninguém sabe, mas o fato é que muitos textos bons ficaram de fora, inclusive um que Gaiman pretendia ler quando da sua passagem no Brasil, para a Flip de 2008.

Após essa frustração inicial, o livro é bem bom. Os contos mostram Gaiman na sua melhor forma, emulando estilos, homenageando autores e compondo histórias interessantes e envolventes.

O primeiro texto é “Um Estudo em Esmeralda”, que como o próprio nome sugere, é uma homenagem a Sir Conan Doyle e sua criação mais famosa: Sherlock Holmes. Nas palavras de Gaiman em sua introdução “uma mistura de Sherlock Homes como H.P. Lovecraft”. O resultado é bem legal e deve agradar os fãs dos dois estilos.

“A vez de Outubro” traz Gaiman homenageando o escritor de ficção científica e fantástica Ray Bradbury e seus livros de contos amarrados por uma história maior e simples. Nesse conto curto, a personificação do mês de Outubro narra uma aventura de um garoto vivo e de um garoto morto. Impossível não lembrar dos Dead Boys Detectives, criação do autor em Sandman.

Em “Lembranças e Tesouros”, Gaiman mostra dois personagens que voltam a aparecer em “O Monarca do Vale”: Sr. Smith e Sr. Alice. Nada mais são do que os clichês de capanga e mafioso, respectivamente. Só que em se tratando do britânico autor de Sandman, nunca podemos esperar um clichê. Nas duas narrativas o enfoque é na fantasia obscura. Com resultados marcantes.

Vale mencionar ainda que “O Monarca do Vale” é estrelado por Shadow, protagonista de Deuses Americanos, passando-se dois anos após o fim do romance.

“Os Fatos no caso da Partida da Srta. Finch” é uma perturbadora história de terror sobre uma casa de horrores. Segundo o que é dito na introdução, Gaiman fez o conto para acompanhar uma ilustração de Frank Frazeta.

As Crônicas de Nárnia inspiraram “O Problema de Susan”, um dos contos mais interessantes de Coisas Frágeis, mas que demanda um certo conhecimento da obra de C.S. Lewis.

Já o conto “Golias”, além de referência clara a história bíblica de Davi e Golias, originalmente estava no site de Matrix e foi lançado antes do revolucionário filme. Curiosamente, em pouco tempo esse conto ganhou uma nova tradução, de sua versão ilustrada, pela Panini para o livro Matrix Comics Volume 1. A tradução e edição de texto da Conrad está um pouco melhor, entretanto.

Além de abordar gastronomia, o conto “O Pássaro-do-Sol” é um texto que Gaiman fez para sua filha. É o conto mais longo, e também o melhor do livro. Após ler as primeiras páginas, o leitor se vê absorvido até saber o seu final.

Por tudo isso, Coisas Frágeis é um bom livro, de leitura agradável. Mas deixa a sensação de frustração no leitor brasileiro por saber que só está lendo um terço do que Neil Gaiman concebeu inicialmente.

Para conferir a lista completa de contos, acesse aqui.

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Coisas Frágeis, de Neil Gaiman (Conrad)

terça-feira, 27 de abril de 2010

Resenha: Os Homens que não Amavam as Mulheres

Mistério de quarto, ops, ilha fechada*

Sinopse: Mikael Blomkvist é um jornalista à beira de um colapso profissional e financeiro. Condenado por uma reportagem difamatória que publicou na Millenium, revista da qual é editor-chefe, Mikael não tem idéia de como solucionar esse impasse. Para mudar de ares, enquanto pensa em como resolver seu problema, aceita uma oferta de Henrik Vanger, um empresário idoso obcecado com o desaparecimento da sobrinha Harriet quase 40 anos antes. Mikael concorda em passar um ano na ilha onde Vanger mora para investigar o que aconteceu com a moça em troca da chance de recuperar sua vida e sua reputação.

Os Homens que não Amavam as Mulheres chegou ao Brasil precedido por diversos artigos de jornal que contavam a história do autor, o sueco Stieg Larsson. Jornalista e fundador de revista – dados biográficos que se refletem no personagem principal Mikael –, Larsson morreu em 2004, aos 50 anos, pouco depois de concluir a trilogia Millenium, da qual este livro é o primeiro volume. Sucesso de vendas e crítica na Europa, Larsson foi saudado como aquele que resgatou o “mistério de quarto fechado” da obscuridade em que o tema repousava desde o final dos anos 1970.

Para aqueles não tão familiarizados com a teoria da literatura policial, cabe esclarecer que o “mistério de quarto fechado” é aquele em que o crime ocorre dentro de um ambiente controlado, a que poucas pessoas têm acesso, e cujos suspeitos são personagens ativos durante todo o desenrolar da trama. O exemplo clássico desse tipo de enredo é Assassinato no Expresso Oriente, de Agatha Christie. A escritora inglesa criou a história de um homem assassinado dentro de uma cabine de trem e, por circunstâncias diversas e muito bem explicadas, somente 13 ou 15 pessoas poderiam ter cometido o crime. É em torno desse grupo de passageiros que a história gira e todos recebem sua cota de atenção e importância dentro do enredo.

Em Os Homens que Não Amavam as Mulheres não é diferente, embora as dimensões sejam maiores, pelo menos geograficamente. O mistério que Mikael é contratado para investigar ocorreu 37 anos antes em uma ilha minúscula, onde a maioria dos habitantes ou é parente da garota desaparecida ou trabalha para as empresas da família dela. O cenário é construído pelo autor de forma que o número de suspeitos é limitado e a identidade e personalidade de todos os envolvidos são conhecidas.

A história, narrada em terceira pessoa, se ocupa principalmente do ponto de vista de Mikael, o jornalista em crise profissional. Em alguns trechos, porém, mostra o que acontece com Lisbeth Salander, pesquisadora excepcional quando o assunto é investigar a vida alheia. Alternando o foco entre um e outro, o livro faz os caminhos dos dois personagens se tangenciarem durante boa parte da leitura. Quando finalmente se cruzam, o livro atinge o auge e mantém um bom ritmo, mantendo a atenção e o interesse do leitor até a página final.

Mikael, Lisbeth e todos os demais personagens são construídos, se não com riqueza de detalhes, com características marcantes o suficiente para o leitor traçar um retrato de cada membro da família Vanger como se o fizesse com os membros de sua própria família. Alguns recursos gráficos, como a árvore genealógica dos Vanger e um mapa da ilha de Hedebyön, onde se passa a maior parte do livro, evitam que o leitor se perca ou se confunda.

O enredo é bastante interessante e vai agradar a leitores assíduos de livros policiais. Há várias referencias à literatura policial. Mikael é leitor de romances de mistério e suspense e autores como Val McDermid são citados como opções de leitura do personagem.

Durante a narrativa, diversos fatos são apresentados durante a investigação de Mikael. O leitor não sabe ainda em quais deve deter a atenção, mas o desenvolvimento do livro tem o grande mérito de recuperá-los todos com coerência e uni-los no final de forma a surpreender o leitor.

O desfecho e o desvendar do mistério, parte importantíssima em um livro que se pretende policial, não são totalmente inesperados – é possível que alguns leitores desconfiem de parte da solução do caso –, mas a forma com que Larsson consegue atar todas as pontas e dar um destino para os personagens é honesta, digna e ainda deixa um gancho que conquista o leitor. Quando chegamos à última linha, fechamos o livro com a esperança de que o segundo volume não tarde a ser publicado.

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Os Homens que não Amavam as Mulheres, de Stieg Larsson (Companhia das Letras)
*Esta resenha foi publicado originalmente no site Homem Nerd em 29/12/2008.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Resenha: C.O.V.A. – Centro de Orientação para Vilania Aplicada

Sinopse: Otto é um garoto especial. Tanto que foi levado, contra sua vontade, para o C.O.V.A. – Centro de Orientação para Vilania Aplicada, lugar onde as crianças aprendem a ser supervilãs. Mas Otto não está satisfeito com isso e pretende escapar.

Avaliação: Foi-se o tempo que os livros juvenis, como os clássicos de Marcos Rey e João Carlos Marinho, eram histórias que se passavam nas ruas e os protagonistas amigos do bairro e se metiam em aventuras com eles. Hoje em dia os livros desse filão apostam na proximidade das crianças com a escola, na cada vez maior quantidade de tempo que passam lá. Parte-se do pressuposto que, portanto, se alguma aventura acontecer, terá de ser no ambiente escolar.

Não sei se Harry Potter lançou essa tendência ou se potencializou uma necessidade latente, mas é evidente que as aventuras dos bruxinhos em Hogwarts fizeram escola (com o perdão do trocadilho). Um dos discípulos é esse C.O.V.A. – Centro de Orientação para Vilania Aplicada (H.I.V.E. – Higher Institute of Villainous Education), de Mark Walden.

Em vez de uma escola da magia, as crianças são levadas para uma bem-humorada (para o leitor) e tenebrosa (para o protagonista) escola de supervilões. Lá são divididos de acordo com suas aptidões: os potenciais cientistas loucos se tornam Alfas; os atléticos, Mercenários; os tecnológicos se tornam Técnicos, e os “mafiosos” viram os Político-financistas. Otto e seu amigo Wing vão para os Alfas e lá aprenderão os meandros das ciências, mas sem descuidar das outras áreas.

Há sacadas geniais como o sinal da escola para indicar o fim de cada aula ser uma risada maléfica, ou nas aulas os professores explicando coisas como “um supervilão nunca torpedeia um navio, ele constrói uma lula mecânica gigante, afinal, é preciso ter estilo”.

A trama é focada na tentativa de Otto de escapar da escola enquanto Nero, o diretor, e seu chefe, chamado Número 1, têm interesses escusos sobre ele. Mas há diversas subtramas paralelas, com especial destaque para o colega de quarto de Otto, Wing, em busca de um buraco em seu passado. O livro é o primeiro de uma série, portanto haverá muito tempo para explorar tudo isso.

A leitura é leve, rápida e divertida. Entretanto, como dito, o molde é Harry Potter. E há algumas coisas que aproximam demais C.O.V.A. da saga de J.K. Rowling, como as quatro “casas” e um personagem que tem pais notórios mas vai mal na escola, só se destacando em herbologia.

A edição da Record é competente, como sempre. Bom trabalho no texto e na arte, com especial destaque para a capa assinada por Igor Campos, que apesar do uniforme na ilustração da primeira capa não bater com o que é descrito no livro, chama a atenção na livraria.

O resultado final é positivo e compensa as horas de leitura.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Baltimore e o Vampiro

Sinopse: Durante a Segunda Guerra Mundial, o capitão inglês Henry Baltimore vê seu pelotão ser dizimado pelas forças inimigas. Depois da batalha, uma criatura bizarra passa a se alimentar dos corpos e, quando nota Baltimore, se volta contra ele. O capitão revida, e na batalha, acaba sendo envenenado na perna que termina amputada. Mas a criatura também tem parte do rosto desfigurado. A partir de então, os dois iniciam uma perseguição por vingança que envolve a todos na Europa.

Baltimore e o Vampiro chama atenção inicialmente por ser um trabalho de Mike Mignola, o criador de Hellboy. Entretanto, Mignola é responsável pela arte que ilustra as páginas do livro; a narrativa fica por conta do competente Christopher Golden, ainda pouco conhecido no Brasil.

No livro, Golden cria uma trama que junta uma grande narrativa da história de vingança entre Baltimore e o vampiro que o atacou no campo de batalha com narrativas mais curtas, praticamente contos, que os amigos de Baltimore contam uns aos outros em um bar enquanto esperam para encontrá-lo.

Além disso, outro charme do livro é o paralelismo proposital com o conto “O valente soldadinho de chumbo”, de Hans Christian Andersen. Tal qual o soldadinho, Baltimore não tem uma perna e precisa enfrentar um sórdido inimigo. Destaque para as belas ilustrações do soldadinho, de autoria de Mignola que abrem os capítulos. Sob elas sempre há um trecho original do conto de Andersen.

Uma outra comparação que pode ser feita é entre este livro e o clássico da literatura brasileira Noite na Taverna, de Alvares de Azevedo. Isso porque após a narrativa do encontro original entre Baltimore e o Rei Vermelho, o foco do livro vai para o encontro de três amigos do capitão em uma taverna. Por meio deles a história de Baltimore é contada.

Cada um deles o conheceu em diferentes momentos de sua vida e ouviram histórias medonhas de seus feitos. E todos eles só acreditaram nelas porque presenciaram coisas ainda mais bizarras. E essas coisas que presenciaram são contadas uns aos outros como contos. Exatamente como no livro de Azevedo. Entretanto, apenas a forma e conceito aproximam os dois livros. Enquanto no brasileiro as histórias contadas na taverna envolvem incesto, traição, necrofilia e outras coisas mais grotescas, o norte-americano fica apenas na seara do terror sobrenatural.

O trabalho de Golden é bastante versátil. Quando conta a história de Baltimore, a narrativa é em terceira pessoa; quando a palavra passa aos amigos de Baltimore que o esperam na Taverna, passa a ser primeira pessoa, mas sem perder o ritmo. Outra variação lingüística acontece quando estão em cena apenas Baltimore e o Rei Vermelho, quando o tempo dos verbos passa a ser o presente. E isso tudo sem ser cansativo. Méritos para o tradutor e para os preparadores de texto da edição brasileira.

A editora brasileira, por sinal, é a Manole, com o selo Amarylis. Trata-se de uma editora que no passado já publicou HQs e hoje está fora do cenário. Talvez se o resultado desse trabalho de Mignola surta um bom efeito, fique uma ponta de esperança de que futuramente a casa publicadora volte aos quadrinhos.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Resenha: A Dança da Morte


Sinopse: Um centro de armas biológicas nos EUA falha e uma gripe mutante e altamente adaptável foge e contamina 90% das população do país. Os sobreviventes buscam maneiras de reerguer a sociedade.

A Dança da Morte é talvez a maior obra de Stephen King. Ele próprio não crê nisso, mas seus fãs definitivamente pensam assim. E não é pra menos, trata-se de uma excelente história distópica sobre o fim do mundo contada por intermédio das vidas dos personagens.

O livro é irregular, com sua primeira metade sendo muito superior a segunda, mas isso não afeta o seu brilho de maneira nenhuma. A maneira como King conta uma história tão grandiosa (não só no enredo mas no volume de espantosas 940 páginas) usando os personagens é fantástico. Cada uma das caras que aparece no livro arrebata o leitor, que fica com vontade de ler mais e mais. Até mesmo os “vilões” da história como Harold, são interessantes e cativantes.

Não a toa que os criadores de Lost, Carlton Cuse e Damon Lidelof já declararam que A Dança da Morte é uma das maiores influências do seriado.

Lost não é a única referência televisiva. Em 1994 o filme virou uma minissérie televisiva vergonhosa, estrelada por Gary Senise e com participação de Max Wright (o pai da família de Alf, o ETeimoso).

A edição da Objetiva é competente, apesar de ter tido alguns problemas de fontes, sumindo, por exemplo, com as indicações dos graus Celsius nas medições de temperatura que aparecem na história. A tradução de Gilson Soares é igualmente competente e não deixa o ritmo do livro cair em nenhum momento.

Interessante notar também o caráter religioso do pano de fundo da história. Após o hecatombe proporcionado pelo vírus os sobreviventes se reúnem naturalmente entre um lado “bom” e um “mau”. A velha Abagail, do lado do bem, fala como um pregador e defende um comportamento quase asceta. Já o vilão Randall Flagg é uma espécie de messias satânico que incentiva a maldade. Diante de óbvia influência cristã é estranho ouvir histórias de pastores queimando os livros de Stephen King, mas acontece.

Apesar disso, a leitura do livro é recomendada a todos os fãs de boas histórias, sobretudo aos fãs do seriado Lost.

Confiram um preview do livro no Google Books clicando aqui.

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A Dança da Morte, de Stephen King (Objetiva)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Que sexta-feira mais pirada

Sinopse: Annabel é uma adolescente que acorda e descobre uma coisa incrível: tinha virado sua mãe! Só que a vida adulta não é tão simples como ela imaginava...

O tema fantasioso da troca de corpos e personalidades, quando bem-feito, é garantia de sucesso. Além disso, é um assunto universal, que instiga todos os gêneros humanos. Prova é que diversos filmes já foram feitos sobre isso, como é o caso do mega-sucesso nacional Se Eu Fosse Você. Até Chapolin Colorado e John Woo em A Outra Face já o visitaram, proporcionando diversas visões sobre as trocas de corpos.

Um dos longas mais divertidos sobre o tema e que proporciona um grande número de referências e piadas é Sexta-feira Muito Louca, de 2003. Lindsay Lohan e Jaime Lee Curtis fazem mãe e filha que trocam de corpos por um dia, a tal sexta-feira do título.

O que pouca gente sabe é que o longa é baseado em um livro juvenil, lançado no Brasil pela Editora Ática, sob o título: Que sexta-feira mais pirada.

A obra foi escrita em 1972 e mostra Annabel, uma adolescente rebelde e bagunceira às voltas com uma mudança inusitada: ela acorda no corpo de sua mãe. Mas, ao contrário do que se espera, sua mãe não está no corpo dela, mas sim outra Annabel, com um comportamento idêntico ao dela.

Então a menina no corpo de adulta tem de lidar com filhos complicados, com as camisas por passar do marido, com a visita de clientes da principal conta de publicidade que seu marido cuida, com o menino Boris, vizinho que está apaixonada etc.

O livro é bem divertido, sobretudo para o seu público-alvo, o juvenil. A autora tem umas sacadas interessantes que ficaram fora da versão cinematográfica.

Uma curiosidade, o filme de 2003 não foi a primeira transposição do livro para o cinema. Em 1976 Bárbara Harris e uma jovem Jodie Foster estrelaram outra.